
A rápida expansão dos EVs na China começa a produzir um efeito que vai além do mercado automotivo, reduzindo de forma expressiva a demanda nacional por petróleo.
Dados do Escritório Nacional de Estatísticas da China mostram que o consumo total de petróleo caiu 9% no segundo trimestre, enquanto o uso no transporte recuou 16%.
A redução foi suficiente para derrubar em 1% as emissões totais de CO2 do país, mesmo diante de um aumento registrado no consumo de carvão.
Segundo análise do Carbon Brief, esta é a primeira vez identificada em que uma queda nas emissões chinesas foi puxada pelo petróleo, e não pelo carvão.
O movimento chama atenção porque os níveis de transporte continuaram crescendo, afastando a hipótese de que a queda decorra simplesmente de menor circulação de pessoas e mercadorias.

Parte dessa mudança vem do transporte público, mas a expansão dos EVs e a retração dos modelos com motor têm peso crescente no consumo energético.
Os EVs também estão rodando mais do que os veículos convencionais em diversas aplicações, incluindo o avanço das frotas de táxis elétricos nas grandes cidades chinesas.
Somente no primeiro semestre, os EVs chineses evitaram um consumo de petróleo superior a todo o volume utilizado pelo Reino Unido no mesmo período.
A maior contribuição para essa redução veio dos caminhões elétricos pesados, segmento que cresce rapidamente e consome volumes muito maiores de energia por veículo.
Quedas de 9% no uso total e 16% no transporte são números raros, comparáveis a movimentos observados durante períodos de paralisação econômica extrema.

Mesmo que esse ritmo não se repita todos os trimestres, os dados reforçam a percepção de que a China pode ter ultrapassado seu pico de consumo de petróleo.
A Sinopec, estatal chinesa do setor, previa em 2024 que a demanda máxima seria alcançada antes de 2027, mas agora considera provável que isso tenha ocorrido em 2025.
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Hou Qijun, presidente da Sinopec, afirmou que mesmo uma melhora no cenário internacional dificilmente faria o consumo retornar ao nível registrado no ano passado.
O pico chinês teria ocorrido em aproximadamente 17,35 milhões de barris por dia em 2025, abaixo dos 19,4 milhões consumidos pelos Estados Unidos naquele ano.
Os Estados Unidos chegaram a atingir 20,53 milhões de barris por dia em 2005, mostrando uma diferença importante na trajetória dos dois maiores consumidores globais.
Por habitante, um norte-americano ainda utiliza mais de quatro vezes o volume de petróleo consumido por um chinês, segundo os números apresentados na análise.
A China também alcançou seu atual patamar de emissões per capita em nível bem inferior ao pico histórico norte-americano, embora continue liderando em volume total.
As emissões chinesas ficam pouco acima de oito toneladas anuais por pessoa, enquanto os Estados Unidos estão próximos de 14 toneladas e já chegaram a cerca de 22.
A redução do consumo chinês também pode alterar o equilíbrio internacional, já que uma mudança relevante no segundo maior mercado de petróleo afeta diretamente oferta e preços.
A queda de 9% observada no segundo trimestre representa aproximadamente 1,5 milhão de barris por dia que deixaram de ser consumidos dentro da China.
Para comparação, o excesso global de aproximadamente 2 milhões de barris diários foi associado à forte queda dos preços internacionais registrada a partir de 2014.
Cerca de 25% dos automóveis atualmente em circulação na China já são elétricos, contra aproximadamente 18% no mesmo período do ano passado.
Se essa participação continuar aumentando, a redução do consumo de petróleo no transporte tende a ganhar escala justamente no maior mercado automotivo do planeta.
O efeito pode se ampliar caso a oferta internacional volte a crescer, porque uma demanda estruturalmente menor reduz a necessidade econômica de novos projetos de extração.
A combinação entre eletrificação acelerada, maior uso de transporte público e crescimento dos caminhões elétricos sugere que a mudança chinesa pode estar se tornando permanente.




