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Muitos carros famosos hoje em dia tiveram uma origem humilde num par de linhas desenhadas num guardanapo de papel. Entre uma conversa e outra durante as refeições não é assim tão incomum entre pessoas criativas que algumas idéias ganhem lugar em espaços inusitados. Curioso notar que já nos primeiros esboços, ainda na fase de pré-projeto, costumam aparecer as linhas mestras que vão pré-definir a inclinação do pára-brisa, sua relação de ângulo com o capô e as bases das janelas laterais. Apesar de importantes, são as chamadas “linhas de caráter” – usualmente vistas acima das caixas de rodas – que usualmente definem a personalidade do design automotivo.

No Brasil de hoje temos, em termos de design, muitos produtos alinhados com as tendências mundiais. São diferentes nomes e designações para identificar variações sobre temas que costumam ser comuns – em maior ou menor grau – a todos os fabricantes. Detalhes como vincos marcantes, frisos cromados e repetidores de pisca – alerta nos retrovisores estão para os dias atuais como estavam as famigeradas faixas laterais para os nossos carros nos anos 1980.

Em tempos de mercado fechado e pouco investimento em novos produtos, eram os frisos cromados acima das caixas de rodas, juntamente dos “borrachões” colados entre os eixos, que materializavam os conceitos de marketing de produto e traziam distinções entre um “S” e um “LS”.

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Um autêntico produto da época era o VW Gol GTi de primeira geração. Falemos então um pouco sobre as contribuições deste ícone de nossa indústria para o estabelecimento deste ícone automotivo chamado de faixa lateral.

Em 1980 o VW Gol trouxe novos elementos de design para o país, buscando distinção dos então produtos consagrados da época. Embora mantivesse a linha de caráter presente no Brasília – aquela linha reta com relevo rebaixado acima das caixas de rodas que cortava a lateral desde as lanternas até sumir próximo dos faróis – trouxe também elementos novos, como a linha de cintura ascendente abaixo das janelas laterais e um desenho irregular nas caixas de rodas que morriam perto dos pára-choques – como no Passat – mas desciam até a base da carroceria entre as rodas. Estas linhas apareciam em oposição às linhas e ângulos absolutamente retos do Passat e viriam a fazer uma ponte para a transição dos novos princípios de design da marca que seriam vistos aqui quatro anos depois no VW Santana.

Desde sua concepção inicial com motor refrigerado a ar até sua consagração como veículo mais vendido do país por décadas, não estou muito certo de que a própria VW tivesse, no início, a dimensão do fenômeno que ele viria a ser. Com o passar do tempo e o fortalecimento do veículo como referência no mercado, novas versões foram sendo criadas para atender a demanda dentro das limitações de nossa linha de produtos. Foi quando o carro de linhas simples e proposta descomplicada precisou se sofisticar para carregar siglas nobres como GT – seguido anos depois do emblemático GTI – que as limitações do desenho original começaram a dar sinais de que ele poderia ter sido mais bem pensado quando de seus primeiros rascunhos num provável guardanapo de papel.

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Foi nesta altura que o modelo GT apresentou-se com a grossa faixa lateral preta, emprestada do Passat, e não mais com o friso preto e cromado sobre a linha de caráter das versões LS. Para completar o pacote visual o Gol ganhava um aplique na coluna B que emulava uma saída de ar, arrematada com um adesivo preto na porta para criar um bonito efeito de linhas integradas nos vidros laterais. Não restavam dúvidas quanto àquele ser o mais belo VW Gol em linha na época.

Estes novos itens passaram a integrar o rol de acessórios que os fãs da marca colocavam em seus carros em lojas de acessórios. E com isso víamos Gols LS cheios de cromados nas janelas ostentando suas pretas faixas laterais por todo lado. E com isso vinha uma constatação interessante: A linha que servia de base para colar as faixas entre as caixas de rodas era torta! Isso mesmo! Enquanto no Passat esta linha era reta, no Gol de primeira geração era uma barriga! Daí que não era incomum ver carros com faixas colocadas por seus donos por conta própria formarem um quase sorriso na lateral. Talvez na época algum visionário tenha sonhado com a lateral de um Sandero, ou simplesmente tivesse bebido umas a mais quando fez o rascunho do carro no suposto guardanapo de papel. O fato é que a linha era torta. Não de um jeito que soava a exercício de design, mas a desleixo.

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Na matéria você vê uma foto da lateral de uma Saveiro CL da época. A tortura do vinco inferior da carroceria da linha BX da Volks aparecia mais nas versões CL, pois estas tinham a faixa lateral mais fina que a GL (e ainda assim mais alta que no Gol 1000, cuja faixa era quase milimétrica). Note que a faixa preta cobre apenas parte do vinco inferior, pois ao ser alinhada com os pára-choques envolventes acaba evidenciando o detalhe da carroceria.

Ainda assim eu precisava ter certeza fática do que via e confirmar que não se tratava de mera ilusão de ótica. Foi daí que, andando pela rua em busca de referências para esta matéria, pedi licença pra um dono de Voyage CL para tirar as medidas do carro dele. Ele achou aquilo tudo muito esquisito, mas não se opôs. Peguei uma trena e fui medir a tal da linha. Usando a linha de caráter como referência e a soleira como base medi a distância de ambas com relação ao vinco lateral da carroceria, o qual deveria, em tese, servir de base para a colocação da faixa lateral.

O resultado das medidas é: 16/27 no início do vinco próximo à caixa de roda dianteira, 15/29 no ponto onde termina a porta e 15/30 próximo á caixa de roda traseira. Utilizando estas medidas com eixos delimitadores, o resultado num gráfico seria uma parábola convexa. Não uma linha ascendente (como no Gol G5) nem descendente (como no Seat Ibiza), mas uma “barriga”. Este defeito na carroceria tirava o sono dos funcionários na linha de montagem para alinhar a faixa nas versões de fábrica e denunciava a falta de preparo das lojas de acessórios que usavam o vinco como referência para colar as faixas no mercado paralelo. Eu tive um Gol “quadrado” e tive de conviver com isso até que a VW lançou aquela faixa mais grossa no modelo 1992 que conseguia cobrir o vinco por completo, embora o efeito visual não fosse necessariamente melhor.

O mesmo valia para o aplique nas janelas do GTi: a finalidade era esconder outra falha de projeto que eram os ângulos divergentes entre as janelas laterais e as portas do carro. Enquanto as janelas fixas tinham quinas arredondadas, as da porta eram em ângulo reto. Lembro-me de ter lido algo a respeito numa revista automotiva da década de 90, quando o projeto BX já estava mais do que cansado e aguardávamos a vinda do que viria a ser conhecida como geração “Bolinha”.

As cantoneiras de fato caiam com freqüência, principalmente quando os carros eram lavados com aqueles escovões de lava – rápido. Eu mesmo precisei comprar estas peças para reposição no nosso carro na época. Essa falta de sincronia entre o design das portas e das janelas laterais pode ser confirmado através da foto de qualquer Gol ou Voyage geração BX. Na Parati e na Saveiro (ambas usavam a mesma coluna central) este defeito era minimizado pelo desenho anguloso da grande janela lateral (ou na sua ausência no caso da Saveiro). A Parati era um projeto dois anos mais novo que o Gol e tiveram tempo de corrigir o deslize detectado no desenho do primeiro.

Com o tempo a VW abusou ainda mais do borrachão e cobriu toda a parte inferior no GTS/GTI para conseguir unir visualmente a lateral aos novos pára-choques plásticos integrados à carroceria. Com isso a “barriga” do friso foi suprimida, mas daí outra falha apareceu: como as cavas desciam até a soleira do carro, ao colar os borrachões estes faziam um calombo no contorno das caixas de roda e prejudicavam a integração visual com os pára-choques como acontecia com o Chevrolet Kadett GSI.

Usei o VW Gol como exemplo por suas particularidades, mas a moda das faixas laterais foi muito além de sua função primária de proteger a lateral do veículo de pequenas batidas e contagiou a maioria dos fabricantes. Este item por vezes mais estético do que prático traz resquícios na forma como buscamos diferenciar nossos carros até hoje.

Alguns dos valores do design automotivo de hoje são as linhas de cintura alta – que resultam em janelas com vidros pequenos, geralmente contornados na base ou no contorno completo por um friso cromado – e os fortes vincos laterais como os vistos em New Fiesta e Hyundai HB20. Por definição estes vincos profundos trazem jogos de luz e sombra que dispensam visualmente a colocação de frisos como complemento estético, pois segundo a filosofia das marcas, estas linhas buscam criar a ilusão de movimento mesmo com o veículo parado.

Você já reparou o que aconteceu com a lateral do HB20 na versão X ao acrescentar o borrachão à moda aventureira? Criou-se uma estática visual pelo excesso de linhas e o carro perdeu a harmonia que fez dele um hit de vendas. Agora, o que dizer para aqueles que colocam o friso cromado do Fiat Siena na lateral do New Fiesta?

Além de não ter sido concebido para o carro, a lateral do carro não tem nenhuma linha horizontal além da soleira. Assim, ao colar o friso cromado as lojas acompanham a linha de caráter e geram uma anomalia desnecessária, uma vez que a função primária do friso que é proteger a lateral fica comprometida, visto que o friso fica fixado na parte mais interna da carroceria em função do desenho esculpido nas chapas das portas entre as caixas de rodas.

Hoje temos no mercado faixas assumidamente genéricas, com algumas delas ostentando o nome do carro com a mesma logotipia adotada na carroceria. Afinal o design dos carros parece mudar na mesma proporção em que as vagas nos edifícios ficam cada vez mais apertadas e difíceis de encontrar.

Para além destes casos ainda fica a pergunta para aqueles que não expõem seus carros a estes riscos: Por que entre tantos vincos e frisos, ainda precisamos colar uma faixa na lateral de nossos carros?

Por Rique Franco





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