
A recuperação da Ford nos rankings de qualidade nasce menos de uma nova tecnologia e mais de uma mudança interna: colocar especialistas experientes novamente no centro das decisões.
A montadora contratou ou promoveu internamente mais de 350 especialistas técnicos nos últimos três anos, cada um responsável por uma peça, sistema ou componente específico.
Na manufatura, por exemplo, existe um profissional dedicado exclusivamente a evitar contaminação de motores e outro concentrado apenas na fiação elétrica dos veículos.
A estratégia busca identificar a origem dos problemas combinando experiência acumulada, dados disponíveis e opiniões dos clientes antes que os veículos cheguem às concessionárias.
Ao mesmo tempo, engenheiros e projetistas menos especializados conseguem manter os cronogramas semanais e mensais de desenvolvimento sem assumir investigações que exigem conhecimento muito específico.

Charles Poon, vice-presidente de engenharia de hardware veicular da Ford, afirma que a companhia percebeu a necessidade de especialistas em todas as principais áreas tecnológicas.
A função já existia anteriormente, mas uma reorganização de US$ 11 bilhões (R$ 60 bilhões) realizada em 2018 eliminou 7.000 postos administrativos globalmente.
Entre as saídas estavam profissionais veteranos do desenvolvimento de produtos, dentro de uma reestruturação que buscava reduzir níveis de gestão e tornar a Ford mais ágil.
O custo dessa perda de experiência ficou mais evidente em 2023, quando dificuldades no redesenho da linha Super Duty custaram aproximadamente US$ 1 bilhão (R$ 5,5 bilhões).
A partir dali, a empresa decidiu abandonar uma abordagem baseada em encontrar e corrigir falhas depois, priorizando a identificação dos problemas antes da saída da fábrica.

Também foi criado um grupo multidisciplinar de sistemas industriais liderado pelo diretor de operações Kumar Galhotra, reforçando a tentativa de acelerar essa transformação.
Segundo Poon, especialistas internos passaram a receber promoções enquanto a Ford também buscou profissionais experientes em outras fabricantes e fornecedores do setor automotivo.
Enquete
Entre especialistas, testes ampliados e IA, qual critério explica a virada da Ford na JD Power?
Vote e veja o resultado em tempo real.
7 votos
Internamente, esse grupo chegou a receber o apelido de “graybeards”, referência à experiência acumulada por profissionais que atravessaram diversos ciclos de desenvolvimento de produtos.
Poon afirma que centenas de correções e melhorias já foram aplicadas aos projetos antes mesmo da fabricação da primeira peça, antecipando problemas durante o desenvolvimento.
Samuel Matt é um desses novos especialistas e chegou à Ford há cerca de 18 meses para trabalhar exclusivamente com tampas traseiras, portas de carga e sistemas semelhantes.

Recentemente, sua equipe avaliou a nova opção de tampa traseira manual oferecida em determinadas configurações do Explorer e identificou uma falha ligada a um fornecedor.
O grupo conseguiu diagnosticar e solucionar a questão no mesmo dia, processo que anteriormente poderia consumir vários dias ou até semanas dentro da companhia.
A inteligência artificial também passou a integrar esse modelo, principalmente na análise de grandes volumes de informação e em tarefas administrativas realizadas pelos especialistas.
Matt utiliza sistemas de IA para avaliar o comportamento das tampas traseiras, mas afirma que o contexto fornecido por profissionais experientes continua indispensável para orientar as análises.
Russell Mihm, promovido internamente, trabalha com cintos de segurança e airbags nas plataformas globais e usa IA como apoio, mantendo a colaboração humana como elemento principal.
Os resultados aparecem no estudo de qualidade inicial da JD Power de 2026, no qual a Ford se tornou a marca de grande volume mais bem posicionada.
Sete dos dez modelos Ford avaliados ficaram entre os três melhores de seus respectivos segmentos, quantidade superior à registrada por qualquer outra fabricante participante.
A mudança chama atenção porque, apenas três anos antes, a Ford ocupava a 23ª posição no mesmo levantamento de qualidade inicial da JD Power.
Além dos especialistas, a empresa implantou reuniões diárias para resolução de problemas e ampliou os testes, simulando até 15 anos ou 362.000 km de utilização.
A Ford ainda lidera o setor em campanhas de reparo neste ano, mas seus executivos consideram que os indicadores recentes mostram avanço consistente na qualidade.
Para Poon, o resultado aparentemente rápido exigiu mais de três anos de investimento em pessoas, conhecimento técnico e uma cultura que transforma falhas em aprendizado para novos projetos.




