Avaliação Leapmotor C10 BEV: acerta em autonomia, acabamento e conforto, porém exagera na ausência de comandos físicos, nas telas e nos alertas irritantes

Avaliacao Leapmotor C10 Bev Verde 1 1
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R$ 204.990 colocam o Leapmotor C10 BEV em uma faixa na qual poucos SUVs entregam tanto espaço, acabamento e tecnologia sem avançar para patamares bem mais caros.

A estreia da marca chinesa ganha peso com o apoio comercial da Stellantis, mas o C10 não tenta se comportar como um Jeep elétrico e mantém identidade própria na condução, no interior e na forma de interagir com o motorista.

Seu conjunto reúne cabine ampla, rodar confortável, desempenho suficiente e autonomia coerente para um veículo de duas toneladas.

As principais ressalvas aparecem menos na engenharia e mais em algumas escolhas de usabilidade, como o excesso de funções na tela, o acesso por cartão NFC e a ausência de Apple CarPlay e Android Auto.

Ainda assim, o saldo inicial é de um SUV elétrico competitivo, capaz de justificar o preço, desde que o proprietário aceite uma rotina mais digital do que prática.

Avaliacao Leapmotor C10 Bev Verde 2
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Tecnologia demais para tarefas simples

A principal reclamação sobre o C10 surge antes mesmo de o motorista se acomodar ao volante, porque o carro não oferece uma chave presencial convencional.

O acesso pode ser feito pelo smartphone ou por um cartão NFC, que precisa ser aproximado de um ponto específico no retrovisor do motorista para destravar as portas.

O cartão não funciona apenas por proximidade, não possui formato adequado para chaveiro e ainda precisa ser colocado sobre o carregador por indução para liberar a condução.

Na prática, abrir o carro, entregar a chave a um manobrista ou apenas acessar rapidamente o porta-malas se torna mais trabalhoso do que em veículos bem mais simples.

A proposta é moderna no papel, mas perde sentido quando uma solução tecnológica demanda mais etapas do que o sistema que pretende substituir.

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E olha que o cartão precisa ser colocado exatamente no ponto indicado no espelho do motorista. Erre o alvo por alguns centímetros, e ficará lá como bobo tentando várias vezes.

Na chuva, por exemplo.

Essa mesma lógica aparece dentro da cabine, onde quase todas as funções foram concentradas na tela central de 14,6 polegadas.

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Ajustes dos retrovisores, direção das saídas de ar, modos de condução, comandos dos faróis e diversas configurações do veículo dependem da multimídia.

O sistema é rápido, tem boa resolução e apresenta menus relativamente organizados, mas nenhuma dessas qualidades muda o fato de que um botão físico seria mais prático em várias situações.

Avaliacao Leapmotor C10 Bev Verde 6
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Reposicionar o fluxo do ar-condicionado enquanto se dirige, por exemplo, exige mais atenção do que simplesmente mover uma saída de ventilação com a mão.

Isso é perigoso.

O minimalismo deixa a cabine visualmente limpa, porém cobra seu preço em ergonomia e obriga o motorista a desviar os olhos da via com frequência maior do que o necessário.

Muito espaço, sem muita identidade

Com 4,74 metros de comprimento, 1,90 metro de largura, 1,68 metro de altura e 2,82 metros de distância entre-eixos, o C10 ocupa praticamente o mesmo espaço de SUVs maiores e mais caros.

As proporções lembram as de modelos como Jeep Commander e Caoa Chery Tiggo 8, embora o Leapmotor ofereça apenas cinco lugares.

Avaliacao Leapmotor C10 Bev Verde 9
Avaliacao Leapmotor C10 Bev Verde 9

O desenho externo segue a tendência dos elétricos chineses, com faróis estreitos, superfícies limpas, maçanetas embutidas e lanternas interligadas por uma faixa horizontal.

As rodas de 20 polegadas com pneus 245/45 ajudam a preencher bem os para-lamas, enquanto o teto panorâmico e os detalhes discretos reforçam a proposta sofisticada.

O resultado é equilibrado e pouco sujeito a envelhecer rapidamente, mas também não cria uma assinatura visual particularmente forte.

O C10 pode ser confundido com outros SUVs chineses de formato semelhante, algo que dificulta o reconhecimento de uma marca ainda desconhecida por boa parte do público brasileiro.

Avaliacao Leapmotor C10 Bev Verde 5
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Nada no desenho remete diretamente a Fiat, Jeep, Peugeot ou Citroën, o que deixa claro que a presença da Stellantis está muito mais ligada ao suporte comercial do que à identidade do produto.

Por dentro, a impressão melhora graças aos materiais macios no painel, nas portas e no console, além de bons encaixes e uma montagem que transmite solidez.

Os bancos dianteiros oferecem ajustes elétricos, aquecimento e ventilação, enquanto o motorista dispõe de memória de posição.

A falta de ajuste lombar, porém, destoa do nível de equipamentos e pode incomodar em viagens mais longas.

Avaliacao Leapmotor C10 Bev Verde 10
Avaliacao Leapmotor C10 Bev Verde 10

Uma cabine ampla e nem sempre prática

O espaço interno está entre os melhores argumentos do C10, principalmente para quem costuma transportar adultos no banco traseiro.

Mesmo com os bancos dianteiros recuados, sobra área para joelhos, pernas e cabeça, beneficiada pelo generoso entre-eixos.

As portas amplas facilitam o acesso, o piso pouco elevado melhora a acomodação e as saídas de ar traseiras contribuem para o conforto dos passageiros.

Dois adultos viajam com grande folga, enquanto um terceiro ocupante pode ser acomodado sem os apertos comuns em SUVs médios menores.

Na dianteira, os assentos têm espuma macia na medida certa, bom apoio lateral e regulagens amplas, proporcionando uma posição de dirigir confortável.

Avaliacao Leapmotor C10 Bev Verde 7
Avaliacao Leapmotor C10 Bev Verde 7

O console central elevado cria vários espaços para copos e objetos, embora o porta-luvas pequeno revele que o aproveitamento não é perfeito.

O porta-malas de 465 litros fica dentro da média da categoria e conta com tampa elétrica, ajuste de altura e compartimentos sob o piso.

Há ainda um pequeno espaço sob o capô dianteiro, útil para guardar cabos de recarga e evitar que esses itens ocupem o compartimento principal.

O teto panorâmico aumenta a sensação de amplitude, mas não possui abertura, característica que pode frustrar quem espera uma solução mais completa.

Avaliacao Leapmotor C10 Bev Verde 8
Avaliacao Leapmotor C10 Bev Verde 8

O retrovisor interno sem função fotocrômica também parece uma economia pouco coerente em um carro que oferece iluminação ambiente, reconhecimento facial e câmeras ao redor da carroceria.

Desempenho suficiente, freio difícil de modular

O motor elétrico instalado no eixo traseiro entrega 218 cv e 32,6 kgfm, valores suficientes para movimentar os 2.007 kg do SUV sem dificuldade.

A aceleração de 0 a 100 km/h ocorre em 8,3 segundos, número competitivo para a proposta, embora pouco impressionante diante de rivais elétricos mais rápidos.

No uso real, o C10 parece mais ágil do que a ficha técnica sugere, porque o torque instantâneo oferece respostas rápidas desde os primeiros movimentos do acelerador.

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As retomadas são fortes, as ultrapassagens acontecem com segurança e o carro mantém bom ritmo mesmo em subidas longas.

A entrega de potência é progressiva, sem trancos ou agressividade excessiva, tornando o comportamento confortável para os passageiros.

Mesmo no modo econômico existe força suficiente para a rotina, enquanto as configurações normal e esportiva alteram a sensibilidade do acelerador e o peso da direção.

A tração traseira contribui para uma sensação agradável de impulso e favorece o equilíbrio dinâmico nas acelerações.

O maior problema ao volante está no pedal de freio, cuja sensibilidade excessiva dificulta desacelerações suaves.

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Avaliacao Leapmotor C10 Bev Verde 13

Em manobras e no trânsito lento, pequenos toques podem provocar respostas mais fortes do que o esperado, gerando trancos até que o motorista se acostume.

A regeneração de energia e o modo de condução por um pedal reduzem a frequência de uso do freio, mas não substituem uma calibração mais progressiva.

É uma falha particularmente perceptível porque o restante do conjunto dinâmico demonstra cuidado e equilíbrio.

O carro sempre volta para o modo econômico, mesmo que você tenha selecionado o modo conforto hoje mesmo.

E esse modo econômico, além de regular a regeneração de energia para um nível alto e incômodo, também deixa o pedal do freio super sensível.

Avaliacao Leapmotor C10 Bev Verde 12
Avaliacao Leapmotor C10 Bev Verde 12

No modo conforto, tudo fica como deveria, até o freio fica mais suave, mas é necessário selecionar ele todo santo dia.

O conforto bem resolvido vem junto de alertas mal dosados

A suspensão combina estrutura McPherson na dianteira e conjunto multilink na traseira, com calibração adaptada para as condições brasileiras.

O acerto preserva a maciez típica de muitos carros chineses, mas evita o excesso de balanço que costuma acompanhar suspensões excessivamente confortáveis.

Buracos, valetas e remendos são absorvidos sem pancadas secas, apesar das rodas grandes e dos pneus de perfil relativamente baixo.

Avaliacao Leapmotor C10 Bev Verde 4
Avaliacao Leapmotor C10 Bev Verde 4

Na estrada, a carroceria permanece estável, sem flutuação exagerada em velocidades mais altas ou sensação de insegurança nas mudanças de direção.

A bateria instalada no assoalho reduz o centro de gravidade e ajuda o C10 a contornar curvas com comportamento previsível.

A direção é leve na cidade, ganha peso nos modos mais firmes e responde com rapidez, embora não transmita muita informação ao motorista.

O C10 não tenta ser esportivo, mas também não apresenta a falta de controle de carroceria vista em alguns SUVs pesados e macios.

O isolamento acústico é muito bom, com pouca invasão de ruído de pneus e vento mesmo em velocidade rodoviária.

O pacote de assistência ao motorista inclui controle de cruzeiro adaptativo, centralização em faixa, frenagem automática de emergência, monitoramento de ponto cego e alerta de tráfego cruzado.

Os sistemas cumprem suas funções, mas os avisos sonoros são frequentes, insistentes e capazes de cansar durante a condução cotidiana.

Alertas de velocidade, leitura de placas e correções de trajetória aparecem com grande intensidade, enquanto algumas configurações voltam ao padrão sempre que o carro é reiniciado.

É possível desativar parte dessas intervenções, mas repetir o procedimento a cada uso transforma um recurso de segurança em fonte constante de irritação.

Boa autonomia, recarga sem destaque

A bateria de 69,9 kWh oferece autonomia oficial próxima de 339 km pelo padrão do Inmetro.

O número parece discreto para um veículo desse porte, embora resultados de uso urbano indiquem que o C10 pode superar os 400 km em condições favoráveis.

A diferença entre cidade e rodovia é esperada em um elétrico grande e pesado, mas precisa ser considerada por quem pretende viajar com frequência.

Para deslocamentos urbanos e recarga residencial, a capacidade da bateria tende a atender sem dificuldade a rotina de vários dias.

Em viagens longas, porém, o motorista continuará dependente da disponibilidade e da confiabilidade da rede de carregadores.

A potência máxima de recarga em corrente contínua é de 84 kW, valor inferior ao oferecido por alguns concorrentes mais recentes.

Mesmo conectado a uma estação mais potente, o C10 não consegue aproveitar toda a capacidade disponível, o que limita a velocidade de reposição da bateria.

A passagem de 30% a 80% leva aproximadamente 30 a 35 minutos em condições adequadas, enquanto o carregador interno aceita até 11 kW em corrente alternada.

Não é um resultado ruim, mas tampouco representa vantagem em uma categoria na qual a velocidade de carregamento começa a ganhar importância crescente.

Tentamos fazer a recarga em casa, com o carregador simples fornecido junto com o carro, mas ele deu sinal de falha.

Disse que o neutro da minha tomada não é bom o suficiente. Mas foi a mesma tomada 110v comum com pino de 20A que usei para recarregar o Geely EX2 tranquilamente, há algumas semanas.

Cadê o meu Carplay?

A multimídia reúne navegação própria, conexão à internet, Spotify integrado e visualização das câmeras de 360 graus.

O sistema de som com 12 alto-falantes e 840 watts oferece boa definição, graves fortes e uma experiência superior à média da categoria.

A ausência de Apple CarPlay e Android Auto, entretanto, é uma falha difícil de ignorar em um carro tão dependente de conectividade.

A navegação nativa reconhece endereços brasileiros, exibe trânsito e informa limites de velocidade, mas não substitui completamente os aplicativos aos quais os usuários já estão acostumados.

Alguns estabelecimentos comerciais que tentei colocar como localização não foram encontrados. Estavam com o nome antigo que já não é usado por alguns anos.

O painel de instrumentos de aproximadamente 10,2 polegadas apresenta as informações essenciais com clareza, embora ofereça poucas possibilidades de personalização.

Sete airbags, câmeras de boa resolução, sensores, reconhecimento do motorista e diferentes assistentes formam um pacote de segurança abrangente.

A garantia de quatro anos ou 100.000 km para o veículo e de oito anos ou 160.000 km para a bateria ajuda a reduzir a insegurança em torno de uma marca recém-chegada.

A estrutura de concessionárias e assistência administrada pela Stellantis também representa um diferencial relevante diante de fabricantes chinesas com presença mais limitada.

Esse suporte, contudo, não transforma o C10 em um produto semelhante a Jeep ou Fiat, pois sua dirigibilidade, ergonomia e concepção seguem uma escola própria.

Veredito

Por R$ 204.990, o Leapmotor C10 BEV oferece muito espaço, acabamento cuidadoso, desempenho adequado, conforto acima da média e autonomia suficiente para o uso urbano.

O carro acerta nos fundamentos, mas perde pontos justamente nas interações mais frequentes com o motorista.

O cartão NFC, a falta de espelhamento para smartphones, o freio sensível, os alertas insistentes e o excesso de comandos na tela não tornam o C10 um produto ruim, mas deixam sua convivência menos natural do que poderia ser.

Quem aceita essas particularidades encontra um SUV elétrico completo, refinado e competitivo pelo preço.

Quem prioriza simplicidade, ergonomia e facilidade de uso pode descobrir que alguns concorrentes menos sofisticados tecnologicamente são mais agradáveis no cotidiano.

O C10 demonstra que a Leapmotor sabe construir um bom carro, mas também confirma que nem toda inovação representa uma melhora.

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Autor: Eber do Carmo

Fundador do Notícias Automotivas, com atuação por três décadas no segmento automotivo, tem 20 anos de experiência como jornalista automotivo no Notícias Automotivas, desde que criou o site em 2005. Anteriormente trabalhou em empresas automotivas, nos segmentos de personalização e áudio. Sua rede social: Facebook