A expansão militar do Japão abre espaço para fábricas ociosas, e uma unidade da Nissan pode produzir drones sem herdar o conhecimento industrial

Fabrica Japao
Fabrica Japao

A expansão dos gastos japoneses com defesa surge como possível saída para fábricas automotivas ociosas, mas reaproveitar estruturas antigas pode esconder um problema industrial bem maior.

O Japão se aproxima da meta recentemente adotada de destinar cerca de 2% do PIB a despesas relacionadas à defesa, abrindo novas oportunidades para fabricantes locais.

Recursos direcionados a capacidades não tripuladas avançaram de aproximadamente ¥ 111 bilhões (R$ 3,6 bilhões) para ¥ 277 bilhões (R$ 9 bilhões) nesse movimento.

Uma das possibilidades mais concretas envolve a norte-americana Anduril, que negocia a compra de uma fábrica da Nissan próxima a Tóquio para produzir drones militares.

Propostas semelhantes, destinadas a aproveitar capacidade automotiva subutilizada na fabricação de equipamentos de defesa, também passaram a ser discutidas em diferentes países da Europa.

A aparente combinação entre fábricas disponíveis e encomendas crescentes, porém, ignora que produzir automóveis em massa exige uma estrutura bastante diferente daquela necessária para drones.

Eisaku Ito, chefe da Mitsubishi Heavy Industries, observa que equipamentos militares evoluem continuamente conforme novas necessidades aparecem, ao contrário de automóveis produzidos em grandes séries padronizadas.

Comprar uma unidade industrial, portanto, não significa adquirir automaticamente conhecimento produtivo, pois engenheiros, fornecedores, software e experiência acumulada são partes fundamentais dessa capacidade.

Da mesma maneira, ampliar encomendas governamentais cria demanda, mas não constrói imediatamente um ecossistema produtivo capaz de responder com eficiência e volumes maiores.

Sem capacidade suficiente para acompanhar os pedidos, gastos públicos mais elevados podem pressionar preços antes de ampliar significativamente a quantidade de produtos efetivamente fabricados.

Essa preocupação aparece justamente quando a política fiscal japonesa já influencia os mercados financeiros, acompanhada por enfraquecimento do iene e aumento dos custos de financiamento governamental.

O destino dessas fábricas importa porque a indústria automobilística continua sendo o maior setor exportador japonês e sustenta aproximadamente 5,5 milhões de empregos.

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A pressão aumentou depois que fabricantes chineses ultrapassaram o Japão como maiores exportadores mundiais de veículos e avançaram rapidamente sobre marcas japonesas dentro da própria China.

Segundo a Japan External Trade Organization, a participação japonesa no mercado automotivo chinês caiu de 23% em 2020 para apenas 11% em 2024.

Estratégias de eletrificação também enfrentam dificuldades, diante da adoção de EVs abaixo das expectativas em alguns mercados e da necessidade de financiar diferentes tecnologias simultaneamente.

A Honda acumulou perdas estimadas em ¥ 2,5 trilhões (R$ 81 bilhões) relacionadas às operações com EVs depois de abandonar diversos modelos elétricos anteriormente planejados.

A fábrica da Honda em Suzuka, na província de Mie, simboliza esse momento de revisão, após a companhia recuar de parte de sua estratégia de eletrificação.

Mesmo nesse cenário, transformar integralmente fábricas de automóveis em unidades de semicondutores ou drones dificilmente resolveria a questão central enfrentada pela indústria japonesa.

Uma alternativa seria identificar competências realmente transferíveis, como eletrônica de potência, sensores, materiais avançados, baterias, robótica e processos de fabricação de alta precisão.

Essas capacidades podem sustentar setores próximos, inclusive sistemas autônomos, desde que recebam investimentos específicos em profissionais, equipamentos, tecnologia e novas parcerias industriais.

Harshvardhan Sharma e outros defensores dessa abordagem enxergariam vantagem justamente na possibilidade de ampliar aplicações sem abandonar conhecimentos construídos durante décadas pela indústria automotiva.

O Japão já dispõe de engenharia sofisticada e ampla experiência industrial, portanto o desafio consiste menos em começar novamente e mais em fortalecer esses ativos.

Investimentos em tecnologias de uso civil e de defesa, incluindo fabricação de chips, poderiam ampliar competitividade enquanto criam uma estrutura produtiva mais resistente no longo prazo.

A experiência chinesa reforça essa lógica, pois seu avanço industrial não veio apenas de subsídios, mas de décadas dedicadas à infraestrutura, engenharia, produção e fornecedores conectados.

Diversas economias ocidentais seguiram trajetória diferente ao permitir que partes desses ecossistemas fossem reduzidas conforme etapas importantes da produção migraram para países asiáticos.

Capacidade industrial, afinal, leva anos ou décadas para amadurecer, tornando arriscado confundir uma nova fábrica ou um incentivo temporário com verdadeira força produtiva.

Para o Japão, o crescimento dos gastos com defesa pode valer mais se deixar fornecedores, profissionais e tecnologias mais competitivos do que simplesmente ocupar linhas automotivas disponíveis.

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Autor: Eber do Carmo

Fundador do Notícias Automotivas, com atuação por três décadas no segmento automotivo, tem 20 anos de experiência como jornalista automotivo no Notícias Automotivas, desde que criou o site em 2005. Anteriormente trabalhou em empresas automotivas, nos segmentos de personalização e áudio. Sua rede social: Facebook