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Desmanches e cemitérios de carros

desmanche Desmanches e cemitérios de carros

Se você gosta de fotos de carros abandonados, confira nosso blog sobre este assunto, o Carros Inúteis.



Sempre tive um certo fascínio por desmanches, cemitérios de automóveis e ferros-velhos. Ao frequentá-los com pais e tios em busca de alguma peça, a princípio sem ter escolha, procurava ao menos me divertir um pouco durante o tempo em que ali permanecia.

Enquanto eles procuravam o que queriam, eu me entretia vendo modelos já fora de linha empilhados, como algum Gordini, Rural ou VW 1600 4 portas, o Zé do Caixão – nome esse que me causou estranheza e me fez rir ao mesmo tempo.

Contudo, percebi já naquela época que nem tudo é alegria quando se trata de encontrar a peça que você procura. A busca pode ser cansativa, quase uma uma via crucis, como em uma ocasião em que meu pai procurava uma caixa de direção hidráulica de Ford Galaxie para adaptá-la em sua picape F-1000.

Avisado por um amigo que havia visto uma destas caixas de direção completas, com mangueiras e outros componentes menores num desmanche na região de Taubaté, interior de São Paulo, cidade próxima à minha, meu pai resolveu acordar bem cedo no dia seguinte para ir buscá-la.

Convidou a mim, ao meu irmão e ao padrinho deste último para acompanhá-lo. Chegando lá, ainda cedo, fomos informados que a mercadoria havia sido vendida no fim do expediente do dia anterior. Vendo nosso desapontamento, o dono do desmanche, querendo ser solícito e simpático nos disse que seguindo por ali mesmo, pela Rodovia Oswaldo Cruz rumo ao litoral de Ubatuba, havia um Landau batido, aparentemente recém-chegado.

Acatando a sugestão, meu pai rumou ao desmanche indicado, neste caso um ferro velho mesmo, com outras mercadorias além de carros, como geladeiras e máquinas de marcenaria. Sim, estava lá o Landau. Com tudo no lugar: motor, painel, rodas, bancos…menos a caixa de direção e seus componentes.

Após alguma insistência de meu pai, o dono do local informou que quem comprou a dita cuja havia sido um negociante de peças usadas que tinha uma loja em São Luiz do Paraitinga, a cerca de 50 Km dali. Seguimos adiante. A esta altura já estávamos a cerca de 70 Km de casa e a menos de 80 Km da praia.

Perguntando aqui e ali, achamos a loja e o sujeito. Era uma loja com uma oficina no fundo. Simpático, mas com um sorriso enigmático no rosto, o dono pergunta: “- O Sr. quer ver a caixa de direção?”. “-Sim! Responde meu pai!”. “- É para adaptar em caminhonete?”. “-Exatamente!”. “- A adaptação até que é simples, viu!”. “- Que bom!”. “- É o que o meu funcionário está fazendo. Adaptando na minha F-1000. Olha aí que beleza!”

Ou seja, a pista era verdadeira. Existia a caixa, existia o Fulano, existia a loja. Mas só esqueceram de nos informar que ele tinha uma picape e que, sendo assim, desta vez a mercadoria não era para vender, mas para seu uso próprio. Em outras palavras, não tinha preço. Pelo menos foi possível ver que a adaptação dava certo.

Já por volta das 11h da manhã e a menos de uma hora da praia, resolvemos dar um passeio por lá. Chegamos a Ubatuba, almoçamos. E meu pai parecia pensativo. Lembrou-se de um amigo que era mecânico de barcos, chamado Marquinhos. Era desses sujeitos populares, bem informados e criativos. Talvez ele tivesse alguma informação sobre caixas de direção de Galaxie. Nunca se sabe, não é?

E não é que ele tinha? Marquinhos nos contou que tinha um amigo em Caraguatatuba, cidade vizinha, “que é de rolo” e que tinha um Galaxie em mau estado de funilaria – até porque o carro sempre foi do litoral – mas que ele era mecânico e filho de mecânico e que possivelmente vendesse apenas a caixa, pois havia comprado um Corcel e o carro estava encostado.

Adivinhem? Cortamos Ubatuba de ponta a ponta rumo à estrada de serra que levava à Caraguá. Endereço na mão e esperança no coração, ainda mais depois de muito enjoo na estrada, fomos em busca do tal Miro. Estávamos bons nisso e o encontramos fácil, fácil.

Mas o Galaxie inteiro tinha ido embora. Miro o trocou por um barco com um rapaz que havia se mudado para outra cidade. E pra variar, mais um conselho na despedida: “- Por que não voltam pela Rodovia dos Tamoios? No final dela, já em São José dos Campos tem vários desmanches e ferros-velhos.”

Foi o que fizemos: voltamos pelo outro lado e saímos em São José dos Campos. Era fim de tarde a essa altura, mas conseguimos passar por alguns desmanches e ferros-velhos. Nada da caixa de direção. Em um deles havia apenas as mangueiras e uma bomba sem funcionamento.

Em outro, o atendente perguntou se meu pai não queria deixar encomendado (e pago, claro). Ele preferiu não arriscar. Além do que, a palavra “encomendado” neste meio pode significar algo não muito correto às vezes. No fim, à noite chegamos às montanhas, Campos do Jordão, onde eu morava à época.

Nem precisa dizer que exaustos, uma vez que as estradas eram bem mais precárias, com trechos ainda não asfaltados ou não concluídos pelo caminho. Por um bom tempo, não queríamos ouvir falar nem em direção hidráulica, nem em Galaxie, nem em nada parecido.

No entanto, meu pai que viajava muito a trabalho, acabou passando pelo Bairro do Ipiranga em São Paulo e pelas Rodovia Anhanguera e Raposo Tavares em outras ocasiões. Até chegou a encontrar a peça em um destes desmanches grandes. Mas a esta altura, a notícia sobre a adaptação já havia se espalhado e pelo preço, não compensava mais.

Em algum tempo, chegaria o Plano Cruzado, do Presidente Sarney, que aqueceu a economia de tal maneira que chegou a faltar tudo no mercado: carne, laticínios, eletrodomésticos, materiais de construção e carros. Em alguns casos um carro com um ano de uso chegava a valer mais do que um zero km na tabela.

Numa destas ocasiões o turco Youssef, vulgo Zé Turco, comerciante da região procurou meu pai e fez uma boa oferta na F-1000. Queria aquela por um simples motivo: ela não tinha direção hidráulica. Na opinião do turco, o sistema iria adicionar um peso extra à caminhonete, fazendo-a gastar mais óleo diesel.

O negócio foi fechado e meu pai acabou encontrando uma D-20 seminova, bicolor – marrom e bege – com direção hidráulica de fábrica a um preço justo, comprada por um senhor que não se adaptou a picapes. Hoje em dia, vou a desmanches apenas eventualmente.

Há alguns anos, nos Estados Unidos, na Califórnia, avistei de longe um cemitério de automóveis daqueles de filme, com guindastes e bola de aço para prensar carros, pilhas e pilhas de carrocerias, com alguns “estrangeiros” no meio, como Fiat, Alfa, MG, reconhecidos facilmente pelo tamanho bem reduzido em vista das enormes barcas americanas.

Resolvi olhar mais de perto. Funcionava em uma área enorme. E havia numeração nas carrocerias, o que indica que os carros estavam catalogados. Prática comum hoje em dia, mesmo no Brasil, devido à informatização. As lições que aprendi desde criança no que se refere a desmanches, ferros-velhos e afins é que, o que é muito procurado já chega encomendado.

Ainda assim a busca é necessária, pois em uma determiada região um item pode ser muito procurado e em outra não ter procura alguma. E entra aí também o fator loteria: pode-se achar o que se deseja na primeira ou na última busca a preços que podem variar consideravelmente. E ainda, aos olhos de alguns donos de desmanche alguma peça é quase lixo. Aos olhos de outro, é ouro.

E, apesar de enxergarmos o negócio de peças usadas de maneira um pouco generalizada, a diferença entre os estabelecimentos é grande. Do atendimento à procedência das peças. Sem falar da organização, com mercadorias expostas por tipo de peça e modelo de carro e catalogadas ou com tudo empilhado, tipo “ache se puder”.

E alguns negócios tem foco diferente. Já fui a desmanche só de peças de Opala e Chevette, em outro só de peças de Dodge. Outros são voltados a carros clássicos e de coleção. E assim por diante. Outra constatação minha é que encontrar peças pequenas de acabamento como arremates de frisos e de parafusos (aquelas tampinhas que os escondem), saídas de ventilação e interruptores de vidros e retrovisores elétricos é mais difícil que peças de lataria por dois motivos: ou alguém já as levou ou o carro estava em mau estado, já sem os itens citados ou com os mesmos danificados.

E, falando agora um pouco do futuro do negócio de peças usadas, há algum tempo na Espanha, companhias de seguro e governo se uniram para criar uma apólice especial para clientes que aceitem que seus carros sejam reparados com peças usadas, retiradas de veículos recuperados de roubos e sinistros e apreendidos por falta de pagamento de multas e tributos.

Após inspecionadas pelo “Inmetro” espanhol e catalogadas, seguem para centros de distribuição que atendem aos clientes da cooperativa público-privada. A Argentina seguiu o mesmo caminho há bem pouco tempo, conforme o que andei lendo. E está dando certo.

O governo de alguns estados brasileiros, como Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e São Paulo se interessou pelo modelo espanhol e argentino e começou a estudar a regulamentação das leis. Seria algo interessante para as seguradoras, o consumidor e o governo, que desovaria os carros sem destino dos pátios dos Detrans, fazendo deles doadores dignos.

E o aço estrutural dos carros ainda poderia ser reciclado para ser utilizado na construção civil (coisa que os EUA já fazem). E por último, uma última e poética finalidade aos carros que não rodam mais: virar arte. Pelo mundo afora, já existem artistas especializados em fazer escultura com carros sucateados. Fuscas pendurados, Impalas retorcidos e embicados na areia, entre outras criações, já fazem parte de exposições e acervos de museus.

Afinal, por que não dar um final glorioso aos estimados carros que tanto nos foram úteis em vida?

E na sua opinião, caro leitor, que destino devem ter os carros velhos, apreendidos e acidentados? Já comprou peças em desmanches e ferros-velhos? Como foi a experiência?

Por Gerson Brusco Gonzalez

  • fkas

    Já andei muito por eles, no tempo em que tudo era mais difícil e eu não tinha dinheiro para peças novas (ou para achar peças para o SP-2 que tive…). E tinha um amigo que ainda mexia mais no carro que eu, e no final a gente sempre terminava fazendo "peregrinação" em desmanches atrás de peças.
    Sempre terminava achando o que queria, mas as vezes isso demorava bastante. Mas consegui coisas muito boas, como por exemplo um carburador de Escort CHT que usei para resolver de uma vez por todas os problemas de carburação de um Lada Samara que um parente tinha (o carburador era novinho, e dei sorte de chegar ao desmanche minutos depois que o carro batido chegou), ou quando dei a sorte de conseguir um motor elétrico do vidro da porta de um Diplomata, para consertar o de meu pai (mesma coisa: um amigo me ligou para dizer que viu um Diplomata batido chegar num desmanche perto de onde ele trabalhava, e 15 minutos depois eu estava desmontando a porta atrás do bendito motorzinho…). E é (ou era) assim mesmo: peça boa some logo, ou já chega encomendada.
    Mas que era divertido, isso era!

  • Dragoniten

    Texto MUUUUITO legal!

    Parabéns, Gerson Brusco Gonzalez, é principalmente por causa desses relatos tão divertidos sobre experiências diferentes que frequento o NA :)

  • DougSampaNA

    Aqui um lugar deste é criadouro e DENGUE, ja que os estados nada fazem com veiculos apreendidos; basta ver os pateos da Receita Federal alí pras bandas do Palmeiras, tem varios carro por lá fechados e semi cobertos, dá pra ver das janelas dos prédios…e a policia precisando de viaturas e aquela carraiada lá parada, não sendo nem usado como fonte de peças…

  • EEQ1100

    Parabéns pelo texto… Lembrei de algumas passagens minhas da época de infância procurando algumas tranquieras com meu pai nos desmanches de SP. Naquela época podíamos comprar peças em desmanche pois era uma forma de comprar uma peça difícil por um preço menor. Hoje, comprar peça em desmanche significa alimentar o mercado de carros roubados.

  • Antonio_Brust

    A pior coisa do mundo é depender de ferro-velho por causa da ausência de peças no mercado…. meu pai tinha uma Tempra SW … simplesmente não existiam mais peças de lataria pra ela… ele precisava de 2 lanternas traseiras, e não achava em lugar nenhum.

  • Hoosier 559

    É um bom passa tempo para pessoas que curtem restauração e carros antigos, você vê bastante a história dos carros… É bem legal mesmo!

  • marciomvo

    Já visitei muito ferro-velho, pois se se tem carro velho, faz-se necessário a ida a estes estabelecimentos. Mas isso há muito tempo, antes das 'robautos" ganharem fama. Eu acho louvável reciclar tudo que fôr possível, sim. Desde peças à lataria dos veículos fora de circulação. Isto é, desde que com isso não fomente ainda mais a indústria do roubo de veículos.

  • MitsuGyn

    Gostei da foto..

  • expresso222

    Realmente peças boas ou somem logo, ou já chegam encomendadas. Meu pai tinha um Corcel II 1.6 CHT 84 e eu queria colocar um condicionador de ar usado nele pois não tinha muita grana para comprar uma unidade nova. Procurei em vários desmanches e não encontrei, depois descobri que quando chegava um carro com este equipamento já tinham encomendas, principalmente de oficinas de instalação e conserto de ar. Eles compravam por X e revendiam por 2X. Assim acabei desistindo da idéia.

  • Cil

    Gostei demais do texto. Ferro velho é um negócio que me interessa pois vivo dizendo que só vou me separar do meu carro atual em caso de morte prensada… eheheheehheeh…

    Eu conheço uma pessoa que ficou com o carro dele 15 anos. Obviamente não conseguia revender. Ele mandou depenar o próprio carro e vendeu várias das peças que conseguiu.

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