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Dirigindo de maneira econômica

Dirigindo de maneira econômica

Economia de combustível é um assunto muito polêmico em qualquer roda de amigos, alguns dizem que a média de km/l ou MPG estipulada pelas companhias é um fracasso, outros dizem que é otimista demais e outros até dizem que é uma margem pessimista, mas a grande verdade disso tudo é que nenhum carro será econômico se seu motorista não contribuir para tal coisa.


Cerca de dois meses atrás eu usava um Honda Civic EX (1998, EJ8) diariamente para ir e vir da faculdade, além de outros passeios à esporte e diversão, os gastos mensais de combustível dele eram previstos perfeitamente toda semana, já que em média a cada 5 ou 7 dias era necessário fazer uma visita ao posto de gasolina. Não era porque o carro gastava demais, consumo era até razoável para um sedan com câmbio automático convencional, mas as constantes visitas se davam pelo minúsculo tanque de combustível do carro.

O motor 1.6L 16V VTEC é bastante econômico, com seus 125cv é capaz tranquilamente de atingir a marca dos 11 ou 12 km/l na cidade, isso com câmbio manual, no automático essa marca literalmente cai bastante. Com pouco torque em baixa rotação e o regime esportivo focado nas alturas, é um motor bastante amigável para aqueles que esquecem a hora certa de trocar a marcha com intuito de economizar combustível, embora não tivesse o melhor rendimento dentro da cidade ele era um excelente “motor bipolar”, duas faixas bem definidas de comportamento.

Atualmente utilizo um Ford Focus GL, com seu tímido motor 1.6L 8V de 102cv. Os números começam a se diferenciar desde as características do motor até economicamente quando se reúne as contas do mês. Pra começar, o Zetec 8V conta com uma imensa quantidade de torque em baixas rotações e seu comportamento lembra bastante um motor diesel de carro popular europeu, ao piscar dos olhos é necessário subir marcha caso esteja buscando desempenho, caso contrário esbarrará no súbito corte de giro à 6200rpm, bem abaixo dos 7.400rpm do Civic.


Não é um motor ruim, mas não me agrada tanto assim, mesmo dando conta tranquilamente do papel de carregar a imensa carroceria do Focus hatch. O tanque do Ford é outro número que diferencia enormemente do Civic, tirando a reserva, a quantidade de gasolina que o Focus carrega é quase o dobro do pequeno Honda.

São carros bastante diferentes, isso já deve ter notado, mas o quanto isso faz diferença no final do mês que é o ponto interessante disso tudo. Antes de entrar nesse tópico, preciso deixar claro que minha condução não é das mais econômicas e eu não sou aquele tipo de pessoa aficionada em salvar combustível, apenas gosto de algumas estatísticas curiosas.

O fato do tanque do Honda ser pequeno faz com que a quantidade de dinheiro para enchê-lo seja levemente menor que a do Ford, mas o intrigante disso é ver a distância – autonomia – que o Focus consegue comparado ao Civic, cerca de 200km por tanque. Caso ainda não tenha entendido, vou simplificar: em regime urbano, o Honda consegue andar em média 240km com um tanque cheio de combustível.

Já o Focus, consegue uma média de até 450km por tanque, uma diferença absurdamente grande principalmente se formos comparar em regime rodoviário, números que infelizmente não pude averiguar ainda, mas para ter uma breve noção a autonomia em estrada do Civic é a mesma do Focus na cidade. Essa vantagem do Ford no dia-a-dia é algo que faz dele um carro bem diferente de se lidar do que o Civic, uma vez que ao encher o tanque o dono pode esquecer de visitar o posto de gasolina nos próximos 10 ou 15 dias, algo que está diretamente ligado ao projeto do carro.

Criando uma comparação esdrúxula, o Civic seria como um carro esportivo e o Focus como um gran-tourer, pois o desenvolvimento do Civic o obrigou a usar um tanque bastante compacto e achatado, diferente do Focus que utiliza algo que em algumas casas poderia ser chamado de caixa d’água.

Em alguns casos esses números estão diretamente ligados ao modo como o motor é configurado, ou a medida dos pneus/rodas, peso bruto e até o modo de direção que o motorista utiliza normalmente, mas creio que aqui infelizmente a diferença esteja somente no câmbio que ambos os carros tem: um manual com 5 marchas e o outro extremamente convencional automático de 4 marchas.

Somente pelo fato do Civic contar com as pouquíssimas 4 marchas já seria desculpa o bastante para o seu consumo de combustível ser tão baixo comparado ao câmbio manual de 5 velocidades convencional da Honda, no ritmo de trânsito que temos no Brasil é necessário uma configuração mais esperta, pois o modo como o tráfego se desenvolve aqui é bem diferente de países como EUA ou Canada, lugares em que tradicionalmente se utiliza as versões automáticas.

Hoje em dia isso mudou bastante com a adoção do sistema CVT ou da dupla-embreagem e outros câmbios com 6 ou até 8 marchas, mas o que manda no consumo de gasolina aqui no Brasil continua sendo o câmbio manual. Interessante o bastante, ele também é culpado pela fama de “beberrão” que alguns carros tem por aqui.

Pergunte a qualquer motorista convencional qual é a faixa de torque e potência máximo de seus respectivos carros, se 3 em cada 10 disserem o correto eu já consideraria um dia de sorte. Esses dois aspectos são importantíssimos para quem deseja utilizar o motor de maneira mais eficiente, ainda mais quando o carro vem equipado com o conta-giros, aparelho esnobado por pessoas que se consideram superiores ao funcionamento do carro, infelizmente, mas não vou falar de performance nesse texto, somente de eficiência, por isso voltemos ao assunto.

O Focus é um exemplo claro de que se o motorista não conhecer seu carro, ele nunca conseguirá economizar o tanto de combustível que o carro foi desenvolvido para conseguir, isso por um motivo simples: o torque máximo do motor chega à breves 2.750 rpm. Ok, mas qual a importância disso ? É simples, em condições normais de via (rua plana e fluxo constante) não é necessário nem 50% da quantidade máxima de “potência” que o motor produz para mover o carro, isto é, se você não necessita de força (o que consequentemente significa mais gasolina sendo injetada), mude de marcha!

Tirando o excesso de giro que as pessoas normalmente impõem no carro, há também aquele famoso hábito de descer o pé no acelerador em marcha alta por pura preguiça de escalonar o câmbio, isso significa que mais gasolina está sendo injetada no motor e mais ineficiente está sendo sua direção, ou seja, novamente, mude de marcha!

Sou a prova viva do quanto a conduta do motorista pode significar economia de dinheiro, antes de conhecer o carro eu trocava marchas entre 2800 e 3500rpm, mania que adquiri pela experiência de dirigir o pegajoso Ford Ka 1.0L 2009, com o Focus esse padrão de condução me resultou em tímidos 8.5km/l com máximos 9.3km/l na cidade, razoável para um motor 1.6L em um carro consideravelmente grande para o motor, mas nem perto do melhor consumo do possível.

Após algumas leituras, comecei a trocar marchas entre 2.300rpm e 2.800rpm, ação que resultou em uma melhoria de quase 1km/l na cidade, com médias entre 9.8km/l e 10.3 km/l, em outras palavras: economia de até 50 reais por tanque. Vale ressaltar novamente alguns pontos importantes: não sou a pessoa mais disciplinada que existe, em alguns momentos eu abuso do giro do motor.

Uma outra coisa, tais índices de rotação só são possíveis quando se está em uma via plana e com fluxo de tráfego constante, sem o famoso “acelera e para” dos constantes sinaleiros não-sincronizados ou trânsito caótico. Em alguns momentos (e.g. subidas, retomadas) é necessário “encher” mais o motor, mas nada que vá comprometer muito os números finais de consumo do carro. Está ai uma das vantagens gritantes entre um câmbio manual e um automático convencional, escolher o padrão de direção. É possível no AT ? Sim, mas é comprovadamente menos eficiente e mais trabalhoso.

Há de se deixar claro que não estou desmerecendo o Civic ou endeusando o Ford Focus, nada disso, são apenas dois exemplos recentes que posso utilizar sem medo algum de estar falando besteira. Alguns carros contribuem para que certas economias sejam feitas, outros isso já fica um pouco mais complicado, mas acima de tudo é a conduta do motorista que vai permitir ou não que o verdadeiro potencial de eficiência do carro seja atingido.

Trabalhar as marchas é preciso, ter o “pé leve” também é preciso, conhecer o carro é ainda mais preciso. Caso conheça as origens da frase “Navegar é preciso” dos portugueses, esse trecho acima fará mais sentido ainda. Não resta dúvidas de que estou sendo insuportavelmente “avô” nesse texto que sinto já estar enjoativo com todo esse assunto de economia de combustível e “dicas de direção”, algo que reprovo totalmente, mas creio que hoje em dia o preço da gasolina anda tão alto e esse “hobbie” de dirigir um carro está se tornando tão caro que algumas medidas amenizadoras tem que ser tomadas.

Não conheço ninguém que tenha dinheiro sobrando a ponto de gastar 500 reais de gasolina por mês a puro gosto e prazer, mas para as pessoas que dirigem diariamente para trabalho/faculdade e durante esse período precisam diminuir gastos, economizar gasolina é algo tão fácil que se torna até prazeroso algumas horas, bater recordes não é só dentro das pistas de corrida e saber dirigir não é somente ver quem tem coragem de ficar com o pé fundo no acelerador por mais tempo.

Saber dirigir, na minha opinião, é saber dominar a máquina seja em qual for a situação. Eu desejaria e muito que um dia eu tivesse condições de ter um carro “gastador” e utilizá-lo de forma indiscriminada sem me preocupar com “direção eficiente” no dia-a-dia, mas por enquanto, com orçamento limitado, há de se criar um bom senso entre prazer e economia de dinheiro. Dá pra se divertir com o carro e na rotina da semana salvar gasolina ? Obviamente, basta saber dirigir.

Por Julio Cesar Molchan de Oliveira

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