Por que carros no Brasil são tão caros? (É só impostos?)

O Brasil é um dos maiores mercados consumidores de automóveis do mundo, mas já foi o quarto. Atualmente, ficamos atrás de vários países, incluindo os gigantes China e Estados Unidos.

Isso se deve à crise financeira que o país vem passando, além da pandemia, pois um dos setores que mais sofreu com a recessão foi a indústria automobilística (algo que já vem ocorrendo desde 2015). Ainda há expectativa de voltar a crescer nos próximos anos, mas alguns estão pessimistas quanto a isso.


Segundo a Fenabrave (Federação Nacional Distribuição Veículos Automotores), o Brasil registrou pouco mais de 1,4 milhão de veículos vendidos de janeiro a novembro de 2021, o que significa uma queda de 1,34% sobre o mesmo período de 2020.

Sabemos que ter um carro no Brasil não é nada barato, inclusive sua manutenção exige muito dinheiro. É por isso que o comportamento de algumas pessoas que precisam de um veículo à disposição está mudando.

Quando publicamos aqui no Notícias Automotivas uma matéria mostrando os carros mais baratos do Brasil, geramos uma reflexão sobre dizer que existe carro popular no Brasil. Na verdade, isso é uma grande contradição porque os populares não são baratos.

Já existem muitos casos em que as pessoas estão alugando ou vendendo o carro para utilizar aqueles por transportes por aplicativo, como Uber, 99 e Cabify. Claro, para fazer essa mudança é preciso realizar um planejamento de gastos e ver qual compensa mais, o que varia de acordo com as necessidades da pessoa.

Afinal, por que é tão caro ter um automóvel no Brasil?

Por que em outros países, inclusive da América do Sul, o carro é bem mais barato do que por aqui? Todo mundo se pergunta e os motivos também são muitos. Se você acha que é apenas impostos, como muito se dizia, está muito enganado (embora eles também sejam uma pedra no sapato).

Primeiro, devemos levar em conta que, mesmo antes da crise, o Brasil era um dos maiores mercados do mundo e ainda tinha valores absurdos sendo cobrados por seus veículos. O brasileiro acha comum pagar caro em um automóvel e isso virou até uma “cultura”, algo que já é comum.

Muitos acham normal desembolsar R$ 60 mil em um carro “popular”, mas engana-se, pois esse é o preço de uma Mercedes-Benz semi-nova nos Estados Unidos, por exemplo.

Resultado de imagem para venda de carros notícias automotivas

Um dos principais motivos pelos quais os carros são caros no Brasil é que as montadoras estão sempre aumentando suas margens de lucro, isso elas não admitem abertamente, mas estabelecem os preços que os consumidores devem pagar, e o povo paga.

Isso explica a diferença de preço no Brasil e no México. Para você ter ideia, os modelos que são produzidos aqui e que também são vendidos no mercado brasileiro, são exportados para o território mexicano e argentino e por lá comercializados pela metade do preço.

Isso ocorre devido aos impostos brasileiros, claro, mas também porque aqui se lucra muito mais na produção de um carro. Por conta do valor absurdo, ter um carro no Brasil virou um símbolo de status. Elas cobram caro porque o consumidor brasileiro aceita e já está acostumado a pagar.

Uma Ferrari que custa mais de R$ 1 milhão aqui, chega a valer R$ 400 a 500 mil reais nos Estados Unidos. Para definir esse valor precisamos entender dois momentos: o primeiro é a importação, para uma montadora trazer um carro para o Brasil é necessário desembolsar muito dinheiro.

O imposto cobrado por importação aqui é absurdamente alto (importação x exportação), enquanto lá fora a situação é completamente oposta. Isso explica a diferença na quantidade de veículos superesportivos (Ferrari, Lamborghini, Maserati…), que vem para o mercado brasileiro.

As montadoras precisam pagar taxas altas para trazer os veículos e, chegando no Brasil, é necessário que haja vendas, senão é prejuízo.

Outra etapa podemos chamar de “corredor dos impostos”. Após entrar no Brasil, começa aquela chuva de taxas que todo mundo conhece ou já ouviu falar: IPI, ICMS, PIS/COFINS e até para o INSS. Sim, muitas pessoas não sabem, mas uma porcentagem do COFINS é destinada para o INSS.

Não podemos esquecer do IPVA, Licenciamento e DPVAT. Além de tudo isso que apresentamos aqui, tem aquela margem dedicada à montadora, pois ela também leva muito nesse jogo.

Já os produzidos aqui também não fogem muito dos valores de um importado. O custo de produção também é elevado, começando pelos funcionários (o valor da mão de obra é bem alta) e passando pelas burocracias que estão presentes em todos os setores. Isso sem citar as questões jurídicas.

Por mais que o governo incentive a fabricação por aqui e ofereça benefícios como redução tributária, ainda pesa muito para elas produzirem aqui. Não é à toa que muitas acabam abandonando o mercado brasileiro, como fizeram Mazda, Geely Motors, Mahindra, Brilliance, Haima, Daewoo, Daihatsu e Asia Motors.

As vendas baixas, a instabilidade da economia brasileira e a alta do dólar foram essenciais para que elas desistissem de vender.

Resultado de imagem para frota de carros notícias automotivas

Para as novatas, principalmente as chinesas, é mais difícil conseguir uma margem de lucro. Para elas, o mercado acaba sendo muito fechado porque montadoras que já estão há anos no Brasil, como Fiat, General Motors, Volkswagen e Ford, já ganharam a confiança e por isso vendem mais, enquanto as outras ficam lá atrás.

Salvo a sul-coreana Hyundai, que chegou aqui com bons carros e hoje conquistou o seu espaço, sendo uma das montadoras que mais vende carros no país.

Se dividirmos as porcentagens de impostos na hora da venda de um veículo, ficaria cerca de 12% de tributo para o Governo Estadual e 30% para o Governo Federal. Os outros 58% restantes seria porcentagem sem os impostos. Com tudo isso, o Brasil se torna um dos países que têm os carros mais caros do mundo.

A venda de veículos pode voltar a crescer nos próximos anos, como ocorreu em 2017 depois de quatro anos seguidos de queda. Mesmo assim, o setor ainda enfrenta um longo caminho para voltar a crescer de forma constante.

O último pico de vendas ocorreu em 2012 com mais de 3 milhões de veículos emplacados. Mas a grande queda ocorreu em 2015 (2.569.014) e 2016 (2.050.327). As concessionárias também foram afetadas, pois mais de 1.800 foram fechadas entre os anos de 2014 e 2017.

Autor: Darlan Helder

Natural de São Paulo, é jornalista e fotógrafo. Escreve na internet sobre o universo automotivo desde 2011