
A chegada acelerada de EVs chineses à Austrália colocou a proteção de dados dos automóveis modernos sob atenção após uma investigação revelar o alcance das informações acessíveis pelas fabricantes.
O documentário produzido pela ABC News concentrou-se principalmente em modelos da Xpeng e da BYD, analisando tanto a coleta remota de informações quanto possíveis vulnerabilidades dos veículos.
Segundo a reportagem, uma fonte não identificada ligada à Xpeng conseguiu acompanhar remotamente um G6 utilizado pela emissora durante os testes realizados no país.
Entre as informações disponíveis estavam localização, velocidade, ocupação dos bancos e até o ângulo do volante, além de outros dados gerados continuamente pelo veículo.
A investigação afirma que essas informações também poderiam ser consultadas pela empresa a partir da China, aumentando o debate australiano sobre onde os dados automotivos são armazenados.

O Australian Security Intelligence Organisation já recomenda que ministros e servidores evitem conversas sensíveis dentro dos veículos e não conectem equipamentos profissionais aos sistemas de bordo.
Ainda assim, não existe uma determinação australiana proibindo autoridades de utilizar determinadas marcas, e integrantes do governo possuem justamente modelos das empresas analisadas.
O ministro do Comércio, Don Farrell, utiliza uma BYD Shark 6, enquanto Chris Bowen, responsável pela área de clima e energia, dirige um Xpeng G6.
A segunda parte da investigação procurou demonstrar o que poderia acontecer caso alguém explorasse uma falha diretamente nos sistemas eletrônicos de um veículo conectado.
O especialista em cibersegurança automotiva Dan Hreszczuk recebeu uma BYD Shark 6 durante duas semanas e encontrou um ponto de entrada que, segundo ele, sequer exigia senha.
A partir dessa brecha, Hreszczuk conseguiu comandar remotamente diversas funções, incluindo travamento das portas, sistema de áudio, limpadores de para-brisa e iluminação durante o deslocamento.
O teste avançou para os microfones internos, permitindo ao especialista ouvir o ambiente da cabine e demonstrar como conversas e chamadas poderiam ficar expostas.
Enquete
Com microfones e conexão permanente, qual consequência prática ganha maior relevância?
Vote e veja o resultado em tempo real.
3 votos
Hreszczuk também gravou a voz do jornalista participante e utilizou trechos do comando de ativação do assistente virtual presente no iPhone conectado ao veículo.
Depois de reproduzir “Hey Siri” pelos alto-falantes da Shark 6, ele adicionou comandos próprios e conseguiu fazer o smartphone revelar diversas informações armazenadas.
Entre os dados expostos estavam data de nascimento, número telefônico e contatos presentes na agenda, incluindo, naquele aparelho, o telefone do primeiro-ministro australiano.
O caso reforçou preocupações já discutidas em outros países, e Reino Unido e Polônia estabeleceram restrições para veículos chineses em determinados locais considerados sensíveis.
Até agora, entretanto, não existem evidências apresentadas na reportagem de que o governo chinês tenha solicitado às fabricantes que utilizem seus automóveis para obter informações de outros países.
Parlamentares britânicos destacaram anteriormente que a legislação chinesa pode permitir ao governo acesso a dados obtidos por câmeras, sensores e radares incorporados a tecnologias desenvolvidas no país.
O problema de privacidade automotiva, porém, está longe de se limitar às fabricantes chinesas, como demonstram levantamentos realizados anteriormente com empresas de várias nacionalidades.
Um estudo da Mozilla publicado em 2023 analisou 25 marcas e atribuiu a todas elas seu alerta “Privacy Not Included” devido à forma como informações dos consumidores eram tratadas.
Nissan e Kia estavam entre os casos mais invasivos encontrados pelo levantamento, que identificou referências à coleta de informações extremamente pessoais relacionadas aos usuários.
A Mozilla também apontou que 84% das fabricantes analisadas compartilhavam ou comercializavam dados coletados com terceiros, mostrando a dimensão do problema em toda a indústria.
Falhas semelhantes já foram demonstradas anteriormente em veículos de Tesla, Kia e Subaru, indicando que sistemas conectados representam um desafio amplo para o setor automotivo.
À medida que carros ganham câmeras, microfones, conexão permanente e serviços remotos, cresce também a quantidade de informações produzidas e a necessidade de mecanismos mais rígidos de proteção.










