
A ofensiva chinesa sobre o mercado europeu de EVs acaba de ganhar um ingrediente político delicado, com denúncias que ultrapassam a disputa comercial.
A BYD se tornou a primeira empresa chinesa mencionada no Parlamento Europeu por supostos abusos trabalhistas ligados à fabricação automotiva na União Europeia.
As acusações envolvem a construção da fábrica da marca em Szeged, no sul da Hungria, um projeto central para a expansão europeia da montadora.
Segundo relatório publicado em 14 de abril pela China Labor Watch, empreiteiras contratadas teriam mantido milhares de funcionários trabalhando sete dias por semana.
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A organização afirma que os turnos passavam de 12 horas diárias e que os trabalhadores só descansavam quando o mau tempo interrompia a obra.
Fundada em 2000 e sediada em Nova York, a China Labor Watch disse ter entrevistado 50 trabalhadores e visitado o local três vezes desde outubro de 2025.
As conclusões foram repassadas a representantes de governos da União Europeia, e três eurodeputados questionaram formalmente a Comissão Europeia no início deste mês.
De acordo com apurações da CNBC, é a primeira vez que alegações desse tipo envolvendo uma montadora chinesa no bloco chegam à Comissão Europeia.
O caso ganhou peso adicional porque a BYD superou a Tesla em 2025 e se tornou a maior fabricante mundial de EVs.
Enquanto as vendas domésticas esfriam na China, empresas chinesas tentam vender mais de 1 milhão de carros fora do país ainda neste ano.
Na Hungria, o Serviço Nacional de Ambulâncias informou à CNBC que, desde 1º de fevereiro, equipes médicas foram chamadas 12 vezes ao canteiro, com uma morte registrada.
O fundador da China Labor Watch, Qiang Li, disse à CNBC que trabalhadores relataram outras mortes e apontaram atendimento médico insuficiente no local.
Segundo ele, parte dos funcionários não teria visto de trabalho acompanhado do seguro médico correspondente, o que agravaria a vulnerabilidade dos operários.
Uma das empreiteiras citadas, a AIM Construction Hungary, é subsidiária da Jinjiang Construction Group, grupo já ligado ao problema da fábrica da BYD no Brasil.
Em 2024, autoridades trabalhistas brasileiras afirmaram que a unidade envolvia condições “análogas à escravidão”, após investigações sobre a obra da montadora.
A BYD declarou em dezembro de 2024 que havia rompido com a subsidiária brasileira da Jinjiang Construction depois da repercussão do caso.
O relatório da China Labor Watch, porém, afirma que outra empresa do mesmo grupo Jinjiang foi contratada para construir a fábrica húngara.
Registros do Ministério da Justiça da Hungria mostram que a AIM Construction Hungary se chamava anteriormente China Jinjiang Construction Hungary.
O documento também cita um contrato de trabalho que previa envio de funcionários para Brasil e Turquia, onde a BYD também constrói fábricas.
A pressão produtiva aparece no centro das denúncias, já que gestores queriam iniciar a fabricação de carros em janeiro de 2026.
Qiang Li afirmou, em mandarim traduzido pela CNBC, que o cronograma estava sendo acelerado e que os operários não eram autorizados a sair.
A unidade de Szeged deve produzir 300.000 carros por ano em plena capacidade, embora o prazo para atingir esse volume ainda não esteja claro.
A fábrica é responsável pelo Dolphin Surf, segundo comunicado da BYD que cita a vice-presidente executiva Stella Li.
A imprensa local informou em janeiro que a produção experimental já havia começado na unidade, uma das cinco instalações da BYD na Hungria.
A montadora instalou sua sede europeia no país há quase um ano, durante visita do presidente Wang Chuanfu.
A Hungria concentrou a maior parte do avanço dos investimentos automotivos chineses na Europa nos últimos três anos, segundo dados da Rhodium Group.
Mesmo após a União Europeia elevar tarifas sobre EVs fabricados na China em 2024, esses modelos alcançaram 9,3% dos carros novos vendidos no bloco em dezembro.
Nos dois primeiros meses do ano, os registros de carros novos da BYD na União Europeia mais que dobraram, chegando a 29.291 unidades.
Com isso, a marca superou a Tesla no período e atingiu 1,8% de participação, conforme a Associação Europeia de Fabricantes de Automóveis.
Em janeiro, o BYD Seal U ficou em terceiro lugar entre os modelos mais registrados, atrás de veículos da Renault e da Skoda, segundo dados da Comissão Europeia.
A China Labor Watch afirma que trabalhadores eram orientados a dizer a fiscais que cumpriam cinco dias semanais, oito horas diárias e uma hora extra.
Na prática, a entidade diz que as jornadas violavam o Código do Trabalho da Hungria, que limita o expediente a oito horas diárias e 48 horas semanais.
O relatório também sustenta que as condições lembram a definição de trabalho forçado da Organização Internacional do Trabalho.
Entre os mecanismos de pressão, estariam salários retidos, taxas de recrutamento e passagens de volta prometidas apenas a quem ficasse mais de seis meses.
A Direção-Geral Nacional de Polícia de Estrangeiros da Hungria disse à CNBC que tomou medidas dentro de sua competência para examinar as denúncias.
BYD, empresas ligadas à Jinjiang e autoridades da União Europeia não responderam aos pedidos de comentário feitos pela CNBC.
No Brasil, o caso anterior já provocou efeitos políticos, incluindo a saída de Luiz Felipe Brandao de Mello da chefia do órgão responsável por fiscalizar normas trabalhistas.
Segundo a Reuters, que citou duas fontes próximas ao assunto, ele perdeu o cargo após decidir incluir a BYD em uma lista restritiva de acesso a empréstimos.
O Ministério do Trabalho brasileiro havia colocado a BYD na lista dias antes, mas a Justiça reverteu a decisão até uma sentença definitiva.
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