
Um limite invisível no cartão de crédito virou o estopim para muita gente repensar a vida no posto, especialmente com combustível batendo US$ 7.39 (R$ 40) o galão nos EUA.
Foi isso que aconteceu com Eric Flickinger, 47, engenheiro mecânico perto de Seattle, ao ver o contador marcar US$ 200 (R$ 1.000) e o tanque ainda longe do cheio, segundo reportagem da Bloomberg.
Para completar os 33 galões do seu Ram 1500 a diesel, ele precisaria de quase US$ 50 (R$ 250) além da pré-autorização, e a frustração virou cálculo frio.
A solução dele foi trocar a picape a combustão por uma Ford F-150 Lightning elétrica com quatro anos de uso, numa decisão puxada mais por bolso do que por moda.
O caso ilustra um movimento maior: o mercado americano de usados está cheio de EVs “baratos” que não emplacaram quando eram novos e custavam muito.
Segundo a Cox Automotive, quase 40% dos EVs usados nos pátios hoje aparecem abaixo de US$ 25,000 (R$ 125.700), bem distante do ticket médio do carro zero.
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Além de mais baratos, esses EVs usados estão vindo com mais variedade de formatos e, em muitos casos, ainda carregam anos de garantia original de fábrica.
O salto também já aparece nos números: as vendas de EVs usados subiram 17% nos EUA nos quatro primeiros meses do ano, contrariando a queda dos novos.
O fenômeno não ficou só com o público “tech”: Jay Clark, diretor de usados em um grupo de concessionárias em Ohio, diz ver compradores de 50 e 60 anos entrando.
Do lado das montadoras, o humor é outro: a Ford cancelou em dezembro a próxima versão elétrica da F-150 ao contabilizar US$ 19.5 bilhões (R$ 98.000.000.000) em encargos ligados a ativos de EVs.
Mesmo assim, a Lightning usada virou barganha, e Flickinger pagou US$ 44,000 (R$ 221.200), menos da metade do preço de etiqueta original.
Com a troca do seu Ram de seis anos, ele afirma ter conseguido fechar o negócio sem assumir nova parcela, porque a conta “fechou” no papel.
Jeremy Beaver, dealer na Califórnia, diz que há apetite por economizar combustível sem entrar num zero de US$ 50,000 (R$ 251.300), e o usado resolve.
A Cox estima o preço médio de lista de um EV usado perto de US$ 35,000 (R$ 175.900), só cerca de US$ 1,000 (R$ 5.000) acima de um equivalente a gasolina.
Na ponta, a diferença de prestação em seis anos pode ficar em torno de US$ 20 (R$ 100) por mês, e em SUVs compactos a paridade já virou realidade.
O estoque deve crescer ainda mais: a Recurrent projeta 1,2 milhão de EVs saindo de leasing e chegando ao mercado de usados nos próximos 18 meses.
Parte disso veio de uma brecha na legislação do governo Joe Biden que impulsionou o leasing, com a Edmunds apontando mais de 75% das transações de EVs nesse formato.
Srini Rajagopalan, da J.D. Power, destaca que muitas garantias cobrem bateria por oito a 10 anos ou 100.000 milhas, ajudando a reduzir o medo de manutenção.
Andrew Garberson, da Recurrent, diz que a oferta saiu do “mundo de sedãs” e hoje inclui picapes, SUVs de três fileiras e crossovers para quem quer um carro comum.
Heidi Dresbach, 56, notou um Cadillac Lyriq no trânsito, rejeitou o novo por custar entre US$ 65,000 (R$ 326.700) e US$ 75,000 (R$ 377.000), mas mudou de ideia no usado.
Ela encontrou um modelo 2024 com 3.000 milhas por pouco mais de US$ 36,000 (R$ 181.000) e decidiu na primeira volta, citando abastecimentos de US$ 65 (R$ 330) a US$ 70 (R$ 350).
Com 1.200 milhas por mês na rotina de trabalho, ela descreve a tomada como alívio financeiro, enquanto os pátios se enchem de opções para quem só precisava de um preço possível.
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