Com 20 anos ao lado da Bugatti, a Michelin teve de ir além: pneu do Tourbillon precisa aguentar 480 km/h com tranquilidade

Bugatti Tourbillon Pneus
Bugatti Tourbillon Pneus

A barreira dos 480 km/h transforma pneu em peça central, e o novo Bugatti Tourbillon prova que potência extrema vale pouco quando a borracha não acompanha a ambição.

Num hipercarro desenhado para flertar com 300 milhas por hora, o desafio mais duro não está apenas em gerar desempenho, mas em manter controle absoluto onde o carro toca o chão.

Construir uma máquina capaz de chegar tão longe em velocidade já é complicado, mas isso ainda fica abaixo da dificuldade de garantir que os pneus suportem tudo.

Segundo a lógica do projeto, a combinação de peso, força e velocidade do Tourbillon ultrapassa o que os pneus de produção atuais conseguem administrar com segurança.

Foi por isso que a Bugatti recorreu mais uma vez à Michelin para criar uma solução inédita, desenvolvida sob medida para as necessidades extremas do modelo.

Toda a sofisticação mecânica do carro impressiona, mas ganha outra dimensão quando se observa o quanto ela depende de uma área minúscula de contato com o asfalto.

BUGATTI – A NEW ERA: Point of Contact

O Tourbillon reúne um motor V16 aspirado de 986 hp, equivalentes a 1.000 cv, somado a outros 789 hp de três motores elétricos, ou 800 cv.

Essa força passa por uma transmissão de dupla embreagem com oito marchas e por um chassi de fibra de carbono antes de finalmente alcançar o solo.

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No fim, toda essa engenharia se resume a apenas 107 polegadas quadradas de contato total entre os quatro pneus e o pavimento.

Dividido por roda, isso representa 26,8 polegadas quadradas por pneu, uma área pouco maior do que a face de um iPhone 18 Pro Max.

É muito pouco espaço para controlar 1.800 cv, segurar massa elevada e ainda manter estabilidade em velocidades que beiram o absurdo.

A Michelin trabalha há cerca de duas décadas com a Bugatti no desenvolvimento de pneus capazes de acompanhar os recordes de velocidade da marca.

Mesmo assim, criar um pneu apto a sobreviver ao esforço do Tourbillon não significa resolver automaticamente o problema inteiro.

Tomislav Šimunić, chefe de dinâmica veicular da Bugatti, explicou que a empresa desenvolve carros para pessoas e não pode fazer tudo apenas com tecnologia computacional.

Segundo ele, o motorista e o fator emocional e subjetivo precisam participar da construção do carro, porque a experiência real não nasce só em simulações.

Essa visão ajuda a explicar por que o pneu precisa entregar muito mais do que resistência estrutural ou velocidade máxima certificada.

Ele deve suportar forças imensas, funcionar bem no molhado e não apenas no seco, além de colaborar para uma condução agradável e previsível.

Nessa equação entram também requisitos de ruído e vibração que a Bugatti certamente considera, ainda que não detalhe esses pontos publicamente.

A tarefa de validar tudo isso na prática fica nas mãos de Miroslav Zrnčević, piloto-chefe de testes e desenvolvimento da fabricante.

Em um novo vídeo divulgado pela marca, ele aparece acelerando em Ladoux, na França, para mostrar parte do processo de escolha do pneu definitivo.

Quando o carro chega à pista, a etapa digital já reduziu as opções a três compostos diferentes de pneus.

Zrnčević testa esses três jogos completos, mas também mistura combinações entre dianteira e traseira até encontrar o acerto ideal.

O detalhe mais delicado é que esse trabalho acontece antes da calibração final da direção, dos amortecedores e dos sistemas eletrônicos de controle.

Na prática, o piloto precisa escolher o pneu perfeito com base em um carro que ainda não terminou de ser acertado por completo.

Isso coloca sobre ele uma responsabilidade enorme, bem maior do que os 41 psi presentes em cada um dos Michelin de 21 polegadas usados nos testes.

Semanas de avaliação, telemetria, comparações entre compostos e feedback subjetivo do piloto entram no processo antes da definição final.

Zrnčević observa que, embora esse tipo de função pareça um emprego dos sonhos, ela cobra jornadas longas e concentração absoluta todos os dias.

Segundo ele, é preciso uma certa dose de loucura positiva para atuar nesse setor, mas o entusiasmo genuíno continua sendo indispensável.

O risco de erro também é alto, porque bater o carro no muro não gera apenas dano de carroceria em um protótipo multimilionário.

Um problema desse tipo interromperia completamente o desenvolvimento até que o veículo fosse reconstruído ou substituído, travando a evolução do projeto.

Tudo isso mostra o tamanho do esforço escondido por trás de um componente que, para a maioria das pessoas, parecerá apenas mais um pneu esportivo.

Na lateral, ele continuará ostentando o nome Michelin Pilot Sport Cup 2, o mesmo que aparece em pneus vendidos para carros de rua.

Quase nada denunciará o trabalho específico por trás dele, exceto por uma pequena inscrição BG gravada discretamente no flanco.

Ainda assim, quem tiver a raríssima chance de buscar a velocidade máxima de um Tourbillon provavelmente entenderá que esse detalhe quase invisível vale tanto quanto o motor.

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