
O mercado de EVs segue crescendo no mundo, mas parte da indústria automotiva prefere atribuir seus recuos a uma suposta falta de interesse do consumidor.
Uma análise da InfluenceMap afirma que as próprias montadoras ajudaram a criar o ambiente de instabilidade que hoje atrapalha um setor que exige anos de planejamento e decisões de longo prazo.
Nos últimos 12 meses, anúncios de baixas contábeis ligadas a investimentos em EVs se multiplicaram, somando cerca de US$ 70 bilhões (R$ 344 bilhões) em toda a indústria.
O estudo aponta que boa parte disso está ligada ao cenário regulatório dos EUA, com tentativas consideradas ilegais de revogar o “endangerment finding” e de reverter regras de emissões da Califórnia.
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(A Endangerment Finding (Constatação de Perigo) é a base legal de 2009 da EPA que determina que gases de efeito estufa ameaçam a saúde e o bem-estar público, permitindo a regulação de emissões. Em fevereiro de 2026, a administração Trump revogou essa medida, alegando desregulamentação para economia, anulando a autoridade da EPA para limitar poluentes de carros e indústrias, com desafios jurídicos esperados.)
Essas mudanças, segundo o texto, têm grande chance de virar disputa judicial por anos, criando um vai e vem regulatório que derruba previsibilidade e encarece decisões industriais.
A InfluenceMap diz que as montadoras se colocam como coitadas nas mãos desse “chicote regulatório”, mas lembra que várias delas e seus representantes também pressionaram para os retrocessos acontecerem.
O relatório destaca um paradoxo: empresas reconhecem publicamente que incerteza regulatória é ruim para negócios, mas seus braços de lobby frequentemente apostam no curto prazo político.
Em comentários sobre o “endangerment finding”, a Honda falou em “limbo regulatório prolongado”, a Ford alertou para dano à “estabilidade de longo prazo” e a Tesla disse que manter a regra ajuda a inovação.
Mesmo assim, a Alliance for Automotive Innovation (AAI), maior grupo de lobby do setor e conhecido por posições anti-EV, não se opôs à tentativa de revogação citada.
A Tesla teria se posicionado contra a revogação, mas o texto menciona que o CEO destinou US$ 288 milhões (R$ 1,4 bilhão) a uma campanha anti-EV relacionada ao tema, cujo custo teria sido de US$ 1B (R$ 4,9 bilhões) em um trimestre.
Outro exemplo envolve a Truck and Engine Manufacturers Association (EMA), que representa fabricantes de caminhões elétricos como Daimler e Volvo e disse não conseguir “absorver” os riscos de litígio.
Ainda assim, após o plano avançar, a EMA teria se juntado a uma ação judicial para apoiá-lo, repetindo, segundo a InfluenceMap, o padrão observado também nas regras de carros e caminhões da Califórnia.
A análise lembra que o lobby automotivo já defendeu estabilidade em 2022, tentou desmontar padrões em 2017 e ficou em cima do muro em 2025, variando conforme o clima político.
O texto também revisita 2011, quando padrões federais e californianos foram harmonizados no governo Obama, e afirma que o lobby liderado por John Bozzella ajudou a desfazer esse alinhamento.
Enquanto isso, a China acelera exportações de EVs de baixo preço e boa qualidade, virou a maior exportadora de automóveis e ocupa a demanda global em alta, enquanto a fatia de exportação dos EUA cai.
A InfluenceMap afirma que, ao insistir em gasolina e diesel, um segmento que teria atingido pico global em 2017, as montadoras arriscam repetir o erro de empresas que ignoraram mudanças tecnológicas.
O estudo acrescenta que muitas empresas não deixam claras essas atividades de lobby para investidores e fundos de aposentadoria, e ranqueia a transparência de cada uma na divulgação.
Na Europa, o texto cita movimentos semelhantes, dizendo que Stellantis e Porsche registraram baixas bilionárias e que seus CEOs defenderam cronogramas mais flexíveis para EVs, ampliando incerteza.
Como caminho de correção, a análise aponta pressão de investidores por mais transparência, revisão de vínculos com grupos de lobby e políticas públicas que incentivem competição e inovação, em vez de resgates recorrentes.
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