
Preço, disponibilidade rápida e custos menores de uso estão redesenhando um mercado historicamente dominado por fabricantes japonesas, abrindo espaço inédito para marcas chinesas na Austrália.
Os EVs já representam 21,7% dos carros novos vendidos no país até julho, participação praticamente três vezes maior que a registrada em janeiro, segundo a FCAI.
A transformação ocorre em um mercado que absorve aproximadamente 1,2 milhão de veículos novos por ano e oferece atualmente cerca de 110 modelos de EVs.
Toyota continua na liderança após 23 anos consecutivos, tendo encerrado o ano passado com aproximadamente 240.000 unidades e participação próxima de 20%.
A distância, porém, diminui rapidamente, pois a BYD vendeu cerca de 19.000 veículos somente em junho e terminou o mês apenas 243 unidades atrás da Toyota.

O avanço chama atenção porque, até outubro de 2022, a fabricante chinesa ainda não havia vendido nenhum veículo no mercado australiano.
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Tony Weber, CEO da Federal Chamber of Automotive Industries, atribui parte importante desse crescimento à alta dos preços de gasolina e diesel ligada à crise no Oriente Médio.
Segundo Weber, também existe uma mudança estrutural, com consumidores passando a considerar EVs uma alternativa mais concreta aos automóveis movidos exclusivamente a gasolina.
A gasolina australiana ficou cerca de 30% mais cara em março, depois de custar em média 1,68 dólar australiano (R$ 6) por litro em fevereiro, antes da guerra entre EUA e Irã.
Outro fator decisivo está nos preços dos próprios veículos chineses, frequentemente posicionados abaixo de produtos equivalentes oferecidos por marcas mais tradicionais.

Riz Akhtar, CEO da empresa de pesquisa automotiva Carloop, cita o Toyota RAV4, que começa em aproximadamente AU$ 46.000 (R$ 171.400), como exemplo dessa diferença.
O executivo compara o modelo ao BYD Sealion 6, oferecido por cerca de AU$ 43.000 (R$ 160.200), acreditando que muitos compradores escolherão a alternativa mais barata.
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Weber afirma que, apesar das cautelas geopolíticas australianas em relação à China, preço continua sendo o principal elemento capaz de determinar a escolha dos consumidores.
Pelo menos 15 marcas chinesas já atuam no país, segundo a imprensa automotiva australiana, enquanto outras fabricantes se preparam para entrar nesse mercado.
Além de ampliar rapidamente suas linhas, essas empresas trabalham com entregas curtas e redes de concessionárias em expansão, pressionando concorrentes estabelecidos há décadas.

Akhtar afirma que BYD e sua divisão de luxo Denza lançarão juntas aproximadamente seis produtos novos, ritmo superior ao observado atualmente na Toyota.
Segundo ele, compradores da BYD esperaram no máximo quatro semanas por seus veículos, enquanto um cliente do Toyota RAV4 enfrentou prazo de seis meses.
A pressão também chegou às picapes, segmento no qual a BYD começou a receber pedidos da Shark 6 híbrida plug-in ainda em 2024.
Em menos de dois anos, a Shark 6 alcançou 16% desse mercado e oferece autonomia elétrica de 80 km, além de preço inferior ao de produtos semelhantes.
O cenário atual também reflete a ausência de produção local, encerrada pela Ford em 2016 e pela Toyota e Holden em 2017.
A marca Holden deixou de existir em 2020, encerrando outro capítulo de uma indústria australiana que anteriormente fabricava parte relevante dos veículos vendidos internamente.
Diferentemente dos EUA e da Europa, a Austrália não aplica tarifas elevadas aos EVs chineses, condição que também favoreceu sua rápida expansão comercial.
O governo pretende reduzir as emissões de gases de efeito estufa para 43% abaixo dos níveis de 2005 até 2030.
A mesma estratégia prevê que 82% da eletricidade australiana venha de fontes renováveis até 2030, acompanhando medidas destinadas a acelerar a adoção de EVs.
Entre elas está o New Vehicle Efficiency Standard, introduzido no ano passado para estabelecer limites médios de emissões dos veículos novos comercializados por cada fabricante.
Empresas que cumprem os limites recebem créditos, enquanto aquelas que ficam acima acumulam débitos e posteriormente precisam pagar penalidades ou comprar créditos de outras companhias.
Steven Bragg, da empresa contábil Pitcher Partners, afirma que fabricantes chinesas podem aproveitar créditos obtidos com EVs para compensar parte do preço desses produtos.
Há ainda uma motivação industrial, pois a Austrália é grande produtora de lítio e atualmente envia 90% das exportações de concentrado desse material para a China.
Mike Costello, analista da Cox Automotive Australia & New Zealand, considera que confiança permanece como uma das maiores vantagens competitivas acumuladas por fabricantes tradicionais como a Toyota.
Décadas de presença significam mais concessionárias, disponibilidade de peças, valor de revenda conhecido e experiência consolidada, pontos que as marcas chinesas ainda precisam reproduzir.
Para Costello, o próximo teste dessas fabricantes será provar que conseguem oferecer aos compradores australianos um nível de atendimento comparável ao das rivais estabelecidas.
