
Uma mudança profunda na forma de lidar com qualidade ganhou força dentro da Ford depois que um lançamento essencial expôs falhas que a empresa decidiu não repassar aos clientes.
A origem dessa virada está na quinta geração da F-Series Super Duty, apresentada em 2023 como um dos produtos mais importantes para os negócios da fabricante americana.
Problemas de software e falta de semicondutores fizeram a Ford manter milhares de picapes quase prontas em estacionamentos pelos Estados Unidos antes que elas pudessem seguir às concessionárias.
Jim Farley, presidente-executivo da Ford, afirma que aquele lançamento da Super Duty funcionou como um catalisador para mudanças muito mais amplas na estrutura da companhia.
Desde então, dois terços dos líderes ligados ao sistema industrial, fabricação, cadeia de suprimentos e engenharia foram substituídos, segundo Farley em entrevista ao Detroit Free Press.

A renovação atingiu principalmente gestores associados à mentalidade de que um resultado considerado apenas suficiente poderia ser aceito, postura que a direção decidiu abandonar.
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Centenas de novos líderes foram contratados nos últimos anos, ao mesmo tempo que a Ford reformulou processos para ampliar a colaboração entre suas diferentes áreas internas.
Farley também destaca uma mudança cultural que substituiu a busca por responsáveis pela concentração imediata na solução dos problemas e na identificação de suas causas.
Hoje, sempre que um funcionário aponta alguma questão, a orientação é trabalhar rapidamente na correção e compreender sua origem antes que ela alcance o consumidor.
Segundo Farley, em anos anteriores a Super Duty teria sido enviada às concessionárias mesmo nessas condições, deixando eventuais correções posteriores para campanhas de recall.
A estratégia atual faz o caminho oposto, mesmo que isso exija reduzir o ritmo das linhas, adiar lançamentos e absorver internamente as consequências dessas decisões.
Para o executivo, impedir que problemas conhecidos sejam transferidos aos compradores parece uma regra simples, mas sua aplicação exigiu escolhas difíceis dentro da operação da Ford.
Os primeiros resultados aparecem no estudo Initial Quality Survey da JD Power, no qual a Ford conquistou recentemente a posição número 1 entre as marcas generalistas.
O avanço, porém, não encerra a pressão sobre a companhia, que ainda lidera a indústria em quantidade de recalls registrados ao longo deste ano.
Um dos números que reforçam esse contraste é a marca de 13,5 milhões de recalls neste ano, incluindo uma campanha relacionada a um banco do motorista que pode reclinar sozinho.
O desafio agora é transformar os progressos recentes em um padrão duradouro, especialmente se a Ford pretende alcançar referências de qualidade construídas por concorrentes como a Toyota.
Karl Brauer, analista executivo da iSeeCars, avalia que a verdadeira prova será manter lançamentos e produção de veículos novos em alto nível durante cinco, 10 e 15 anos.
Segundo Brauer, foi justamente essa continuidade que permitiu à Toyota construir durante décadas uma reputação baseada em veículos duráveis e com poucos problemas depois da compra.
A Ford, portanto, já apresenta sinais concretos de melhora, mas sua comparação com a Toyota dependerá menos de um único ranking e mais da capacidade de repetir esses resultados por décadas.






