
Boa parte da frota indiana passou a conviver com um combustível para o qual não foi projetada, expondo proprietários a dúvidas sobre consumo, desgaste e manutenção.
Desde abril, o E20, gasolina com 20% de etanol produzido no país a partir de arroz, cana-de-açúcar e milho, substitui nacionalmente o E10, de 10%.
A mudança também busca reduzir emissões e a dependência externa da Índia, que importa mais de 85% do petróleo bruto necessário para atender sua demanda.
Especialistas afirmam que veículos fabricados após abril de 2023 são compatíveis com E20, enquanto modelos anteriores foram desenvolvidos para misturas com menor proporção de etanol.
Nesses veículos mais antigos, a nova composição pode reduzir o rendimento, afetar determinados componentes do motor e elevar despesas de manutenção ao longo do uso.

O governo informou na segunda-feira que ainda não existe decisão para elevar a mistura de etanol na gasolina acima dos atuais 20%.
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A discussão já alcançou as ruas, com uma manifestação realizada em Nova Délhi em 5 de julho contra a promoção governamental do E20.
D. Raghunandan, cientista do Delhi Science Forum, afirmou em debate do Indian Women’s Press Corps nesta semana que não considera o E20 uma solução vantajosa para todos.
Raghunandan também questiona a viabilidade de ampliar futuramente o teor para 80% ou mesmo 100%, possibilidades que já apareceram nas discussões sobre os próximos passos.
Segundo ele, veículos anteriores a abril de 2023 inevitavelmente terão queda de rendimento, enquanto o etanol pode corroer componentes básicos de borracha em contato com o combustível.

Para esses modelos, Raghunandan afirma que o limite previsto era E10 e aponta kits oferecidos pelas fabricantes para reduzir a deterioração dos componentes afetados.
Esses conjuntos custam de 1.000 rúpias (R$ 54) a 2.500 rúpias (R$ 136) para motos e de 4.000 rúpias (R$ 218) a 6.000 rúpias (R$ 327) para carros.
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O cientista ressalta que muitos consumidores desconhecem essa alternativa e podem acabar substituindo individualmente peças de borracha do veículo à medida que apresentarem desgaste.
Ele ainda questiona o esforço de mudar os biocombustíveis justamente quando a Índia pretende avançar integralmente para EVs ao longo da próxima década.
Brasil, EUA e Japão oferecem referências distintas, já que a mistura de etanol à gasolina é adotada internacionalmente, mas segue padrões diferentes entre os mercados.
O Brasil adota atualmente o E32, com 32% de etanol anidro na gasolina, percentual temporário vigente desde 1º de agosto por 180 dias e prorrogável uma vez por igual período.
Mais de 80% dos carros novos vendidos no mercado brasileiro são flex-fuel, tecnologia que permite abastecimento tanto com gasolina misturada ao etanol quanto com etanol hidratado.
Nos EUA, o padrão é E10, embora veículos flex-fuel aceitem misturas de até E85, enquanto o Japão introduz gradualmente o E10 em seu mercado.
Ramesh Chand, economista agrícola do Indian Council for Research on International Economic Relations, associa parte desse movimento ao excedente de arroz e, nos últimos 2 a 3 anos, de cana-de-açúcar.
A produção indiana chega a aproximadamente 155 milhões de toneladas anuais de arroz, diante de consumo doméstico de 108 milhões e exportações próximas de 20 milhões.
Chand observa movimento semelhante no milho, cuja produção cresce 9% ao ano há mais de uma década e avançou de 22 milhões para 55 milhões de toneladas.
Segundo ele, a agricultura cresce 4%, contra apenas 0,8% da população, enquanto a demanda dificilmente passará de 2% e exigirá destinação para 20% da produção em 7 a 8 anos.
A cana-de-açúcar também acumulou excedentes recentemente, embora Chand espere que sua produção seja afetada neste ano por um déficit de chuvas.
Siraj Hussain, ex-secretário de Agricultura da Índia, diz que o tema ganhou outra dimensão após o Ministério de Transporte Rodoviário e Rodovias publicar em abril uma minuta reconhecendo veículos flex-fuel E85 e E100.
Hussain considera essa direção totalmente equivocada e recomenda manter o flex-fuel suspenso, admitindo apenas avanços graduais, como uma eventual passagem do E20 para E22.
Para ele, misturas mais altas deveriam custar menos, criando uma diferença de preço capaz de oferecer aos proprietários um incentivo para aceitar combustíveis com maior proporção de etanol.
A Índia possui capacidade para produzir 20 bilhões de litros de etanol após 420 bilhões de rúpias (R$ 22,9 bilhões) em empréstimos bancários concedidos às destilarias.
A necessidade atual, porém, é de apenas 13 bilhões de litros, sendo 10 bilhões destinados à mistura de 20% nos combustíveis e 3 bilhões ao uso industrial.
Deepak Ballani, diretor-geral da Indian Sugar and Bioenergy Manufacturers Association, afirma que a capacidade superou o consumo, pressionando especialmente unidades que assumiram empréstimos para ampliar suas operações.
Ballani prevê crescimento gradual do flex-fuel conforme as montadoras lancem veículos compatíveis e lembra que o etanol também pode alcançar aviação, combustível sustentável de aviação e cozinha.
