
A rotina de abastecer deixou de ser uma tarefa banal para muitos motoristas russos e passou a exigir planejamento, paciência e alguma rede de contatos.
A pressão aparece agora em cidades grandes e pequenas, depois que investidas ucranianas contra refinarias russas reduziram a oferta de gasolina no mercado interno.
Em várias regiões, condutores acordam antes do amanhecer, procuram postos com filas menores e recorrem a aplicativos alimentados por informações de outros usuários.
Alguns já avaliam combustíveis alternativos, enquanto outros tentam encontrar gasolina fora dos canais tradicionais, muitas vezes pagando mais e sem garantia de oferta.
Na região de Moscou, maior mercado consumidor de combustíveis do país, a mudança foi rápida demais para passar despercebida pelos moradores.
Elena, de 37 anos, diz que até duas semanas atrás ainda era possível contornar a falta de um tipo específico de gasolina buscando outro posto por perto, segundo reportagem da Bloomberg.
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Agora, segundo ela, o produto até pode ser encontrado, mas a busca ficou trabalhosa e exige insistência muito maior do motorista comum.
O aperto se intensifica após semanas de ações ucranianas contra refinarias, que em maio chegaram a pelo menos 17 registros, um pico histórico.
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Essas operações levaram à paralisação de algumas unidades que abastecem a Rússia europeia, enquanto o processamento nacional de petróleo caiu ao menor nível em 20 anos em junho, segundo a EA Analytics.
Mesmo com ritmo menor em junho, os efeitos continuaram fortes, especialmente após duas ações contra a refinaria de Moscou, principal fornecedora da capital.
Pela primeira vez desde o início da invasão em 2022, muitos moradores de Moscou passaram a sentir a guerra de forma prática no abastecimento diário.
O problema, antes mais visível no sul da Rússia e em áreas ucranianas ocupadas, avançou para o centro do país e chegou até a costa do Pacífico.
Até o fim de junho, cerca de 90% das regiões russas haviam adotado algum tipo de limite de venda ou relatado falhas de fornecimento, segundo levantamento da Bloomberg.
Alexander, de 44 anos, percorreu no domingo 100 quilômetros a partir de Bryansk, perto da fronteira com Belarus, sem encontrar um posto operando no trajeto.
Ele afirma que ainda havia gasolina na sexta-feira e no sábado, mas só conseguiu abastecer depois, em um posto isolado e distante.
Vladimir Putin reconheceu no domingo, pela primeira vez durante o aperto atual, que há dificuldades de fornecimento, embora tenha dito que elas não são críticas.
O vice-primeiro-ministro Alexander Novak determinou o monitoramento nacional dos combustíveis, informou a Interfax, enquanto o governo ainda avalia restringir exportações de diesel.
A situação, porém, não é igual em todo o país, já que moradores das regiões do Volga e dos Urais relataram pouca dificuldade para comprar oficialmente.
Nessas áreas, parte dos motoristas atribui as filas longas e postos vazios pontuais ao comportamento de compradores que tentam formar reserva.
No Tatarstão, região rica em petróleo e sede de grandes refinarias, um café ofereceu de 3 a 5 litros de gasolina e um galão a clientes.
A promoção valia para pedidos entre 1.500 e 2.500 rublos, sinalizando como o combustível virou atrativo comercial em meio à escassez localizada.
A busca por informação também cresceu, com ferramentas como Yandex.Fuel permitindo filtrar postos por tipo de combustível, embora usuários apontem dados desatualizados.
O Benzinradar.com, lançado recentemente, passou de 133 postos mapeados para um volume dez vezes maior em uma semana, usando relatos de motoristas.
Outro serviço, o Gdebenzin.org, afirma acompanhar mais de 26.000 postos na Rússia, mas também recebeu críticas de usuários nas redes sociais.
A Kaspersky, empresa russa de cibersegurança, alertou na semana passada sobre risco de malware em um aplicativo não identificado ligado à busca por combustível.
Na Cri meia ocupada, onde vendas a carros particulares foram suspensas antes para priorizar serviços essenciais e órgãos governamentais, canais no Telegram prometem entrega pré-paga.
Viktoria, de 43 anos, relata que não conseguiu comprar gasolina na rota entre Moscou e a região metropolitana até encontrar um posto pequeno.
Segundo ela, o local vendia combustível por um terço acima do preço oficial e aceitava apenas pagamento em dinheiro vivo.
A escassez também aumenta o interesse por conversões, e uma unidade da Gazprom PJSC registrou alta de 35% nas consultas para adaptação a metano.
A empresa diz que a maioria dos pedidos vem de pessoas físicas, incluindo donos de carros de passeio, além de interessados em ônibus e caminhões.
As cidades com maior procura são St. Petersburg, Krasnodar, Ryazan, Ulyanovsk e Rostov-on-Don, sobretudo no sul, no centro e no Volga.
Kirill, de 50 anos, mora na região de Tula, a cerca de 180 quilômetros de Moscou, e viaja diariamente até a capital russa.
No fim de semana, ele encontrou dezenas de postos fechados na rodovia, mas conseguiu gasolina porque conhecia o dono de uma unidade oficialmente sem atendimento.
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