
Pequim tenta impedir que a disputa agressiva por preços vista entre fabricantes chinesas atravesse fronteiras e passe a definir também a expansão internacional do setor automotivo.
O governo chinês divulgou na terça-feira novas orientações para empresas do país que atuam no exterior, com atenção especial à maneira como os preços são definidos.
Chamado de Diretrizes sobre Concorrência no Exterior e Construção de Conformidade, o documento reúne quatro capítulos e funciona como referência para fabricantes chinesas fora do mercado doméstico.
As orientações foram publicadas pelo Ministério do Comércio em conjunto com outros dois órgãos governamentais, segundo um porta-voz da própria pasta responsável pela iniciativa.
Entre as principais recomendações está a definição de preços baseada nos custos e orientada pela relação entre oferta e demanda existente nos diferentes mercados internacionais.
O texto também pede que as empresas evitem práticas capazes de distorcer a concorrência com o objetivo de conquistar vantagens consideradas injustas diante de outros participantes.
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A preocupação surge porque a forte disputa comercial chinesa, conhecida localmente como “involução”, começa a aparecer também no exterior conforme as fabricantes ampliam suas exportações.
O Nikkei Asia apontou recentemente que essa dinâmica está sendo levada a outros mercados enquanto as montadoras procuram compensar a demanda mais fraca dentro da China.
A BYD exemplifica essa mudança, pois sua receita internacional cresceu 34% no primeiro semestre e ultrapassou o faturamento doméstico, que recuou 31% no mesmo período.
Na terça-feira, a fabricante informou ter exportado 189.466 veículos de nova energia em agosto, volume superior ao dobro daquele registrado um ano antes.
A Geely Automobile Holdings também acelerou fortemente os embarques internacionais, com 110.094 veículos exportados em agosto, número três vezes maior que o do mesmo mês anterior.
Essas exportações responderam por 41% das vendas totais da Geely no período, mostrando como o mercado externo ganha participação dentro dos resultados das grandes fabricantes chinesas.
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O avanço dos EVs chineses evidencia a velocidade de desenvolvimento alcançada pelo setor, mas também aumenta receios de governos estrangeiros sobre empregos e capacidade industrial local.
Esse cenário ocorre ainda sob ameaças de novas tarifas dos Estados Unidos e da Europa, reforçando a preocupação de Pequim com eventuais disputas de preços fora da China.
As diretrizes também determinam que campanhas promocionais respeitem as regras de cada mercado e evitem publicidade falsa ou informações capazes de enganar ou induzir consumidores.
Outro objetivo declarado é preservar a imagem das marcas automotivas chinesas, especialmente em mercados onde sua presença cresce rapidamente e ainda passa por consolidação.
Um dos quatro capítulos trata especificamente da adaptação local, recomendando que empresas não exportem produtos inadequados às necessidades ou às condições de utilização de cada destino.
Nas operações locais, as fabricantes também devem contratar funcionários seguindo princípios de igualdade de oportunidades e tratamento justo, segundo as novas orientações oficiais.
Analistas do setor observam, porém, que o forte apoio governamental chinês ajuda fabricantes ainda sem lucro a ampliar capacidade produtiva e direcionar volumes crescentes para outros países.
Até dentro da China, medidas administrativas para reduzir a competição excessiva tiveram efeito limitado, apesar da campanha oficial criada para conter a chamada “involução”.
Dados da Wind Information indicam que a rentabilidade da maioria das fabricantes chinesas listadas em bolsa piorou no primeiro semestre, mesmo diante dessas tentativas de reorganização.
A nova orientação mostra que Pequim agora tenta evitar que a mesma pressão por preços se reproduza internacionalmente justamente quando exportações ganham importância crescente para o setor.
