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Nem todo carro é de aço

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O material mais utilizado no carro nosso de cada dia sem dúvida ainda é o aço. E assim o é no mundo todo. Nós brasileiros sabemos que a fibra-de-vidro também é utilizada em buggies, picapes transformadas e esportivos há bastante tempo. Desde os Puma e Gurgel dos anos 1960. Mas não é só de fibra e aço que se faz carros, como veremos.



Alumínio

Ainda em 1936 a Bugatti utilizou alumínio e madeira em seu Type 57 SC Atlantic Coupé produzido na França. Em 1948 a Land Rover também utilizou o mesmo metal em seu Defender, com intuito não apenas de torná-lo mais leve, mas também resistenta à corrosão.

Em 1990 a Honda apresentou seu NSX todo em alumínio (carroceria, motor e chassis) o que possibilitou que o modelo ficasse 200 Kg mais leve do que se fosse feito com ferro fundido e aço. A Audi, por sua vez também adotou o alumínio no seu sedã top de linha A8 em 1994, evidenciando isso em sua publicidade.

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A partir daí BMW, Mercedes e Porsche também começaram a fazer uso de aluminio em algumas peças do carro, como capô, teto e tampa do porta-malas. Motores de alumínio em combinação com outras ligas como Tungstênio, molibdênio e magnésio também foram largamente utilizados na década de 90 pela Honda e pelas marcas alemãs.

Plástico

A indústria aeroespacial, principalmente nos anos 60, trouxe muitos materiais novos como velcro, nylon e plástico para a indústria de bens de consumo (roupas, brinquedos e sapatos) e bens duráveis (eletrodomésticos, máquinas e automóveis).

Nos carros, o plástico foi substituindo o metal na parte interna (painel, molduras e puxadores de porta, painéis laterais traseiros, manivelas, cinzeiros, saídas de ar e outros acabamentos). Posteriormente foi para a parte externa (polainas dos parachoques e em seguida a peça toda, grades e acabamentos diversos).

No fim dos anos 1990, com o lançamento da minivan Renault Scénic, nós brasileiros começamos a ver o polímero em outras partes, mais precisamente nos paralamas dianteiros. Trata-se de um plástico de alta tecnologia, denominado Noryl, que além de polímeros contém resina de alta resistência e fibra de vidro na composição.

É feito pela empresa SABIX Innovative Plastics, mas foi desenvolvido pela GE ainda em 1964. No entanto ainda era caro e difícil de produzir. O Corvette também utiliza o material em sua carroceria. Na mesma época da Scénic, surge o polêmico e controvertido EMME Lotus, sedan grande e com pretensões esportivas todo feito em plástico injetado, montado em Pindamonhangaba-SP.

Tinha um design que parecia antecipar linhas dos futuros Volvo S80 e dos BMW Série 7 de Chris Bangle com a tampa do porta-malas em evidência. Os motores eram turbo 2.0 e 2.2 com quatro cilindros e transmissão mecânica de 5 marchas. Poucas unidades foram fabricadas e vendidas. Algumas poucas estão na mão de colecionadores.

Acho curioso que o uso do plástico não tenha passado de limitadas experiências no que se refere à carroceria, pois no interior e até nos motores sua utilização é cada vez maior. Temos hoje em dia coletores de admissão de plástico nos básicos Ka e Fiesta Rocam por exemplo – tecnologia que se mostrou mais rígida e rendeu 15 cavalos de potência a mais, juntamente com o uso do comando roletado.

Madeira

Conforme mencionamos acima, a Bugatti fez uso de madeira em seu Type 57 nos anos 30. E quem não se lembra dos “woodies”, modelos norteamericanos, principalmente furgões e peruas, dos anos 40 e 50 com a lateral toda em madeira de lei envernizada? Acha bonito? Muitos gostam e continuam embelezando carros mais contemporâneos, como o Chrysler PT Cruiser com o material.

Mas o que poucos sabem é que além de criatividade, a solução surgiu da necessidade, uma vez que logo após a Segunda Guerra, finda em 1945, a produção de aço, utilizado em larga escala para armamentos, jipes e tanques de guerra ainda não estava normalizada, chegando a faltar.

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A solução foi usar madeira, cuja produção estava a todo vapor devido à construção civil em alta nos EUA, que recebiam seus soldados de volta e que se preparavam para um novo salto industrial. Está presente nos carros de Fórmula 1, de todas as equipes. Não reparou? Nem seria possivel, pois está na parte de baixo, mais precisamente no assoalho. Foi escolhida por não despedaçar ou causar faíscas ao raspar no asfalto a altas velocidades.

Em 2008 foi apresentado um protótipo americano de superesportivo chamado Splinter. O supercarro é projetado para ter além da carroceria, chassis, partes da suspensão e rodas de madeira. O motor é um V8, turbo, com 600 cavalos. O peso total ficou em 1134 kilos.

Fibra de Vidro

Velha conhecida dos brasileiros, está presente nos “buggies” de marcas como Baja, BRM e Glaspac. E nos anos 80 e 90 estampou a carroceria de muitas picapes transformadas de marcas como Brasinca, Souza Ramos, Engerauto, Envemo, Tropical e Sulam. A fibra fez também a cabeça de milhares de jovens que sonhavam com esportivos como Puma, Santa Matilde, Bianco, Miura e MP.

Lobini e Chamonix ainda utilizam o material em seus carros. Bem como caminhões extrapesados como Scania e Volvo. O carro mais quente do Brasil, o Fiat Tipo tinha a tampa do porta-malas feita em fibra. Repare que algumas, com o tempo, adquiriram coloração mais desbotada que o restante do carro e, curiosamente, ao invés de amassar, quebram.

Fora do Brasil também foi imortalizada nos Corvette desde 1953, o pioneiro no uso do material em um modelo de produção em série. Até hoje o “Vette” funciona como um laboratório da GM sendo também o primeiro carro desta marca a utilizar Plástico Noryl e fibra de carbono na carroceria e alumínio no chassis.

Barcos e aviões também podem utilizar fibra. O Novo Airbus A360 utiliza em sua fuselagem um material chamado Glare, que é alumínio com fibra de vidro, o que demonstra mais uma vez a versatilidade da fibra, que pode ser usada em conjunto com outros materiais, como plástico e alumínio.

Materiais alternativos e ecológicos

Quem diria heim: casca de coco, fibra de casca de banana, casca de laranja, bagaço de cana e bambu como partes integrantes de um automóvel moderno! Dentro e fora do carro. As cascas de coco e fibras de casca de banana são utilizadas como enchimento de bancos substituindo espuma derivada de petróleo.

E o bagaço de cana tem dado origem a fibras resistentes que estão sendo testadas para substituir polímeros plásticos e que possam ser utilizados na confecção do painel de instrumento, de molduras plásticas e dos parachoques. A Fiat apresentou algumas destas soluções numa versão do Novo Uno Way denominada Ecology no último Salão do Automóvel; combinadas com soluções mecânicas como Start&Stop no motor e células solares no teto para recarregar a bateria do carro.

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Do bambu se faz uma pasta resistente e leve que está sendo testada para partes da carroceria. Como no protótipo Epoch, um pequeno carro de corrida. Até um papel cartão resinado foi testado pelos suecos e dinamarqueses ainda nos anos 1970 com intuito de compor a parte externa de um automóvel.

E o grande vilão da história, o pneu? Aqui entra a casca de laranja, de onde é extraído um óleo que entra na composição deste item. A durabilidade não foi afetada e o consumo de combustível foi otimizado.

Fibra de Carbono

Material leve, rígido, resistente, com baixa deformação e satisfatória condutividade térmica, a fibra de carbono é uma das melhores opções para fabricação de peças resistentes e ao mesmo tempo leves, já que seu peso é 1/5 do peso do aço.

Sua estréia foi em carros de corrida. No entanto já está em carros de rua há alguns anos. O Corvette ZR1 tem várias de suas peças de carroceria feitas com este material. E vem aí o Lamborghini ‘Sesto Elemento’, com carroceria e chassis feitos de fibra de carbono.

Para os próximos anos, a idéia é, senão popularizar, tornar o material em questão mais acessível aos fabricantes de carros de entrada. Já há algum tempo Ford, GM, Mercedes, Chrysler e Toyota em conjunto com um laboratório chamado Oak Ridge National Laboratory, vêm estudando como diminuir o custo do material, de modo que, de início um carro médio como um Corolla ou Cruze possa ter pelo menos 140 Kg de peças fabricadas com fibra de carbono.

Em tempos de preocupação com ecologia, consumo de combustível e emissão de gases, o material viria a calhar perfeitamente, uma vez que é reciclável, poderia diminuir o peso total de um carro em 60%, tornando-o mais econômico e leve e possibilitaria a redução da emissão de gases em 20%.

Bem recentemente, em 2011, a empresa japonesa Teijin deu um passo importante no sentido de viabilizar a produção em massa de carros com carroceria feita 100% em fibra de carbono. Conseguiu produzir protótipos de carrocerias de carros em menos de um minuto. A nova tecnologia abre ainda a possibilidade de fabricação de inúmeros outros produtos, como monoblocos dos carros, cabines de caminhões e cascos de barcos.

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Os engenheiros da Teijin conseguiram fazer com que as peças tenham resistência unidirecional ou multidirecional, ou seja, é possível escolher em que direções a peça deve ser mais forte. Para isso, alguns materiais intermediários usados para produzir ligas com características diversas foram utilizados.

E para unir as partes, foi desenvolvido um processo especial de soldagem que permite unir peças de fibra de carbono entre si e até com aço. Paralelamente, os alemães desenvolvem uma outra tecnologia com igual potencial para baratear o processo de produção de peças em fibras de carbono.

A General Motors foi a montadora que demonstrou maior interesse, assinando com a Teijin um acordo para o desenvolvimento de uma fibra de carbono avançada que será utilizada em larga escala nos seus automóveis, picapes e crossovers. Para acelerar o projeto, a companhia japonesa já inicia a instalação de um centro técnico nos Estados Unidos para ficar mais próxima da montadora.

E você, caro leitor, imaginava que carros feitos de outros materiais que não o aço estivessem tão perto de chegar? Acredita que isto aconteça em quanto tempo? Que materiais achou mais interessantes? Tenham um dia bem leve! Abraço!

Por Gerson Brusco Gonzalez

  • X11auto

    Emme Lotus, esse eu não conhecia, procurei o nome no Google e achei um site interessante que fala do carro e até vídeo dele andando em nas ruas de Monaco!

  • PauloPGomes

    Como o futuro tende a puxar pra um lado mais eficiente/ecologico, a Fibra de Carbono tem tudo pra ser a matéria prima escolhida. Tomara que seus custos se tornem menores, seria interessante carros mais leves, pois ultimamente devido a tecnologias agregadas e reforços estruturais, os carros vêm se tornando cada vez mais pesados, como é o caso do Cruze, o 408, o própio 500 que apesar do tamanho pesa quase 1100 kg, por exemplo.

    • andre_0102

      A também uma tendencia a baratear a produção ao máximo, empregando materiais nem tão nobres, é a concorrência cobrando seu preço.

  • BlueGopher

    Lembrando ainda, o Morgan inglês ainda usa um chassis de madeira.
    Belíssimo chassis, por sinal.

    <img src="http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/0/06/MorganWoodDoorFrame.jpg/640px-MorganWoodDoorFrame.jpg"&gt;

  • O_Corsario

    Muito legal o texto.
    Só um detalhe, se não me engano o Gurgel não usava apenas fibra de vidro mas sim um esqueleto de aço recoberto pelas mesmas, que ele batizou apropriadamente de "plasteel". Era este sistema que dava maior resistência inclusive naquele burlesco teste em que ele batia no carro com um porrete para provar a resistência.

    • BlueGopher

      Realmente o sistema plasteel do Gurgel é extremamente resistente, conheço X-12 e Tocantins com anos de trilhas e que estão inteiros. Foi um projeto muito interessante.
      E o sistema Seletraction também foi uma boa sacada.
      Conheci pessoalmente o Gurgel, era uma delícia conversar com uma pessoa inteligente e criativa como ele.
      Gosto muito destes carros e também do Carajás, já me diverti muito com eles.

  • RafaelPimenta

    motor de 600 cv v8 numa carroceria v8 n iria ter cheiro de queimado n?

  • Dragoniten

    "De modo que, de início um carro médio como um Corolla ou Cruze possa ter pelo menos 140 Kg de peças fabricadas com fibra de carbono"

    Seria bem interessante. Considerando que seriam 140kg de fibra de carbono substituindo 700kg de aço, teríamos menos 560kg no carro.

    Cruze: 1404kg, se fossem substituídos os materiais, teríamos um Cruze com 844kg?
    Corolla: 1130kg, substituindo, 570kg?

    Comacin/

    • Avantimes

      Provavelmente as peças de fibra de carbono iriam substituir capô, tampa de porta-malas e outras partes em que a proporção aço / fibra de carbono fosse menos de 1/5, pois as chapas de aço não tem a mesma proporção no carro todo. De 200 a 300 Kg a menos já seria fenomenal, rs

      • Dragoniten

        Na verdade a proporção é a mesma, pois independente do formato das partes, o material é o mesmo.
        Fenomenal mesmo, agora imagine se a versão SR do March pois exemplo tivesse algumas partes em fibra…
        Aquele 1.6 num carro com 700~750kg, hahahaha.

  • GuilhermeD.

    Muito legal o texto, aprendi e relembrei várias coisas!!

    Faltou citar o Troller que é todo de fibra e também faltou falar que algumas peças de carros utilizam fibra de cânhamo!
    Se não estiver enganado, o espelho retrovisor do 207 utiliza essa fibra em sua composição.

  • zemarreta

    Senti falta de menção ao DeLorean, que me lembrava ser todo de alumínio, e que foi um marco pra quem era garoto nos anos 80. Como gosto de me certificar antes de postar, fui na Wikipedia em inglês, e pra minha surpresa descobri que ele não era de alumínio, mas sim de aço inox!! E mais, que o chassis era de fiberglass!!!

  • Doidim2011

    Faltou o carro em tecido da BMW (protótipo)

  • BCA_83

    Faltou falar dos carros de Adamantium: Corolla, Hilux e Civic!

  • Os novos T25 e T27 da Gordon Murray Design também serão em fibra de carbono, como os i8 e i5 da BMW, que tá desenvolvendo bastante esse material, como a Lexus no LFA, esse é um futuro bem próximo. Se até os Airbus já estão se adequando a nova tecnologia…
    Essa de soldar fibra de carbono é nova! Só imaginava ela sendo colada, acho que o 'soldar' desse caso é modo de falar, afinal não é uma liga metálica.

  • AutoIng

    Aí eu pergunto: num país (Brasil) em que o povo ainda torce o nariz até pra um mero coletor de admissão de plástico (como se fosse pior!), o que achariam de um carro de plástico? Pois é, e pensar que a Mercedes produz um carro assim (Smart). O mais difícil não é mudar o material não, é superar a ignorância e o preconceito dos consumidores. E segredo: sei de várias iniciativas de trocas de material que não foram foram concretizadas porque as pesquisas indicaram que o consumidor não iria gostar da troca do aço por outra coisa. Brasil-sil-sil!

  • andrelrm

    Madeira…. muito lustra móveis e remédio pra cupins rs

  • nepwk

    A bmw está fazendo experiencias com magnésio para ter um carro super leve, esperemos para ver onde isso vai dar.

  • Márcio F. de Almeida

    Acho que o Brasil devia pesquisar mais sobre o CANHAMO, devido ele ter muitas propriedades, e pode ser feito fuselagem, o painel, revestimento das portas em fim, muita coisa, o canhamo esta sendo estudado e fazendo teste na escuderia da LOTUS F1, para a fuselagem do carro, O canhamo pode ser feito fibra como a de carbono, plastico, pranchas de madeira como MDF com cinco vezes mais dura e impermeável, faz combustível para carro, bolsa, chinelo, papel que dura 300 anos, remédio que auxilia no tratamento de câncer, e para outras doenças, o CANHAMO é uma planta que tem muita riqueza que pode trazer grandes benefícios para a humanidade; A planta é prima da famosa maconha, mas com baixo teor de THC, com 4%, desculpa se não for essa sigla, quero dizer o que causa o barato na turma que fuma, A Planta maconha parece que tem até 30% desta substancia, Por isso sou contra a liberação da maconha, imagine a planta como a Canhamo faz até Plastico.

  • Márcio

    Sou a favor da liberação do CANHAMO, para que o Brasil, tenha como alternativas e incentivo do governo para que os brasileiros se é que tem algum que tem coragem de investir nesta área e depois não tomar ferro com os impostos para começar a industrializar e abastecer o mercado automotivo, naval, textil, e o grande triunfo o papel. Nos temos grandes engenheiros, mas o que falta neste país é vontade por parte do governo de investir no que pode ser nosso, os miseros setenta ou oitenta anos que vivemos e os politicos miseraveis, pensa que é desta forma que pode representar uma nação, filhos da Patria vcs sabem como é ser brasileiros? Quero uma politica forte, com bases forte, e corrupção ZERO. Tenho vontade de ser Brasileiro………….

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