Usado da semana

Quanto custa manter $$$ um popular: 80.000 km em um Renault Clio

Quanto custa manter $$$ um popular: 80.000 km em um Renault Clio

O alto custo que envolve a aquisição e manutenção de um carro não é nenhuma novidade. Mas o que acontece é que a grande maioria deixa em segundo plano ou simplesmente ignora o fato de que um veículo pesa bastante no orçamento.


Aqui você acompanha a jornada de 80.200 km em um Renault Clio Campus 2009, o qual teve cada quilometro e cada centavo anotado. Vai descobrir que, mesmo na melhor das hipóteses, manter um carrinho sai caro.

No início de 2009, então aos 19 anos, tive as distâncias entre faculdade, casa e trabalho separados por quase 200 km. Diante disso, não me restou muita escolha senão cair na estrada, com previsão de rodar mais de 30 mil quilômetros logo no primeiro ano. O orçamento limitado e a falta de tempo fizeram com que eu visse num popular 0 km a melhor opção para fazer parte dessa rotina.

A princípio, procurei por carros que tratavam melhor o bolso. Celta, Mille e Gol G4 disputavam minha atenção. Mesmo para quem sempre foi atento ao mercado automotivo não era uma decisão fácil. Passaria quase três horas do meu dia ao volante e nenhum deles justificava a escolha. O Mille, por exemplo, era o mais barato e econômico, mas também, dono de um interior que já completava cinco anos antes mesmo de eu ter nascido.


O popular de entrada da Renault chamou atenção por aparentar não fazer parte daquele grupo de carros extremamente básicos e, de fato, não é! Mesmo depenado ele ainda herda algumas boas qualidades do carro que um dia competiu no mercado europeu e que por aqui disputou contra o Peugeot 206, Corsa e Fiesta.

Além da boa mecânica, acabamento e montagem superior, ainda restavam alguns equipamentos úteis: ar quente, regulagem interna dos retrovisores, faróis com duplo refletor óptico, frisos laterais, repetidor de seta lateral, regulagem de altura do sinto se segurança e rodas 14” com pneus 175/65 R14 eram de série. É uma lista de equipamentos acanhada, concordo, mas era lamentável saber que seus principais concorrentes não ofereciam sequer algum destes itens.

Quanto custa manter $$$ um popular: 80.000 km em um Renault Clio

Àquela época eu já fazia um controle de gastos pessoais e o carro passaria a fazer grande parte disso. Também tinha grande curiosidade de saber o custo dessa empreitada e, alias, precisava que fosse baixo.

Todos fazem uma ou outra medida de consumo, mas que muitas vezes fogem a realidade por serem muito otimistas. Dirigimos de forma moderada apenas durante o “teste”, ou o fazemos em situações favoráveis, como em viagens mais distantes. O mesmo acontece com os demais gastos que se somam de forma aleatória na nossa imaginação.

Por curiosidade e necessidade, resolvi fazer um controle detalhado, mas que fosse simples o bastante para ser seguido à risca. Fiz um pequeno bloco que funcionaria como um registro de bordo, contendo informações básicas que posteriormente seriam passadas para uma planilha. O único trabalho foi o compromisso de preencher o bloco e sempre completar o tanque, o que, para quem roda bastante não é problema.

Quanto custa manter $$$ um popular: 80.000 km em um Renault Clio

O intenso trânsito da capital mineira, um pequeno trecho duplicado da BR-040 e parte da sinuosa BR-356 formaram a maior parte da paisagem. Foram aproximadamente 75% em rodovias, muitas vezes com um ou mais passageiros. Depois de somados os principais gastos e 158 lançamentos na planilha, o resultado é uma porção de números, nos quais podemos fazer inúmeras observações.

Existem dois custos principais que todos devem levar em conta. Um deles é o custo em conseqüência do uso do veículo, que podemos chamar de custo operacional. O outro, chamado de custo fixo, se apresenta desvinculado ao uso, ou seja, você irá arcar independente de ter usado ou não o veículo.

A desvalorização é outro custo que apesar de “fixo”, é bem imprevisível, além de envolver o estado de conservação. Nesse caso, considerei o valor tabelado do veículo em 2009 e preço da tabela atual (Fipe). Muitos preferem ignorar a desvalorização, o que eu acho insensatez, pois cedo ou tarde você terá que arcar com essa conta que, como vocês podem notar, não é nada baixa.

Quanto custa manter $$$ um popular: 80.000 km em um Renault Clio

 

Quanto custa manter $$$ um popular: 80.000 km em um Renault Clio

Curiosidades

– Mesmo se o veículo fosse mantido parado na garagem, após quatro anos o valor da brincadeira seria de prováveis e assustadores R$ 15.729,15. Coincidentemente, o custo por rodar 80.200 km ficou bem próximo, foi de R$ 14.676,47.

– Considerando 4 anos e 80.200 km, chega-se no custo fixo mensal de R$ 327,69 e R$ 0,18 para cada quilometro rodado.

– Com o etanol custando R$ 1,27 o litro e um consumo de 11,87 km/l, foi possível rodar 100 km com apenas R$ 10,70. Àquela época, o transporte coletivo interurbano cobrava R$ 22,00 para transpor uma distância equivalente.

– As melhores médias obtidas foram de 13,2 km/l com etanol e surpreendentes 20,3 km/l com gasolina. Já as piores foram de exatos 10 km/l com etanol e 13,33 km/l com gasolina.

– Após 80200 km e 158 abastecimentos somando 6022,7 litros de combustível, a média geral foi de 13,3 km/l, com participação de 62% do etanol e 38% da gasolina.

– O rendimento médio com gasolina foi de 15,8 km/l. Com etanol o rendimento caiu para 11,6 km/l, 26% inferior.

– Em 2009 foi possível abastecer pagando R$ 1,26 pelo litro de etanol e R$ 2,24 o litro da gasolina. Após três anos esses valores subiram para R$ 1,99 e R$ 2,65. Um aumento de 58% (etanol) e 18% (gasolina).

– Sem bolhas, furos ou desgastes irregulares, o primeiro jogo de pneus (Firestone F590) rodou 50 mil quilômetros com apenas um alinhamento, balanceamento e rodízio (feitos na revisão de 30 mil km). A um custo de R$ 80,00 valeria a pena fazer esse serviço a cada 10 mil quilômetros?

– Com o tempo é bem provável que o custo operacional do veículo aumente consideravelmente, ao contrario de parte do custo fixo (desvalorização, seguro e IPVA) que fica cada vez mais baixo.

Com um monitoramento freqüente é normal que a preocupação com o consumo de combustível aumente. Mas a idéia não é dirigir em função de bons resultados, como fazem os “hypermilers”, e sim buscar um modo de condução eficiente sem comprometer a segurança ou o tempo gasto no trânsito. Para isso existem inúmeras técnicas que podem ser aplicadas em situações diversas. Mas as que eu considero mais eficazes são: atenção, previsão e bom senso.

Estando atento, você perceberá que os veículos adiante freiam e logo em seguida aceleram para recuperar a velocidade. Nessa situação, mantendo uma distância segura não é necessário nem mesmo diminuir o ritmo, ou bastará apenas aliviar o acelerador. O mesmo vale para grandes filas onde, observando os veículos mais à frente, é possível prever o comportamento dos demais.

Freando menos você também poupa mais. Ao invés de afundar o pé no acelerador nas retas e frear forte em cima da curva, é muito mais vantajoso trafegar numa velocidade intermediária, que seja o bastante para contornar curvas com segurança. É uma simples questão de não desperdiçar o movimento gerado pela queima do combustível. Sem falar no desgaste dos freios.

De um modo geral não dirijo em ritmo vagaroso, até me controlo para não exceder os limites de velocidade permitidos. Mas passei a perceber que tanto os apressados quanto os mais lentos sempre acabam juntos, logo atrás daquele caminhão lento. O fato é que com o tempo eu adotei todas essas medidas como meu modo de condução. Não sei ao certo o quanto essas atitudes influenciaram no consumo, mas dá para ter

Sem nenhum compromisso com o bolso, é bem provável que os resultados ficassem muitas vezes abaixo do pior obtido. A diferença entre a média geral e o pior resultado (ambos com gasolina) pode parecer pequena, mas imagine dois motoristas: um com o consumo médio de 13,33 km/l e o outro fazendo 15,8 km/l. É uma diferença tão gritante que após rodarem 80 mil quilômetros, com a gasolina no valor de R$ 2,75, o motorista mais econômico gastaria R$ 13.924,05 e o outro, R$ 16.504,12. Com a diferença de R$ 2.580,07 o motorista mais econômico poderia rodar quase 15 mil quilômetros a mais. Isso sem citar outros benefícios relacionados a desgastes do veículo.

Para saber realmente qual o custo de um veículo, é preciso ir além das despesas apresentadas. Juros de financiamento, custo de oportunidade, estacionamento, lavagens, pedágios, multas, e até trocados para flanelinhas são despesas que podem surgir ou já estão vinculadas ao veículo. No entanto deixei de fora por serem imprevisíveis e variarem muito de acordo com a situação de cada proprietário.

Após 80.200 km e um período arredondado de quatro anos, o Renault apresenta a conta no valor de R$ 30.405,62. Ainda tenho curiosidade de saber quanto os demais populares teriam cobrado diante desse mesmo cenário. Mas tenho a certeza de que mesmo se houvesse diferença, não seria o bastante para que eu me arrependesse da escolha.

Quanto custa manter $$$ um popular: 80.000 km em um Renault Clio

Caso você queira fazer esse mesmo controle, ou até mesmo verificar se o consumo no computador de bordo confere com o real, é só criar uma planilha. Vale lembrar que não é imprescindível completar o tanque a cada abastecimento. Basta considerar todo o intervalo entre dois abastecimentos completos.

Convivência com o Clio

Mesmo injustiçado e um tanto esquecido pelo mercado, o Clio é um carro bastante pautado em noticias e nos comentários do fórum, principalmente quando o assunto “carro popular” vem à tona. Há inclusive uma excelente matéria na sessão “carro da semana, opinião de dono“. Portanto serei breve com meu relato.

Ainda hoje o Clio carrega a fama de produto importado, mas a versão nacional já circula entre nós desde 1999. Outra – agora boa – fama que ele carrega é a de cativar seus donos, foi inclusive premiado durante vários anos pela pesquisa promovida pela revista 4 Rodas, chamada de “Os Eleitos”, onde é levado em conta o grau de satisfação dos proprietários.

O interior do Clio também agrada bastante. O painel em dois tons e o acabamento que se faz presente em toda a cabine é algo raro de encontrar em carros dessa categoria. A Renault não poderia ter feito bancos melhores. Em formato de concha, apóiam tão bem o corpo que nem precisavam ser tão macios. Atrás a conversa muda. Pouco espaço, assoalho irregular e um assento medíocre.

Ao volante, irá se surpreender quem o julgar pelo visual sem graça. A posição de dirigir é ótima, com volantes, pedais e câmbio bem posicionados. A suspensão é firme e absorve bem as irregularidades. O motor multiválvulas casa perfeitamente com a caixa de relações curtas. Em ultrapassagens o Clio ganha fôlego à medida que o giro sobe, até chegar ao ponto em que você passa a duvidar de se tratar mesmo de um carro mil. É quando a injeção aparece para cortar a festa. Alias, deve-se ficar atento para mudanças de marcha no meio de ultrapassagens.

Outro fator que contribui para o bom desempenho é o baixo peso. Com 880 kg ele pesa ainda menos que um pequenino Chery QQ. Divida isso pela potencia de 77cv e irá encontrar um resultado mais satisfatório que o de um Golf 1.6. Com o carro cheio e pesado esse encanto é todo abatido e o Clio passa a se arrastar como qualquer outro carro mil. Mas você não vai querer andar com a família e bagagens. Isso porque o espaço traseiro é limitado e o porta-malas não é dos maiores.

O Clio também não é o carro ideal para andar em auto-estradas. Ele até consegue manter altas velocidades com disposição e estabilidade, mas faz isso com o giro alto demais. Em última marcha, a 120 km/h, o motor estará girando a 4.250 rpm, o que aumenta o ruído e prejudica o consumo. Prova disso está na melhor média obtida, 20,3 km/l. Foi em uma viagem, onde rodei mais de 800 km sem nem ascender a luz da reserva. Isso só foi possível porque viajei sob chuva constante e, por isso, mantive a velocidade sempre abaixo de 100 km/h.

Quanto custa manter $$$ um popular: 80.000 km em um Renault Clio

Mas nem foi o consumo que me surpreendeu. Fiquei satisfeito com robustez e custo de manutenção no geral. As primeiras revisões foram feitas na concessionária, onde fui sempre muito bem atendido, Mas ainda assim não fiquei isento da “impurroterapia”. Na revisão dos 20 mil km, feita em Belo Horizonte na concessionária Valence (onde retirei o veículo), me disseram que eu teria que retornar para trocar as pastilhas de freio que, segundo o consultor, não duraria até os 30 mil km. Seguro de que não passava de uma alegação de má-fé, segui até a próxima parada, esta feita na concessionária Minas France. Lá fui igualmente bem recebido e pedi que verificassem o estado das pastilhas, resultado: informaram-me que a peça ainda estava com mais da metade da vida útil. Também me avisaram que a correia dentada estava contaminada (suja de poeira/minério) e que seria trocada na garantia.

Por sorte ou excesso de zelo, o único defeito apresentado foi o jogo de vela que começou a falhar e coincidiu com a revisão dos 60 mil km. Fora isso, nem mesmo um pneu furado. Aliás, as pastilhas condenadas pelo consultor continuam lá, trabalhando firmes!

Depois de rodar mais de 80 mil quilômetros o Clio continua bem integro. Não apresenta a mesma firmeza de quando novo, também não exibe mais aquele ruído interno abafado de um carro zero. Mas ainda passa muita confiança.

Já faz tempo que as versões mais caras do Clio foram removidas para dar lugar ao Sandero. Hoje ele se apresenta um tanto defasado, jogado em uma categoria a qual não pertence. Foi desacreditado pela marca, o que é irônico, pois é o único carro de origem francesa que restou no portfólio que a marca apresenta por aqui. Para quem possui, fica uma sensação de injustiça com o carro que tem como o maior trunfo, superar as expectativas de quem espera apenas por um automóvel barato.

Por Rodrigo Passos

Quanto custa manter $$$ um popular: 80.000 km em um Renault Clio
Nota média 4 de 1 votos

Quem somos

O Notícias Automotivas é um dos maiores sites automotivos do Brasil, trazendo todas as novidades sobre carros para mais de 450 milhões de pessoas, por mais de 12 anos. Saiba mais.

Notícias por email