
Numa indústria acostumada a sobreviver a guerras, crises econômicas, choques do petróleo, disputas comerciais e revoluções tecnológicas, a Volkswagen diz encarar mais uma virada decisiva.
Foi esse o tom adotado por Oliver Blume, nesta quinta-feira, em Munique, durante a assembleia anual virtual do grupo, ao descrever uma operação pressionada por custos, tarifas e concorrência.
O executivo afirmou que a companhia tenta atravessar a turbulência com um plano que combina cortes profundos, mais eficiência industrial e uma ofensiva de produtos.
A aposta imediata é lançar 20 novos veículos ainda neste ano, enquanto a empresa acelera uma reestruturação que prevê eliminar 50.000 empregos até 2030.
Mesmo sob pressão, o grupo fechou 2025 com lucro líquido de US$ 7,5 bilhões (R$ 38,5 bilhões), acima dos US$ 2,7 bilhões (R$ 13,9 bilhões) obtidos pela General Motors.

O resultado, porém, não impediu Blume de admitir fragilidades importantes, e ele sequer entrou em detalhes sobre o desempenho decepcionante das vendas de veículos no primeiro trimestre de 2026.
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As entregas globais da Volkswagen caíram 4%, para 2 milhões de unidades, com recuos expressivos de 13,3% na América do Norte e 14,8% na China.
Entre as marcas, o início de ano também foi negativo, com quedas de 7,6% para Volkswagen, 6,1% para Audi, 9,9% para Bentley, 11,7% para Lamborghini e 14,7% para Porsche.
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Nem os EVs escaparam, já que as vendas do grupo nesse segmento recuaram 7,7% na comparação com o primeiro trimestre de 2025, somando 200.000 unidades.
Blume afirmou que o velho modelo de negócios da companhia deixou de funcionar, resumindo a fórmula antiga como desenvolver um carro global na Alemanha, produzi-lo na Europa e vendê-lo ao mundo.

Segundo ele, a Volkswagen já passou por uma reestruturação fundamental, mas ainda precisa ampliar o alcance global, acelerar a tecnologia e executar sua estratégia com consistência.
O CEO foi direto ao afirmar que a situação é tensa e exigente, e que, embora os produtos tenham recolocado o grupo na linha de frente, eles ainda não rendem dinheiro suficiente.
Na avaliação do executivo, crises geopolíticas bagunçaram mercados e cadeias de suprimento, enquanto tarifas, barreiras comerciais e regulações crescentes elevaram ainda mais o custo de operar.
A resposta anunciada em março foi um enxugamento pesado, envolvendo Volkswagen, Audi, Porsche e a subsidiária de software CARIAD, todas com cortes programados na Alemanha.
Só na holding Volkswagen AG, 19.000 postos administrativos desaparecerão até o fim do ano, enquanto 28.000 saídas já contam com acordos vinculantes até 2030.
A empresa afirma ainda que os custos das fábricas alemãs caíram mais de 20% em 2025, e a meta é obter economia líquida de US$ 6,8 bilhões (R$ 34,9 bilhões) até 2030.
Na frente de produto, Blume disse que a marca Volkswagen conduz a maior ofensiva de modelos de sua história, com compactos elétricos voltados ao mercado europeu.
Nessa lista aparecem ID. Polo, ID. Polo GTI, ID. Cross e ID.3 Neo, mas a tendência é que nenhum desses pequenos EVs chegue aos Estados Unidos.
Por lá, a produção em Tennessee do ID.4 elétrico já foi encerrada, e o ID. Buzz permanece em pausa até a linha 2027.
A aposta americana mais concreta passa pelo novo Atlas 2027, montado em Chattanooga, que estreia no fim deste ano com motor a combustão e, mais adiante, versão híbrida.
Na divisão premium, a Audi promete três novidades em 2026, com Q7, Q9 e RS5 híbrido plug-in, enquanto o compacto elétrico A2 E-Tron estreia na Europa no outono.
Embora tarifas sobre importados e baixa participação de mercado sugiram cautela, Blume afirmou que os Estados Unidos são a região com maior potencial de crescimento para o grupo.
Nesse plano entra a nova fábrica da Scout na Carolina do Norte, destinada a picapes e SUVs com autonomia estendida e também elétricos, além de estudos para localizar produtos Audi no país.
O desafio, porém, continua evidente no coração da marca Volkswagen, que há anos sofre com preços considerados altos demais no mercado americano para competir em volume.
O ID. Buzz, tratado como possível acerto de imagem, acabou prejudicado por um preço inicial de US$ 60.000 (R$ 308.100), distante do que o público esperava.
No fim, Blume tenta equilibrar a gestão de oito marcas europeias, operações em 150 países e uma estrutura global de 660.000 funcionários, enquanto procura devolver rentabilidade ao carro do povo.
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