Crise na Honda expõe guerra interna contra CEO e coloca em xeque toda a aposta elétrica da marca japonesa

honda toshihiro mibe
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Uma disputa silenciosa dentro da Honda transforma a crise dos carros em um teste duro para a liderança de Toshihiro Mibe.

Executivos aposentados da Honda Motor começaram a se reunir privadamente no fim do ano passado para discutir os problemas da montadora japonesa.

Segundo um resumo escrito das conversas visto pela Reuters e entrevistas com dois participantes, o grupo apontava Mibe como responsável pela deterioração.

As discussões ocorreram por mensagens de texto, encontros e refeições que, em alguns casos, também incluíram executivos ainda na ativa.

A principal acusação era que o CEO havia negligenciado a China, maior mercado automotivo do mundo, e feito uma aposta fracassada nos EVs.

Os veteranos diziam que essa estratégia poderia levar a Honda ao primeiro prejuízo anual em sete décadas.

Também afirmavam que Mibe dedicava atenção excessiva ao patrocínio de golfe da empresa, em vez de priorizar os problemas do negócio.

A pressão chegou ao auge em abril, quando o ex-CEO Nobuhiko Kawamoto foi à sede em Tóquio e pediu que Mibe renunciasse.

Três pessoas familiarizadas com o encontro relataram à Reuters que Kawamoto, participante de algumas conversas, foi direto na cobrança.

Mibe, que assumiu o comando em 2021, permaneceu no cargo e não cedeu à pressão da velha guarda.

A crise reflete dificuldades enfrentadas por montadoras tradicionais, mas atinge a indústria japonesa em um momento especialmente delicado.

Fabricantes do Japão dependem dos Estados Unidos, onde tarifas do presidente Donald Trump e cortes de subsídios a EVs pressionam margens.

Ao mesmo tempo, consumidores japoneses demonstram pouco interesse por EVs, que ainda representam uma fatia pequena do mercado local.

A Honda precisa defender negócios tradicionais caros enquanto desenvolve EVs capazes de competir com fabricantes chinesas cada vez mais fortes.

Empresas da China avançam com veículos baratos, cheios de software e lançados em ritmo muito mais rápido que o dos japoneses.

A Honda recuou no mês passado da promessa de Mibe de se tornar totalmente elétrica até 2040.

A empresa também registrou baixa de cerca de US$ 9 bilhões (R$ 46,6 bilhões) em custos ligados a EVs após cancelar três carros em desenvolvimento.

O impacto total pode chegar a US$ 12 bilhões (R$ 62,1 bilhões), segundo a Reuters.

Rivais como Ford, GM e Nissan já baixaram coletivamente mais de US$ 25 bilhões (R$ 129,4 bilhões) ao cancelar EVs e linhas de montagem.

A Honda afirmou que não tinha conhecimento das discussões entre ex-executivos e disse trabalhar com fornecedores para melhorar o negócio de carros.

A empresa citou controle de custos, realocação de recursos e adoção de softwares mais recentes de assistência ao motorista.

Mibe aceitará corte salarial de 30% por três meses para assumir responsabilidade pelo prejuízo anual.

Kawamoto confirmou que se encontrou com Mibe, mas recusou comentar detalhes da conversa.

O ex-CEO ainda mantém influência significativa e já interveio em crises anteriores para forçar a saída de um sucessor.

A Honda chega a esse momento crítico apenas um ano depois do fracasso de uma possível fusão com a Nissan.

A empresa afirma ser a maior fabricante de motores do mundo, fornecendo desde equipamentos como sopradores de neve até jatos.

Mesmo assim, sua tradição de engenharia pode não bastar diante da mudança acelerada do setor.

Jeffrey Rothfeder, autor de “Driving Honda”, disse não saber qual seria a saída para a empresa.

Ele afirmou que, em pouco tempo, pode ser tarde demais para reverter a situação.

A velha guarda também acusa Mibe de se afastar do “genba”, termo japonês para o local real onde o trabalho acontece.

Na Honda, isso significa concessionárias, fábricas e ruas onde seus produtos são vendidos, montados e usados pelos clientes.

Segundo o resumo das discussões, os veteranos diziam que o CEO não enxergava a operação de perto nem ouvia consumidores.

A China era o principal exemplo dessa distância, apesar de parte do mandato ter coincidido com restrições da política de covid zero.

Uma fonte disse que Mibe raramente visitou a China desde que assumiu o comando.

Durante sua gestão, a participação da Honda no mercado chinês caiu de 8% em 2020 para menos de 3% no ano passado.

A Honda declarou que o foco no genba segue no centro da empresa e que viagens são feitas conforme a necessidade.

Koji Endo, chief executive analyst da SBI Securities, disse que a Honda sempre quer fazer tudo por conta própria.

Segundo ele, desta vez, no fim das contas, essa postura não funcionou.

Mibe recusou neste ano uma proposta de um banco japonês para separar o negócio de EVs, segundo uma pessoa familiarizada com as conversas.

O investimento externo poderia aliviar a operação deficitária, mas o CEO afirmou que a própria Honda resolveria o problema.

Na China, Toyota e Nissan já trabalham de forma mais próxima com parceiros locais em EVs adaptados ao mercado.

A Honda só afirmou neste ano que faria o mesmo.

O apoio do conselho tem sustentado Mibe, apesar da perda de respaldo entre ex-executivos de peso.

Quando ele se reuniu com Kawamoto em abril, o comitê de nomeação do conselho já havia decidido que ele poderia continuar.

Mibe apresentou um plano para recuperar a deficitária divisão automotiva, incluindo redução de 30% no custo de novos conjuntos híbridos.

Dois executivos de fornecedores japoneses da Honda disseram à Reuters que não foram consultados sobre possíveis economias.

O desempenho dos carros agravou tensões internas com a divisão de motocicletas, que teve lucro recorde de US$ 4,6 bilhões (R$ 23,8 bilhões) no ano passado.

Funcionários da área de motos passaram a sentir que subsidiavam o negócio automotivo.

Em fevereiro, Mibe transferiu engenheiros de desenvolvimento automotivo de volta a uma subsidiária de P&D para tentar reativar a cultura de inovação.

Rothfeder afirmou que a reorganização anterior havia reduzido a independência dos engenheiros e afastado milhares de profissionais importantes.

Alguns ex-executivos temem que a terceirização de projetos de componentes para fornecedores dificulte o controle de custos.

Endo resumiu a preocupação ao dizer que a capacidade da Honda de desenvolver carros caiu, mas os custos não acompanharam essa queda.

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Autor: Eber do Carmo

Fundador do Notícias Automotivas, com atuação por três décadas no segmento automotivo, tem 20 anos de experiência como jornalista automotivo no Notícias Automotivas, desde que criou o site em 2005. Anteriormente trabalhou em empresas automotivas, nos segmentos de personalização e áudio. Sua rede social: Facebook