
A vitrine ainda mostra carros novos e seminovos por toda parte, mas o interesse do público por modelos a gasolina na China perde força e pressiona preços em toda a cadeia.
Depois que o choque do petróleo ligado ao Irã esfriou a demanda, os valores de carros novos e usados com motor a combustão desabam e agravam a crise das montadoras tradicionais.
No maior mercado automotivo do planeta, a deterioração atinge tanto fabricantes quanto concessionárias, que veem o segmento encolher num momento já marcado por forte concorrência.
Um Range Rover Evoque L nacionalizado aparece neste mês por apenas 179.800 yuans (R$ 135.300), segundo reportagem do veículo chinês Jiemian.
Esse valor representa quase 60% abaixo do preço sugerido de 429.800 yuans (R$ 323.100), um tombo que ajuda a dimensionar a violência dos descontos.

De acordo com uma análise da China Passenger Car Association, o desconto médio dos carros a gasolina praticamente dobra nos cinco primeiros meses deste ano.
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A média chega a 33.000 yuans (R$ 24.800), muito acima dos 17.000 yuans (R$ 12.800) registrados no mesmo período do ano passado.
Os dados levantados por Li Yanwei, consultor da China Automobile Dealership Association, mostram que a taxa média de desconto dos modelos mais beberrões supera 25% no trimestre encerrado em maio.
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Esse patamar equivale a mais do que o dobro do observado em híbridos plug-in ou EVs, reforçando a mudança de apetite do consumidor chinês.
No mercado de usados, o ambiente se mostra ainda mais delicado, porque a demanda fraca coincide com a entrada de mais veículos vindos de proprietários que migraram para EVs.

A chegada desse estoque extra pressiona ainda mais os preços, justamente quando os carros novos a gasolina também ficam mais baratos e destroem referências anteriores de valor.
Os números da PCA mostram que o preço médio de transação dos usados a gasolina cai quase 19% em maio.
No caso de um carro com três anos de uso, o valor médio de revenda despenca para apenas 38% do preço de zero-quilômetro.
Em 2023, esse mesmo índice ficava em quase 60%, o que revela uma erosão muito rápida na capacidade de retenção de valor desses modelos.
Para Cui Dongshu, secretário-geral da PCA, o sistema de valor residual praticamente entra em colapso, comprometendo a lógica de negociação do mercado.
Na avaliação dele, os clientes ficam com medo de comprar, os vendedores de usados evitam assumir mais estoque e os concessionários deixam de fechar negócios.
O resultado é um impasse em que todos perdem, num ciclo que trava a circulação de veículos e derruba a confiança dos agentes envolvidos.
A nova queda de preços aumenta a pressão sobre montadoras tradicionais, justamente quando Pequim aperta o cerco contra uma guerra de preços que já se arrasta há bastante tempo.
Para grupos estrangeiros como Volkswagen AG e BMW AG, a situação é especialmente sensível, porque a China continua sendo um de seus maiores mercados globais.
Essas empresas até avançam com novos EVs, mas perdas maiores do que o esperado no segmento de carros a gasolina são exatamente o tipo de problema que elas menos precisam agora.
A fraqueza nas vendas também pesa sobre a economia chinesa, num sinal de que a pressão já vai além das concessionárias e das linhas de montagem.
As vendas no varejo da China recuam 0,6% em maio, marcando a primeira queda desde a pandemia e reforçando o tamanho do desaquecimento.
O cenário tampouco sugere alívio próximo, já que a PCA projeta neste mês uma retração de 11% nas vendas de veículos ao longo deste ano.
Nesse contexto, o carro a gasolina deixa de ser apenas um produto sob pressão e passa a simbolizar uma parte do mercado chinês que perde valor, liquidez e relevância ao mesmo tempo.
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