
Uma parte cada vez maior dos componentes escondidos sob a carroceria dos futuros BMW poderá deixar de ser desenvolvida exclusivamente para a marca alemã.
A fabricante pretende ampliar significativamente o uso de peças padronizadas disponíveis no mercado, reduzindo a dependência de componentes específicos criados especialmente para seus veículos.
Essa mudança será uma das ferramentas centrais para melhorar a rentabilidade da companhia, segundo informações apresentadas aos investidores entre 29 e 30 de setembro.
Até 2032, componentes classificados pela BMW como melhores ofertas disponíveis na indústria deverão representar a maior parcela de seu orçamento anual de compras.
Esse orçamento alcança € 80 bilhões (R$ 472 bilhões) por ano, enquanto a participação dos componentes exclusivos deverá cair para menos da metade do nível atual.

A BMW não divulgou percentuais detalhados, mas afirma que sua área de compras deixará de atuar apenas como fornecedora interna para participar diretamente da criação de valor.
Milan Nedeljkovic, CEO da BMW, já havia antecipado essa estratégia em julho ao destacar a evolução da oferta disponibilizada pelos fornecedores automotivos.
Segundo o executivo, existem atualmente padrões industriais capazes de atender às exigências da empresa, tornando pouco racional desenvolver alternativas próprias em todas as situações.
Nedeljkovic ressaltou, entretanto, que a mudança não deverá representar concessões em qualidade, desempenho ou características consideradas fundamentais para diferenciar os veículos da BMW.
A estratégia também está diretamente ligada às metas financeiras da companhia, que pretende elevar a margem de seu negócio automotivo nos próximos anos.
O objetivo de médio prazo estabelece margem entre 3% e 5% até 2028, ante os 2,3% registrados nos resultados mais recentes.

A BMW não apontou diretamente fabricantes chineses como inspiração, mas a ampla padronização de peças se tornou uma das vantagens de custos da indústria chinesa.
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Jim Baumbick, responsável pela Ford na Europa, afirmou em junho que as fabricantes chinesas atingiram um nível extremamente elevado de comoditização de componentes pouco percebidos pelos clientes.
Segundo Baumbick, desenvolver um farol completamente novo pode acrescentar três meses a um programa de veículo comparado ao uso de componentes modulares já disponíveis.
A Ford também está adotando uma abordagem semelhante, buscando concentrar recursos em elementos realmente importantes para diferenciar seus produtos dos concorrentes.
Koji Sato, ex-CEO da Toyota e presidente da Japan Automobile Manufacturers Association, também defendeu uma maior utilização conjunta de componentes pela indústria japonesa.
Sato citou materiais como tipos de aço, plásticos e chicotes elétricos como áreas onde a padronização poderia liberar recursos para tecnologia e ganhos de produtividade.
A pressão para reduzir custos cresce à medida que fabricantes tradicionais precisam enfrentar rivais chinesas capazes de lançar produtos rapidamente e trabalhar com estruturas industriais bastante compartilhadas.
Philippe Houchois, analista automotivo da Jefferies, destacou que até marcas chinesas menores conseguem alcançar escala porque utilizam componentes padronizados por grande parte do setor.
A reorganização das compras da BMW também envolverá uma cooperação mais profunda com parceiros tecnológicos considerados estratégicos para custos, segurança de fornecimento e competitividade.
Um exemplo citado é a parceria com a Qualcomm para sistemas de assistência ao motorista de nível 2+, área onde componentes e tecnologia compartilhada podem reduzir desenvolvimento próprio.
A inteligência artificial ganhará espaço adicional dentro da área de compras, analisando dados de fornecedores para acelerar decisões e melhorar a qualidade das escolhas realizadas.
Segundo a BMW, esse uso de inteligência artificial também deverá gerar vantagens estruturais de custos no longo prazo, complementando a maior adoção de componentes padronizados.
A lógica é concentrar investimentos nas características que o cliente efetivamente percebe, enquanto peças menos visíveis passam a aproveitar soluções já desenvolvidas e disponíveis na indústria.




