
Poucas estreias conseguem mexer tanto com a imagem de uma fabricante quanto a chegada de um Ferrari que parece negar vários códigos históricos da própria Ferrari.
O Luce nasce como o primeiro EV puro da marca italiana, além de ser seu primeiro sedã e seu primeiro modelo com cinco lugares.
A recepção, porém, fica bem distante de uma simples divisão de opiniões, já que a reação negativa ganha uma intensidade que surpreende até Maranello.
Ferrari já lidou com carros polêmicos antes, como Purosangue, FF e F50, mas nenhum deles reuniu rejeição parecida entre entusiastas.
Parte do incômodo vem do fato de o Luce não parecer um Ferrari por dentro ou por fora, nem soar como um modelo tradicional da casa.

Outro ponto sensível é o conjunto mecânico, já que o carro abandona a fórmula clássica da marca e aposta totalmente na eletrificação.
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A conta também pesa nesse debate, pois o modelo custa perto de US$ 650.000 (R$ 3,33 milhões), valor capaz de elevar ainda mais as expectativas.
Emanuele Carando, diretor global de marketing da Ferrari, disse à Edmunds que a empresa esperava uma reação forte e bastante polarizada.
O que ele afirma não ter previsto foi a dimensão desse retorno, descrito por ele como algo muito maior do que a Ferrari imaginava.
Carando tenta tratar o tema com naturalidade e sustenta que a repercussão negativa também funciona como uma forma de divulgação sem custo.

Segundo o executivo, a Ferrari é uma marca amada e, por isso, todos se sentem no direito de opinar sobre seus caminhos.
Ele também avalia que qualquer novidade tende a provocar resistência inicial, especialmente quando mexe com símbolos tão consolidados no imaginário dos fãs.
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Chegada do Ferrari Luce EV de cinco lugares vale a rejeição visual e de tecnologia por ~US$ 650 mil?
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A comparação usada por Carando é o Purosangue, lançado quatro anos atrás e recebido com muitas críticas por desafiar a tradição da fabricante.
Na visão dele, esse mesmo modelo hoje está entre os carros mais admirados do mundo, sinal de que a percepção pública pode mudar.
A maior discussão em torno do Luce, ainda assim, está no desenho externo, frequentemente comparado a um produto de Jony Ive.

Muita gente enxerga no carro uma espécie de Apple Car com emblema da Ferrari, mesmo que essa leitura não explique tudo sozinha.
O resultado visual realmente se afasta do padrão esperado para a marca e combina mais com iPhone, iPad ou Apple Watch do que com uma 458 Italia.
Por dentro, a proposta parece menos controversa, especialmente pela presença de controles físicos, ainda que isso não compense totalmente a falta de identidade externa.
Até Luca di Montezemolo, ex-CEO da Ferrari, foi duro ao dizer que a empresa deveria remover o cavallino rampante do modelo.
Ele acrescentou que, se dissesse tudo o que pensa sobre o carro, prestaria um desserviço à própria Ferrari.
Carando defende que essa ruptura foi intencional, pois a Ferrari não queria apenas trocar o motor de 12 cilindros do Purosangue por baterias.
A ideia, segundo ele, era usar a tecnologia elétrica para criar um carro espaçoso, de capô muito curto e posição de dirigir avançada.
Essa arquitetura aproxima o motorista do eixo dianteiro e, na explicação da Ferrari, favorece precisão elevada na entrada das curvas.
O executivo acredita que a rejeição vai perder força com o tempo, repetindo o caminho visto no Purosangue depois de sua estreia.
Para a Ferrari, o ponto decisivo talvez seja menos a aprovação imediata e mais a capacidade de vender o Luce de US$ 640.000 (R$ 3,28 milhões).
Se o volume ajudar a financiar os projetos da marca na F1 e no WEC, Maranello tende a conviver bem com a polêmica.
