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Eu, Sanderos, Logans e um bocado de quilômetros

Tenho 32 anos. Por trabalhar em uma empresa de ingredientes alimentícios, atendo todo o Brasil. Tenho carro da empresa, que é obtido junto a frotistas (especialmente Localiza). O carro é fornecido e fico com ele até cerca de 35.000 a 45.000 km.

Isso, normalmente rodo entre seis meses e um ano. A narrativa aqui feita, se refere principalmente a três modelos: Renault Logan Expression 1.0 16v, Renault Sandero Expression 1.6 e Renault Sandero Stepway (motor 1.6 8v). Vou procurar sumarizar minhas impressões por partes. Anos entre 2011 até 2014, todos da geração anterior a atual (que ainda não chegou nos frotistas).


Os pontos fortes dos Sandero e Logan

Todos nós, leitores de sites e mídia especializada, já os conhecemos. Primeiro, espaço interno: os carros tem realmente bom espaço, acomodam cinco adultos com bom conforto. Em segundo lugar, eu destacaria o ajuste de suspensão, que creio ser a melhor parte deste carro: a suspensão nem é tão dura quanto a de um VW Gol ou Voyage, absorvendo sem copiar demais as imperfeições de pisos irregulares, o que é importante se você, como eu, não anda só pela Bandeirantes e Anhanguera, mas também por estradas repletas de remendos, buracos e ondulações.

Nestes terrenos, a absorção é boa, sem fortes solavancos, e sem fim de curso da suspensão (batidas secas). No entanto, a suspensão não é mole como a de um Fiat Palio Fire: em curva, o carro não inclina e nem rola demais. Diria, que dos carros populares que já dirigi, é aquela que possui o melhor compromisso entre estabilidade e conforto.


É preciso falar também de como são completos, e bem acabados: o primeiro comentário está creio de acordo com tudo o que lemos na mídia especializada. Os carros da Renault (pelo menos na geração anterior), tinham boa relação custo benefício.

Mesmo na frota, podemos ter Voyage: no entanto, é um carro apenas com direção, vidro, trava e ar. No Renault, há sim com controles por alavanca na coluna, um computador de bordo completo, travamento central das portas, controle elétrico dos espelhos, alarme para faróis acesos (a linha Gol, até 2013, não tinha esse equipamento em frotistas), indicação no painel de portas abertas, travamento automático das portas acima de 20 km.

E sobre o acabamento? Aí, discordo um pouco do que leio na mídia especializada. Creio que o que levamos em conta, fora a aparência de materiais, e mais do que coisas como a exatidão na montagem, tem a ver com robustez. Quem já teve popular, sabe: depois de um ou dois anos, alguns carros viram um “escola de samba”, a cada buraco, há a impressão que os plásticos do interior todos vão se soltar.

Não sei para o leitor, para mim, esse comportamento é enlouquecedor: sou do tipo que, em meu veículo de uso pessoal, presto atenção em qualquer ruído diferente, sendo ele um motivo de uma visita ao mecânico. A sensação que um carro fazendo um conjunto indistinto de ruídos de plástico me dá é que comprei um produto ruim, que está se desintegrando.

Creio que muita gente seja como eu, inclusive admire carros mais caros por serem silenciosos nesse sentido, por suas peças de acabamento não fazerem ruídos incômodos. Nesse sentido, a linha Logan/Sandero merece todos meus elogios: são carros com os quais percorrei cerca de 50 mil km, em estradas ruim, e em nenhum momento viraram “escolas de samba”: resistiram bem. Apenas peças específicas, como o bagagito, fazem um pouco mais de ruído.

Na parte do consumo, um comentário para o motor 1.0 16v: seu consumo, seja com gasolina ou álcool, é excelente. Dando um exemplo: saí do Rio de Janeiro para Campinas, com o tanque do Logan cheio de gasolina, três pessoas, bagagens.

Ao abastecer, pedi para encher até a boca: com cerca de 60 litros. A autonomia indicada no painel, de quase 800 km (!!!!!), foi suficiente para chegar a Campinas (530 km de distância), e ir a São Vicente sem abastecer (mais 160 km). Só abasteci no retorno de São Vicente: e ainda tinha 150 km de autonomia, com o computador de bordo indicadando 14,5 km/l.

Entre Rio e Campinas, com o carro carregado, fiz a viagem em velocidades acima dos 120 km/h: e sempre com o ar ligado. Além de econômico, o motor do 1.0 16v dá, em minha opinião, conta do recado: apesar de precisar de giros mais altos, desenvolve boas velocidades.

O mesmo não vale para 1.6 8v, que não seria minha escolha: raramente consigo médias de consumo com álcool acima de 8,5 km/l com o ar ligado, ou 11 km/l com gasolina: a não ser que ande bem devagar (abaixo dos 110 km/h na estrada).

Seu desempenho também não empolga: é lento para subir de rotações, não tem muito torque disponível, principalmente em baixas. Na estrada, não compromete tanto: mas para quem tem, por exemplo, um VW 1.6 8v, vai sentir uma certa anemia. Resumidos os pontos forte, vamos aos pontos fracos.

Eu, Sanderos, Logans e um bocado de quilômetros

Os pontos fracos

Na mídia, se fala em coisas que todos nós já percebemos. A primeira: o nível de ruído, elevado demais em qualquer versão, especialmente o ruído do motor: seja 1.0 16v ou 1.6 8v, o motor é ruídoso. O câmbio: alavanca de curso longo demais, um tanto imprecisa e mole, e que vibra o tempo todo.

Um parêntesis: é um defeito ruim, mas que incomoda os “ gearheads”, não pessoas normais, porque não é que o câmbio não funcione, apenas não é o “ canivete suíço” que gostaríamos. Incomoda, mesmo, a direção hidráulica. O volante é muito grande, de diâmetro excessivo. A assistência hidráulica é insuficiente, sendo um dos volantes mais pesados de carros com assistência que eu já dirigi: nem parece hidráulico.

Além disso, a direção é pouco direta, e parece que espera um pouco para reagir. São defeitos que, combinados, deixam o carro pouco manejável numa estradinha sinuosa, por exemplo: um volante lento, pesado, que precisa ser muito virado, não estimula ninguém a dirigir velozmente em um estradinha cheia de curvas: melhor ir devagar.

A isso, some-se um defeito que percebi em todos os veículos dessa linha. Por alguma razão misteriosa, quando o volantes está todo esterçado com o carro em movimento , por exemplo, em manobras ou na saída de cruzamentos, é comum o carro “ morrer”. Enfim, para mim, o pior defeito do carro é sem dúvida sua caixa de direção.

Sabemos que a suspensão tem excelente comportamento, ao menos eu acho. No entanto, ela é um ponto, para quem tiver um desses carros, que requer atenção. A suspensão não é nada, mas nada mesmo, robusta. Caso você, com esses carros, não tenha cuidado com buracos, a geometria de direção se perde facilmente.

Esses carros desalinham facilmente, e principalmente, perdem sua cambagem correta. Isso determina vibrações, maior peso no volante, e o pior dos problemas: o aumento do já inadequado peso direção. Além disso, outro problema: o desgaste prematuro dos pneus.

Com a cambagem errada, o desgaste de um dos lados é muito acentuado. Já chequei a devolver para o frotista um Renault Logan que destruiu os dois pneus traseiros ( lado interno todo “ careca”), com apenas 30.000 km.

Além de pneus, suspensão, há um lado negativo forte. Embora valentes, especialmente o motor 1.0 16 v, os motores são ruidosos demais. E o nível de ruído geral do carro é muito alto: especialmente o vento, o som de rolagem dos pneus e o motor são as principais fontes de ruído.

Outros incômodos, porem menores, são a ergonomia: posição dos comandos ruins, com a alavanca de comando do som atrás do volante, a almofada de buzina excessivamente grande, a posição do som (ou eventual kit multimídia) muito baixa. A posição de dirigir é vertical demais para meu gosto. E a regulagem de inclinação do assento tem um defeito que é bastante inconveniente em viagens longas: o assento vai inclinando para trás sozinho.

O dia a dia com o carro

Bom, postos todos os defeitos e qualidades, vamos falar da convivência. Meu trabalho requer viagens por todo o Brasil, sendo especialmente feitas de carro no dentro do estado de São Paulo, em Minas Gerais, no Rio de Janeiro e Paraná.

Para outros estados, vou de avião. Em geral, quando não estou em viagem, me desloco cerca de 100 km por dia, 50 de ida e 50 de volta ao escritório da empresa. De carro, as viagens vão até 950 km ( Campinas- Umuarama), cerca de 13 horas de carro. Ida e volta, são quase 2000 km. Viagens que faço, em alguns momento, de um tiro só.

O que dizer dos carros? Bom, em viagens longas, há qualidades: cansa menos que outros populares. Se o motor for 1.0, temos grande autonomia. O espaço interno é bom, o espaço para bagagem é bom. O carro é equilibrado, mesmo sob chuva.

E sua condução segura, em virtude da estabilidade, soma os motores não muito rápidos a uma direção lenta, para produzir um efeito que acho ótimo: nesses carros você não é convidado a correr com em um VW. Isso é particularmente interessante para pessoas como eu, que rodam 50.000 km, sozinhos, em viagens longas, por estradas inseguras.

Nessa hora, acho que prazer ao dirigir vem depois de segurança. Na cidade, o convívio com os carros é fácil, simples, sem maiores sustos.

Algumas situações específicas merecem relato

1) Desvio de emergência em estada de mão simples: certa vez, voltando do Paraná, na região de São Pedro, estava por volta de 18 horas, em uma estrada vicinal. O asfalto é horrível, e no acostamento há cascalho. Essa estrada é perigosa pelo grande trânsito de treminhões de cana.

Estava com um Logan 1.0 16v. Em sentido oposto, vinha um treminhão destes. De repente, saiu de trás dele um carro. Não haveria até chegar a mim, espaço suficiente para que ele completasse a ultrapassagem. Eu estava a cerca de 100 km/h, e saí da pista, de forma uma pouco brusca. O carro escorregou sobre o cascalho.

Ponto positivo: não houve saída de traseira ou rolagem excessiva, o controle do carro nestas condições de pouca aderência é fácil. Tenho a impressão que, em um Siena Fire, por exemplo, que tem a suspensão mais mole, e a traseira com mais rolagem, teria tido muito mais dificuldade de segurar o carro.

2) Enfrentando uma tempestade com enchente: ao ir para o Rio, no início de 2013, passei por chuvas torrenciais. Neste dia, em algumas regiões da avenida Brasil, houve alagamento. Estava com mais duas pessoas no carro. Nunca tinha passado por um alagamento na vida, mas sabia que devo proceder acelerando bastante (para evitar entrada de água pelo escapamento), e usar a embreagem o tempo todo.

Achei um ponto alto da calçada, e fiquei parado por horas esperando a água baixar. A mureta de contenção e a calçada alta fazia a água ter altura considerável, dificultando o escoamento: tanto pista local quanto expressa estavam alagadas.

Em alguns pontos mais baixos, era difícil. Mesmo esperando a agua baixar, ainda havia muita água. Afora o pavor de estar do lado de um ônibus ou caminhão, que sem nenhum pudor passavam a toda do lado de carros pequenos, e provocavam além de aumento de nível de água, uma onda lateral que assustava, o Logan se saiu bem: foram três pontos de alagamento vencidos, sem nenhum susto, ou engasgo. Nesta hora, a gente vê o quanto é útil a altura excessiva.

3) Furo de um pneu traseiro em estrada: essa aconteceu na Rodovia José Roberto Magalhães Teixeira, na Região entre Campinas e Valinhos. Estou atualmente com um Sandero Stepway 1.6 8v 2014. Esta rodovia tem apenas 11 km de extensão, e está em obras atualmente.

Faz a ligação entre Rodovia Dom Pedro e Rodovia Anhanguera. O pneu traseiro esquerdo foi furado por um prego. Não percebi: não houve ruídos, drama, e trafeiguei 3 km com ele totalmente vazio. Só ao ser avisado, num acesso engarrafado, por um motorista, é que percebi. E aí, um ponto negativo de todos esses carros: estepe do lado de fora. Nem pensei em trocar: fui direto ao borracheiro, que consertou o pneu.

Conclusões

Vivi pelo menos 200.000 km dentro de carros da linha Logan/Renault antiga. Esses carros tem suas qualidades: bom conforto, acabamento durável, robustez (exceto da suspensão), não cansam em viagens. Especialmente os de motor 1.0 16 v são econômicos. São espaçosos e bem equipados.

E aí, viria a pergunta: você compraria? Aponto um problema, esse o maior que posso apontar. Ambos são carros bons, mas corretos. Isso quer dizer que eu compraria, se o objetivo fosse uso no trabalho: e preferencialmente uma versão 1.0 16 v, já que a 1.6 litro não entrega um desempenho muito superior, mas consome muito mais.

E aí, há um problema, mesmo com o novo design, melhor acabamento, ergonomia: conjunto mecânico é o mesmo. Se o motor é competente, os freios são bons, e a suspensão – que mudou- deve ser ainda melhor, a caixa de direção é terrível, e o câmbio é ruim.

Fora isso, o que falta a linha Renault é um elemento que para mim é intangível: personalidade, encanto, e algum prazer. Parecem carros pensados para serem funcionais, corretos, seguros. Mas não há nada que individualmente diga: a caracaterística X me faz querer dar uma esticada no caminho só para ficar dentro do carro.

Quer um exemplo? É gostoso, se a estrada for plana, pegar ela de Gol ou Voyage 1.6: eles andam bem, fazem curva, a direção é perfeita e seu câmbio é ótimo de ser usado.

Eu também gostei demais de fazer um test drive em um Onix LTZ. Primeiro, o interior é muito bonito, em minha opinião: você entra e é um bom lugar para estar. Depois, o volante é pequeno, ótima empunhadura. A posição de dirigir, baixa, com a lateral do carro alta, o console alto, e você no meio,faz você “ vestir o carro”.

A alavanca do câmbio fica próximo ao volante em altura, facilitando as trocas de marcha. Até mesmo o tambor da chave fica numa posição legal. E quando o carro anda, seu silêncio impressiona, sem som de motor ou ruído de rodagem, bem como as trocas de marcha (que, se não são padrão VW, são muito boas).

Enfim, essa combinação de coisas, faz você desejar o carro. E esse, é na minha opinião, o problema da linha Logan e Sandero, na hora da compra. São carros bons, robustos, funcionais. Mas o momento do mercado brasileiro, com Onix, HB20, novo Ka, é um momento em que o consumidor quer mais: quer não apenas se locomover em um carro confiável e econômico, mas quer um pouco mais de tecnologia, de sofisticação, de conforto, e do imponderável, daquele traço especial que faça você sentir quando entra no carro eu queria ter esse carro.

Nisso, infelizmente, essa dupla falha. O que quer dizer o seguinte: compre, se a sua compra for movida por funcionalidade, se a sua preocupação for locomover-se sem dor de cabeça, se você quiser um carro econômico, honesto. Mas não espere se pegar num sábado de manhã esticando o caminho naquela ida a padaria só porque é legal dirigir o carro: isso, essa dupla não entrega.

Por Marcus Lima

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