A Toyota está silenciosamente redesenhando seus carros para economizar dinheiro, sem mexer na qualidade percebida pelos clientes

SUV branco da Toyota em uma linha de montagem, com o capô aberto e partes da carroceria ainda sem acabamento.
SUV da Toyota em uma linha de montagem; a fabricante pretende reduzir a variedade de componentes e ampliar o compartilhamento de peças entre modelos.

A Toyota pretende proteger sua rentabilidade simplificando componentes e processos internos, mas sem recorrer a cortes bruscos de pessoal ou reduzir a qualidade percebida pelos clientes.

A estratégia ganha força sob Kenta Kon, novo CEO da fabricante, num momento em que as margens diminuem diante de investimentos elevados e concorrência crescente.

Segundo Kon, a empresa não busca simplesmente baixar ao máximo o volume necessário para atingir o equilíbrio financeiro, pois precisa preservar também a saúde de seus fornecedores.

A preocupação é manter a cadeia produtiva funcionando mesmo em períodos difíceis, evitando decisões que poderiam desorganizar relações construídas pela Toyota ao longo de décadas.

Uma das principais medidas será reduzir a variedade de componentes utilizados entre diferentes modelos, ampliando o compartilhamento de peças e eliminando complexidades consideradas desnecessárias.

A fabricante também quer diminuir desperdícios e permitir que funcionários próximos aos processos tenham mais autonomia para identificar problemas e implementar melhorias diretamente.

Kon afirmou que muitas equipes já sabem o que precisa mudar, mas algumas estruturas internas acabam dificultando a execução dessas soluções no dia a dia.

A Toyota trabalha, por exemplo, com a fornecedora Toyota Boshoku para reduzir em 33% a quantidade de tipos diferentes de componentes utilizados nos bancos.

A própria Toyota Boshoku informou que já conseguiu diminuir em 76% a variedade de peças presentes nos apoios de cabeça produzidos para a fabricante.

O novo RAV4 apresentado neste ano oferece outro exemplo dessa estratégia, com redução de aproximadamente um terço na variedade de peças usadas nas maçanetas.

Nos retrovisores externos, a simplificação foi ainda maior, chegando a cerca de 50% menos variações de componentes em comparação com a geração anterior.

O objetivo é diminuir custos em elementos pouco visíveis para os consumidores, mantendo características consideradas importantes para acabamento, funcionamento e durabilidade dos veículos.

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Kon conhece de perto períodos de maior pressão financeira, pois trabalhou ao lado de Akio Toyoda durante a forte retração enfrentada pela empresa em 2009.

Naquela fase, a Toyota interrompeu projetos, reduziu investimentos e concentrou esforços no controle de custos para atravessar um ambiente econômico particularmente desfavorável.

Segundo o executivo, várias iniciativas futuras também tiveram de ser abandonadas naquele momento, experiência que ajudou a moldar sua disciplina financeira dentro da companhia.

Essa trajetória agora ganha importância porque o lucro operacional da Toyota caiu durante dois anos consecutivos depois de uma sequência positiva mantida até 2024.

Mesmo assim, a proposta atual não é repetir automaticamente medidas mais severas, mas utilizar a eficiência produtiva como principal ferramenta para conter despesas.

A empresa pretende preservar fornecedores estratégicos, evitar perdas desnecessárias de conhecimento industrial e manter estabilidade suficiente para reagir a mudanças no mercado.

A filosofia passa por usar a mesma peça em mais veículos sempre que possível, especialmente em mecanismos internos que não alteram de forma relevante a experiência percebida.

Esse tipo de padronização pode reduzir custos de desenvolvimento, compras, logística e montagem, além de facilitar a gestão de estoques ao longo da cadeia.

Ao mesmo tempo, a Toyota precisa assegurar que a simplificação não comprometa a confiabilidade associada à marca, justamente um dos pontos mais valorizados por seus consumidores.

A aposta de Kon está, portanto, menos em medidas imediatistas e mais na capacidade histórica da Toyota de aperfeiçoar processos produtivos continuamente sem desorganizar sua estrutura industrial.

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Autor: Eber do Carmo

Fundador do Notícias Automotivas, com atuação por três décadas no segmento automotivo, tem 20 anos de experiência como jornalista automotivo no Notícias Automotivas, desde que criou o site em 2005. Anteriormente trabalhou em empresas automotivas, nos segmentos de personalização e áudio. Sua rede social: Facebook