Marea Turbo: história, anos, motor, desempenho, consumo

Fiat Marea BR spec 2006 2 1

O Marea Turbo é a versão mais famosa do Fiat Marea, um modelo médio que a marca italiana vendeu no Brasil entre 1998 e 2007.


Entre as opções deste carro, que gera polêmica até hoje, o Marea Turbo é, sem dúvidas, o mais famoso. Admirado por uns, odiado por outros, ele representou avanços na época, mas também complicações.

O Marea Turbo seguiu o caminho lógico, traçado pela Fiat, para seus modelos médios nos anos 90, utilizando o turbo como diferencial de performance e imagem.

Isso foi feito para enfrentar a concorrência pesada das demais montadoras grandes, assim como também das chamadas “newcomers”, que chegaram na mesma época e algumas já produzindo.

Feito para impressionar, tanto quanto para andar rápido, o Marea Turbo foi o primeiro carro nacional com motor de cinco cilindros em linha, que era enorme.

Ele também era o brasileiro mais poderoso de sua época e foi vendido nas configurações sedã e perua.

Perto da virada de século, o Marea Turbo era discreto por fora, com exceção de alguns detalhes, mas olha de forma geral, pouco indicava o que realmente podia fazer.

Essa discrição atrai até hoje os entusiastas, especialmente aqueles que curtem preparação, com alguns exemplares atingindo de 500 a 700 cavalos.

E não é somente isso, o bólido quase teve um irmão local…

Marea Turbo

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Nos anos 90, a Fiat havia lançado no Brasil o Tempra, um sedã médio baseado no Tipo e que fez muito sucesso por aqui. Uma das versões mais famosas desse carro era o Tempra Turbo.

Dando sequência, surgiu em 1998 o Marea e com ele a opção turbinada pouco tempo depois. O sedã chegou ao Brasil junto com a perua Marea Weekend, ambos derivados dos hatches Bravo e Brava (este também vendido aqui).

Com 4,393 m de comprimento, 1,741 m de largura, 1,450 m de altura e 2,540 m de entre eixos, o Marea Turbo era 35 mm maior, 46 mm mais largo e 15 mm mais baixo que o Tempra.

Seu porta-malas tinha 430 litros e o tanque oferecia 63 litros de capacidade. O espaço da plataforma é igual nos dois modelos. Entretanto, a perua Weekend tinha diferenças.

Ela era mais longa e alta, tendo 4,490 m de comprimento e 1,535 m de altura, sempre com a mesma largura e entre-eixos.

Tanto o Marea quanto a Marea Weekend estrearam no mercado nacional com versões ELX e HLX, ambas equipadas com o novo motor 2.0 de cinco cilindros e 20V, que entregava 142 cavalos e 18,1 kgfm.

Ainda em 1998, os Marea e Marea Weekend ganham a versão SX, mais barata, porém, com motor 2.0 20V de 127 cavalos.

A diferença era que não tinha a variação de abertura das válvulas como na versão de 142 cavalos. No entanto, a sensação mesmo, naquele fim de ano de 1998, era o Marea Turbo.

Marea Turbo – Desempenho

Fiat Tempra Turbo 2 door BR spec 159 1994–96 designed by I.DE .A 1

Como já dito, a Fiat teve em meados dos anos 90 o Tempra Turbo, que era equipado com motor 2.0 com injeção eletrônica e que entregava 165 cavalos a 5.250 rpm e 26,5 kgfm a 3.000 rpm, chegando assim a 213 km/h com aceleração de 0 a 100 km/h em 8,3 segundos.

No entanto, havia ainda o Uno Turbo i.e, que tinha motor 1.4 de 118 cavalos a 5.750 rpm e 17,5 kgfm a 3.500 rpm. O pequeno hatch ia de 0 a 100 km/h em 9,2 segundos e 195 km/h.

Assim, a dupla da Fiat teria que ter um produto sucessor que fosse realmente imbatível em performance e números.

Esse carro seria o Marea Turbo, que não foi o último turbinado da Fiat no Brasil. Assim, o motor Fivetech entrou na ordem do dia para a criação de um carro único, inexistente na Itália.

Lá, na casa da marca, havia um carro esporte que possuía um propulsor potente o suficiente para fazer isso, o Fiat Coupé Turbo.

A Fiat brasileira pegou seu motor Fivetech 2.0 Turbo e adicionou aos Marea e Marea Weekend (mais tarde tentariam fazer isso com o Brava).

O enorme cinco cilindros em linha de 1997 cm3 e duplo comando de válvulas variável, tinha injeção eletrônica multiponto, turbocompressor e intercooler, porém, com correia dentada, o que se mostraria fatídica para a trajetória do carro no Brasil (veja mais abaixo).

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O potente cinco cilindros passou a entregar 182 cavalos a 6.000 rpm e 27 kgfm a 2.750 rpm.

Tudo isso controlado por uma caixa manual de cinco marchas, assim como o Fivetech 2.0 aspirado de 127 ou 142 cavalos das demais versões.

Pesando 1.310 kg, o Marea Turbo ia de 0 a 100 km/h em 7,9 segundos e tinha máxima de 223 km/h, sendo os mesmos números para a versão familiar, que tinha 50 kg a mais e 500 litros no bagageiro.

Mesmo com essa cavalaria e um propulsor grande, o Marea Turbo fazia 8,8 km/l na cidade e 13,3 km/l na estrada, somente com gasolina.

Para obter toda essa performance e ostentar o título de carro mais potente feito no Brasil por pelo menos cinco anos (até a edição especial do VW Golf VR6 2.8 de 200 cavalos), sedã e perua tinham alguns recursos técnicos, entre eles válvulas de escape refrigeradas a sódio e radiador de óleo.

Visual conservador

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Entretanto, mesmo sendo um carro pensado para alto desempenho e até certo ponto esportividade, o Marea Turbo era um produto muito conservador, que poderia passar despercebido do grande público em ruas e estradas.

A ostentação mesmo ficava no cofre, fora do olhar das pessoas, mas havia indicações do que este sedã médio italiano portava debaixo do capô.

Quando se fala em Marea Turbo é preciso esquecer um visual impactante, com rodas esportivas, spoilers acentuados, aerofólio traseiro proeminente, difusor de ar e suspensão rebaixada.

Aliás, até mesmo um escape esportivo é coisa que não se encontrava nos médios turbinados da Fiat.

Sem chamar a atenção, o Marea Turbo tinha pequenos faróis duplos e horizontalizados, uma diminuta grade com o logotipo de barras da Fiat, assim como lavador de faróis, presos ao para-choque.

O protetor frontal tinha faróis de neblina circulares, assim como frisos emborrachados e grade inferior grande. Haviam pequenos defletores de ar nas extremidades.

Nas laterais, saias decorativas bem sutis, enquanto a traseira exibia as lanternas inicialmente cortadas e depois arredondadas levemente, enquanto o porta-malas com tampa nua, exibia os estranhos vincos que o fazia lembrar carros britânicos.

O para-choque tinha vincos suaves e dois refletores, assim como moldura na parte inferior, tentando ocultar o escape simples, virado para baixo.

As rodas de liga leve de seis raios não eram exatamente esportivas, mas também não chegavam a desejar nessa proposta. Eram calçadas por pneus 195/60 R15, que podemos considerar como sendo altos.

Tendo suspensão McPherson na frente e braços arrastados na traseira, o Marea Turbo tinha apenas calibração mais firme de molas e amortecedores, nada de barra estabilizadora maior ou algo assim.

Ainda assim, os pneus tinham classificação W (até 270 km/h) e rodas de tala mais larga.

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O sistema de freios foi melhorado e tinha discos ventilados na frente e sólidos na traseira. O Marea Turbo tinha dois diferenciais em relação às demais versões.

Uma era o teto solar elétrico de tamanho padrão, enquanto a outra era composta por duas saídas de ar estilizadas sobre o capô, que davam um ar de esportividade, mas limitada pelo resto do conjunto.

Esporte mesmo só por dentro. O Marea Turbo vinha com um interior diferente das outras versões, levemente esportivo. Ele tinha como diferencial um cluster de fundo branco, que tinha mostradores grandes em formato de meia-lua.

Os pedais eram de alumínio e o volante de quatro raios com comandos satélites vinha com couro perfurado. O acabamento das portas era diferente, assim como o couro dos bancos.

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O espaço contava ainda com trio elétrico, ar condicionado, sistema de áudio com CD player, piloto automático, direção hidráulica, banco traseiro com apoio de braço, entre outros.

O Marea Turbo 2000 ganhou ajustes elétricos para altura e lombar do banco do motorista, assim como temporizador dos vidros e iluminação interna.

Mesmo com a chegada do Fivetech 2.4 (2.45 litros) de 160 cavalos e 21 kgfm em 2000, o Marea Turbo permaneceu sem alterações.

Na linha 2002, o modelo ganhou leve atualização visual, que adicionou uma grade superior maior e com frisos, além de mais retangular.

Os para-choques permaneceram sem alterações, assim como as rodas de liga leve. O logotipo da Fiat muda para o padrão atual, mas com fundo azul ainda.

Já sofrendo as polêmicas envolvendo a manutenção, o Marea Turbo ganhava em 2005 molduras cromadas na grade e faróis, bem como Bluetooth com comando de voz.

De resto, tudo continua igual e assim, tanto sedã quanto perua, perdiam apelo, ainda mais com os concorrentes se renovando.

A Fiat também começava a perceber que aqui, o segmento médio para ela já não estava mais dando certo.

No começo de 2007, o Marea Turbo e as versões ELX e HLX saíram de cena, ficando apenas o SX, que durou só alguns meses e também foi embora.

Com isso, os emblemáticos sedã e perua Weekend com motores grandes e turbinados virou coisa do passado.

Eles foram substituídos pelo Fiat Linea, que não passava de um sedã compacto esticado, algo que os clientes perceberam e um dos fatores que determinaram o fim desse segmento dentro da marca no Brasil.

Depois do Stilo, o Bravo não foi muito adiante também.

Marea Turbo – Consumo

A Fiat informava na época de lançamento do modelo um consumo de 8,7 km/l na cidade e 13,3 km/l em estrada, sempre com gasolina.

É bomba?

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No entanto, o Marea Turbo deixou seu legado, não muito bom. Algo que repercute até os dias atuais, lhe valendo um apelido infame, mas que reflete bem as políticas de pós-venda e manutenção que reinavam no fim dos anos 90.

Afinal, esse carro é mesmo uma “bomba”?

É dessa forma que muitos consumidores olham ainda hoje para o Marea Turbo e seus irmãos com motores Fivetech aspirados.

Na época, o Brasil estava passando por seu primeiro período de downsizing e evolução tecnológica, deixando a velha guarda dos anos 70 e 80 para trás.

No entanto, o Marea Turbo sofreu da falta de assistência técnica especializada fora da rede Fiat e da pouca garantia, de apenas um ano.

Além disso, o projeto do carro colocava um motor enorme num cofre pequeno, exigindo sua retirada apenas para troca de correia dentada.

A cultura de manutenção de oficina de amigo, pratica comum nos carros nacionais mais simples de anos anteriores, destruiu muitas unidades do Fiat Marea e o orçamento de muitos clientes.

O resultado foi tão desastroso quanto o do motor de 16V, que fez quase toda a indústria nacional mudar para cabeçotes de 8V….

Falta de manutenção especializada, peças e serviços caros e a uma cultura de pós-venda (tanto de fabricante quanto de consumidores) dos anos 70 e 80, findaram com o Marea Turbo e todos os seus Fivetech.

Valeu como lição sobre como se construir uma imagem ruim.

Autor: Ricardo de Oliveira

Técnico mecânico, formado há 26 anos. Há 15 anos trabalha como jornalista no Notícias Automotivas, escreve sobre as mais recentes novidades do setor, frequenta eventos de lançamentos das montadoras e faz nossos testes e avaliações.