Esportivos Lotus

No Canadá, com um Lotus Elise

Relato aqui uma das coisas mais legais que podemos fazer nessa vida: dirigir um bom carro. Estive no Canadá em 2008 para o casamento de um amigo. Como ele é muito porschista, procurei uma locadora de carros para ver um 911 para o fim-de-semana. Achamos uma empresa que tinha, mas não estava disponível…

– O que mais você tem?
– Temos um Lotus Elise, um …
– Ok, quero a Lotus.

Fui com o irmão do noivo pegar o carro. Era uma loja bem pequena, em um setor meio industrial. Tinha uma pequena sala de espera com um sofá e algumas revistas (de carros, claro), uma porta pros fundos e outra entrada que ia para o escritório. Tudo bem simples, a única coisa que destacava era o computador vermelho da Ferrari na mesa.

O cara, Larry Reid, foi muito atencioso, deu quilometragem livre de brinde e na hora de passar o cartão para deixar o bloqueio-caução de 4.000 dólares, não foi aceito. Já estava ligando para o Tamburete do Brasil para “reclamar” (na verdade, para pedir para aumentar o limite) quando o Larry disse – Pronto, tudo ok. Eu fiquei sem saber o que era, depois ele falou – Passei 3.000 só. O camarada tinha tudo para mandar a gente embora: turista, pedindo desconto, cartão com limite baixo. Mas não, manteve a simpatia e fez tudo para fecharmos o aluguel.

A porta dos fundos dava para um galpão alto, paredes brancas, piso de cimento queimado, bem iluminado, poucos quadros temáticos na parede, alguns armários móveis de metal, daqueles de paddock de Fórmula-1, cheio de gavetas com ferramentas. Nada muito sofisticado, mas muito bem organizado e limpo. Ali ficavam os carros.

No dia tinha um Hummer H2 acidentado (ai..), uma M3 conversível e ela… a Lotus… no meio do ambiente, em destaque… cinza chumbo, linda e ainda pouco molhada do banho pré-entrega. O tamanho ao vivo é impressionante, muito muito pequeno!!!

Depois das devidas vistorias e explicações gerais, Larry-boy nos parabenizou pela escolha, desejou bom divertimento e lá fomos nós, pisando com calma no acelerador da Elise. Cabe ressaltar que minha experiência com carros alugados se resumia a um Celta ou um Palio, vez ou outra em São Paulo. Então dá pra ter uma ideia do cag*** que eu estava. Tinha seguro, mas não queria ser eu a utilizá-lo (deixa pro camarada do Hummer passar pela dor-de-cabeça). Por isso fui pianinho até a casa do meu amigo.

Agora, o carro… meus amigos, que carro… o barulho é grave e encorpado, mesmo para um motor pequeno. Parece um V-oitinho… a sensação não é de um veiculo normal ou um carro pequeno, o que parece é que você está em um kart grande! Olhando o banco concha, você jura que é desconfortável, mas o desenho dele compensa e encaixa de um jeito que fica até confortável (quando andar em um Bentley posso revisar esse último comentário).

A partida é por um botão no painel. Entrar e sair do veículo é um parágrafo a parte:

O carro é baixo, mas o que pega é o obstáculo no caminho: o tal do “batente”. Não cheguei a medir, mas a parada tem pelo menos 20 centímetros de largura. Entrar exige tentativa e erro até formular a melhor técnica de abordagem entrística. Primeiro você coloca o pé direito no assoalho, depois segura a coluna A com a mão esquerda e o assento com a direita, aí, abaixa a cabeça e entra no habitáculo, então, com uma mistura de contorcionismo e parkour você senta suavemente no banco, aí é só entrar a perna esquerda dentro do carro e pronto, você entrou em uma Lotus Elise!

Parece complicado, mas depois da décima vez você começa a pegar o jeito. Mas cuidado! Sair demanda outra técnica completamente diferente. Se for aplicar a mesma da entrada, sua dignidade pode ir por água abaixo. Apenas imagine a cena reversa…

Tais “desconfortos” tem um ótimo remédio: O teto de tecido removível! Ele é muito fácil de tirar e colocar, bem Lego mesmo. Aperta um botão, desprendeu, enrola até o meio, mesma coisa do outro lado, juntou, guardou no porta-mala (sim, tem um atrás). O livre acesso faz a entrada e saída muuuuito mais fácil, dá até pra ensaiar algumas entradas cinematográficas, como ir com os dois pés ao mesmo tempo!!

Cabelos ao vento, fomos visitar uma cidade próxima. O resto do pessoal foi em um Chevrolet Malibu alugado (observação-crítica-polêmica: isso foi em 2008 e só agora ele é pouco vendido aqui no Brasil, brincadeira einh GM?). A estrada é excelente, tapete mesmo, a suspensão dura se sentiu em casa e não mostrou desvantagens.

A Elise é tão pequena que quando chegava muito perto da traseira no Malibu, meu amigo não conseguia me ver pelos retrovisores. O carrinho não foi feito para altas velocidades, muita vibração e giro alto a 130 km/h. Depois de um tempo criticando os ingleses, não aceitando tal falha de projeto, fui apresentado a uma nova conhecida, que me jogou de volta ao mundo dos leigos: a sexta marcha.

A Lotus chamou muita atenção das pessoas no trânsito, e não do tipo olha-que-cara-desagradável-andando-com-um-carro-idiota-e-gastador-queria-que-você-batesse-e-morresse-agora, reservada principalmente a Ferraris e Hiluxes, mas uma atenção boa, das que você recebe quando dirige um Karmann Ghia ou qualquer outro carro antigo: gente apontando, rindo, sinalizando positivo.

Depois de uma parada turística, voltando para o carro, tinha um pequeno aglomerado de motoqueiros harleyanos em torno do carro. Já logo pensei – pronto, fudeu… – mas pelo contrário, foram muito gentis, perguntaram o que era, qual motor, potência, etc etc. E muita gente junta mais gente, logo todo mundo que passava no local queria conhecer a “novidade”.

Veio um menino todo alegre, olhando de perto, ofereci para ele entrar no carro e o pai ficou tirando fotos, agradecendo muito. O moleque ficou muito feliz, essas coisas de infância que fazem um futuro apaixonado por carros. Não tive muitas estradas secundárias para brincar, mas nas poucas curvas mais inspiradoras na cidade me diverti muito.

Nas saídas de curva o carro não perde a traseira muito fácil, prefere grudar e acelerar mais. O interior é muito bonito e agradável. O que a gente lê sobre ser uma cabine espartana é 110% verdade. O meu veio equipado com o pacote ultra-luxo: vidros-elétricos e ar-condicionado! Os fanáticos por som não iam gostar muito, não tinha nem 4 falantes e acima de 100 km/h não se escuta nada, mas acredito que o propósito do carro não é esse, muitas vezes nem mesmo liguei o rádio.

Em uma das comemorações antes do casamento, não deu outra: a Elisinha virou centro das atenções. Até o manual de instruções foi lido em voz alta! É um bom carro para sair à noite, trabalha em baixas rotações com marcha alta numa boa. Dica: seja cavalheiro para abrir a porta para sua companheira, principalmente se ela estiver de vestido ou saia, a probabilidade de espiar algo interessante é sempre alta!

Ao final de dois dias, com muita tristeza, tive que devolver o exótico. Em pleno domingo, Larry chega num Corvette prata conversível, abre o galpão, guardamos o carro e nos despedimos. Levar e trazer Lotus, F430, M3, Corvette, Hummer, 911, pra lá e pra cá… que vidinha mais ou menos desse cara…

Por Hugo Garcia





  • Ê experiência boa essa! Parabens e obrigado por compartilhar!

    Mas… quanto saí uma brincadeira dessa?

  • Die_BL

    sauhuhsau, que bela história, deu inveja..asuhhsusa. mas legal, parabéms você é um sortudo.

    • Fanboy_da_KIA

      LOTUS <3

  • Diguinh0

    Show de bola!! Parabens pela experiencia!! Um dia eu tbm vou ter uma experiencia assim!!

  • Antonio De Julio

    Muito bom o seu relato! Parabéns!

  • Ivan Bonin

    feio que doi!

  • Valter000

    Legal… mas quando for minha vez, provavelmente eu tentarei pegar um Lambo…

  • sulamy

    Muito legal seu post parabéns!!

  • rafrabitz

    carros como o Lotus Elise, supreendem muitos. é pequeno, leve… por isso, não precisa de um motor gigantesco e beberrão (não que eu não goste de motores grandes,… mas nesse caso, um motor pequeno serve muito bem).

  • Fungo

    Legal, so nao sabia que ele nao era bom em altas velocidades.

    • mtwilight

      Na verdade, pelo texto me parece que o cara não estava nem sabendo que o carro tinha a sexta marcha….

      Ah, esses brasileiros sempre me impressionando…rs

      • Fungo

        Então, também tive essa impressão, mas ele nao cita no texto ter passado dos 130km/h e mais ao final, se voce reparar ele fala novamente que o carro é um bom veículo para se andar nua boa. "É um bom carro para sair à noite, trabalha em baixas rotações com marcha alta numa boa."

    • erickterto

      pelo que entendi, quando coloca a sexta ele anda muito bem.

  • erickterto

    ¨Levar e trazer Lotus, F430, M3, Corvette, Hummer, 911, pra lá e pra cá… que vidinha mais ou menos desse cara…¨.
    isso explica porque ele atende tão bem as pessoas, como viver com cara fechada tendo um trabalho desse.

  • dncmotors

    Boa experiência. Aqui no Brasil poderia ter uma locadora dedicada a essa fatia de mercado, mas já podem ir imaginando os valores…Celta básico…159…diária.

  • brenosasouza

    Se eu fiquei feliz com um Chrysler Grand Voyager 2010 na Europa, com aquela central de multimida muito louca, e aquela super chave que comanda todo o carro, imagina com um Lotus, Ferrari, ou qualquer outro assim? Hehehe…
    Otima experiencia, ein? Ainda vou pros EUA ou Canada alugar 1 carrão e fazer Coast to Coast! É o meu sonho…

  • nickbresil

    Eu adoro esse carrinho , lotus,! bem que devia vir pro brasil e do tamnho de um gol aproxmadamente , e mil vezes melhor e um ingles definitido

  • KzR

    Confesso que estava com saudades destas matérias aqui no NA.
    Essa Lotus é muito bacana. É o típico carro pra se divertir em curvas, já que em velocidades mais altas e encarando concorrentes mais potentes e velozes, você começa a achar as reações do carro um pouco lerdas. Mas é um autêntico carro esporte, de sangue puro!

    E o Hugo Garcia tem razão: a excessão da atual Amarok e Frontier, e do antigo raro Siena 1.0, não me lembro de nenhum outro representante "nacional" a adotar a 6a marcha (O Bravo eu rezo pra que venha com, mas a possibilidade é remota).

    NA pode continuar postando estas aventuras.

  • Paulo_Ricardo

    muito bom cara, adorei isso!!!

    e realmente os canadenses são muito mais simpáticos q os americanos (tá aí pq eles não se gostam muito). tenho um colega q mora lá a 4 anos e sempre fala bem do povo de lá. ele mora em yellow knife

  • É um carro bom para se aproveitar.
    Mas será bom para o dia-a-dia…
    Acho que não
    Valeu por relatar a experiência



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