Aposta em IA e processos digitais não entregou o salto esperado, admite a Ford; para recuperar know-how, a solução foi trazer veteranos de volta

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A liderança recém-conquistada pela Ford em qualidade inicial vem acompanhada de uma confissão rara sobre os limites da automação na indústria automotiva.

A marca alcançou o primeiro lugar entre fabricantes generalistas no ranking da JD Power, mas decidiu expor bastidores de uma virada difícil.

Durante anos, a empresa apostou pesado em sistemas automatizados para produção e projeto, acreditando que eles sustentariam um salto consistente de qualidade.

A experiência mostrou outro caminho, porque esses sistemas não eram tão robustos quanto a Ford imaginava em etapas centrais do desenvolvimento.

Para recuperar conhecimento técnico perdido, a fabricante precisou contratar, promover ou trazer de volta mais de 350 engenheiros experientes.

Parte desse grupo inclui profissionais antigos, chamados novamente para orientar equipes jovens e recalibrar processos digitais usados pela companhia.

Charles Poon, vice-presidente de engenharia de hardware veicular da Ford, afirmou que a empresa superestimou o efeito imediato da IA.

“Equivocadamente, pensamos que apenas introduzir inteligência artificial e ajustar os requisitos de projeto produziria um produto de alta qualidade”, disse Poon.

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Segundo o executivo, profissionais muito experientes saíram antes que todo o conhecimento acumulado fosse repassado para os sistemas automatizados da Ford.

Essa lacuna tornou necessário reensinar esses sistemas e, em alguns casos, colocar veteranos como mentores de engenheiros mais novos.

Poon explicou que esses especialistas já tinham vivência para identificar e resolver pontos frágeis antes que eles entrassem no fluxo de desenvolvimento.

A Ford também reconhece que a qualidade caiu nos últimos anos, período em que seus índices perderam força e os recalls aumentaram.

Atualmente, a empresa lidera a indústria em número de recalls, um dado sensível justamente após conquistar destaque no estudo da JD Power.

As dificuldades ganharam visibilidade nos lançamentos do Explorer e do Aviator, além das rupturas de cadeia durante a pandemia de covid.

Kumar Galhotra, diretor de operações da Ford, disse que a companhia percebeu uma estrutura de qualidade fragmentada demais entre diferentes áreas.

Os departamentos trabalhavam em silos, apoiados por uma mentalidade de encontrar e consertar pontos fracos depois que eles apareciam.

Essa lógica até resolvia demandas imediatas, mas não impedia que as mesmas fragilidades surgissem novamente em veículos e softwares posteriores.

“Estamos saindo dessa mentalidade de encontrar e consertar para prevenir pontos antes que ocorram”, afirmou Galhotra a jornalistas.

O executivo disse que a Ford agora foca indicadores iniciais e elementos que viabilizam qualidade, em vez de apenas observar resultados finais.

“Pare de admirar o problema e comece a resolvê-lo”, completou Galhotra, ao resumir a nova filosofia interna da fabricante.

A mudança também atinge software, já que equipes digitais passaram a trabalhar mais perto de engenharia veicular, manufatura e cadeia de fornecedores.

Segundo os executivos, a Ford quer unir a agilidade típica do desenvolvimento digital ao rigor exigido pela validação automotiva.

Antes, a marca encontrava bugs de software tarde demais, porque não aproveitava plenamente ciclos rápidos de teste e atualização.

Poon ressaltou, porém, que carros não podem seguir a lógica de eletrônicos de consumo, com ajustes rápidos enviados depois ao usuário.

Veículos dependem de software funcionando corretamente desde a entrega, pois operam em ambiente crítico e afetam diretamente a confiança do cliente.

Para reforçar essa área, a Ford criou uma equipe dedicada de garantia de qualidade de software, formada por 40 pessoas.

Mesmo após reconhecer excessos de confiança, a empresa não pretende reduzir o uso de IA em seus processos de engenharia.

A Ford afirma ter ampliado bastante seus testes automatizados, com mais de 100.000 novas avaliações movidas por IA.

Esses testes buscam cenários extremos e colocam sistemas de software sob várias condições, inclusive quando há mudanças tardias no desenvolvimento.

“Mesmo com uma mudança tardia no software, podemos refazer rapidamente toda a validação”, disse Poon sobre o novo método.

Segundo ele, a Ford estabeleceu confiabilidade de software como disciplina própria, com métricas rígidas antes de qualquer entrega ao cliente.

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Autor: Eber do Carmo

Fundador do Notícias Automotivas, com atuação por três décadas no segmento automotivo, tem 20 anos de experiência como jornalista automotivo no Notícias Automotivas, desde que criou o site em 2005. Anteriormente trabalhou em empresas automotivas, nos segmentos de personalização e áudio. Sua rede social: Facebook