Tirar a válvula termostática é mesmo bom?

Tirar a válvula termostática é mesmo bom?

A válvula termostática é um item muito importante em qualquer carro (exceto se for elétrico), mas alguns mecânicos recomendam que se tire esse dispositivo para que o carro tenha maior durabilidade e evite aquecimento do motor. Mas, será que retira-la é mesmo bom? Antes de mais nada, é preciso explicar o que é essa válvula e qual sua função dentro de um automóvel.


Trata-se de um dispositivo eletromecânico que controla o fluxo de líquido de arrefecimento entre motor e radiador. Essa válvula utiliza um sistema de cera que tem a característica de se expandir para prover o acionamento para abertura e fechamento do duto de água. Sua função é controlar as temperaturas de funcionamento do motor e prover um pré-aquecimento do mesmo, quando este está frio.

Um motor normalmente funciona com uma faixa de temperatura ideal e isso só é possível por conta da válvula termostática. Quando um motor está frio, especialmente os flex e movidos puramente com etanol, a válvula termostática impede que o fluxo de líquido de arrefecimento no bloco e cabeçote alcance as serpentinas do radiador. Nessa fase, a temperatura do propulsor é muito baixa e não permite um funcionamento com rendimento melhor.

Todos os motores a combustão precisam se aquecer para que seu funcionamento seja ideal, evitando consumo em excesso e emissões elevadas. É por isso que alguns fabricantes até hoje não abrem mão do bloco de ferro fundido, especialmente nos motores diesel, já que este conserva a energia térmica por muito mais tempo que o alumínio.

Para que esse aquecimento ocorra mais rápido, é necessário mais do que represar o líquido de arrefecimento, mas uma mistura rica em combustível para que a produção de energia seja acentuada. É nessa fase que consumo e emissão são críticos, sendo um dos motivos que tornaram “janela térmica” um dos pivôs do Dieselgate na Europa. Mas de volta à válvula termostática, ela permanecerá fechada.

Conforme o líquido da refrigeração esquenta, sua temperatura vai atingir um nível em que será necessário sua passagem pelas serpentinas do radiador. Nesse ponto, a válvula irá abrir-se gradualmente para que haja um fluxo de líquido sendo resfriado de forma harmônia, sem choques térmicos. Essa mistura deve encontrar-se dentro da faixa de funcionamento normal do motor, que varia de acordo com cada projeto.

Dessa forma, a válvula termostática garante um fluxo de líquido refrigerante em temperatura adequada dentro do bloco e cabeçote do motor, independentemente se este tem um, dois ou três circuitos de refrigeração independentes. Funcionando de forma correta, o motor só tende a ter sua vida prolongada.

Porém, seu defeito pode acarretar em superaquecimento do motor, já que não haverá passagem de água para o radiador e a temperatura alcançará um nível crítico, onde ocorrerão inúmeros problemas dentro do motor, chegando à sua fundição. Motores mais complexos, tais como com injeção direta ou turbocompressor, por exemplo, podem conter até duas válvulas termostáticas.

Tirar a válvula termostática é mesmo bom?

 

Retirar válvula termostática não é bom!

Para se evitar um problema como esse, de superaquecimento por causa da válvula termostática, alguns “mecânicos” recomendam a retirada do dispositivo para que haja um fluxo de água constante entre motor e radiador. O problema real é que quem recomenda se esquece que o superaquecimento do motor pode se dar por muitas outras formas, tais como vazamentos que provocaram redução da quantidade de água, bomba d´água com defeito, correia da bomba d´água frouxa ou quebrada, falha da ventoinha do radiador, queima da junta de cabeçote, radiador e/ou galerias do motor entupidos, baixa pressão da refrigeração, entre outros.

Porém, muitos já escolhem a válvula termostática como responsável para todas as faltas nesse jogo do funcionamento do motor e pede sua retirada de campo… Mas então, o que acontece se o fluxo de líquido refrigerante permanece o tempo todo liberado. Bom, deve-se lembrar que é exatamente assim que o motor deve funcionar em seu regime de trabalho normal, com temperaturas dentro de uma faixa específica.

Mas até chegar lá, o motor após a ignição, ainda estará muito frio, pois a água não vai se aquecer na mesma velocidade. Será um processo mais demorado e nisso, o líquido perde sua capacidade de pré-aquecer o motor e será necessário mais combustível para uma mistura rica e com isso, mais poluentes serão lançados na atmosfera. De um lado, o dono do carro perde em combustível logo de cara. Do outro, o meio-ambiente perde mais um pouco com emissão extra de poluição, por causa do pré-aquecimento irregular do motor.

Como ninguém quer ficar esperando pelo aquecimento ideal do motor, sair com ele dessa forma só trará despesas e uma vida mais curta para o motor, além de falhar de funcionamento, que trazem um desprazer total ao volante. Quando a válvula termostática é trocada, um dos erros mais frequentes é a compra de uma peça de outro motor. A confusão vai gerar problemas de funcionamento e isso significará problemas com o aquecimento.

No passado, quando não existia carros flex, além da marca/modelo/motor do carro, era preciso saber se a válvula termostática era para um motor a gasolina ou para o álcool. Normalmente, o dispositivo para o combustível vegetal tinha uma faixa de temperatura com abertura plena superior ao do derivado do petróleo.

Quando um carro chegava à oficina com histórico e problemas relacionados com superaquecimento, o mecânico trocava a original de álcool por uma de gasolina, fazendo assim com que o fluxo refrigerante entrasse mais rapidamente no radiador para manter a temperatura geral mais baixa.

Isso era muito comum nos carros dos anos 80 e 90, mas com a chegada dos motores flex, a válvula termostática passa a ser de um único tipo, sem a chamada “cabeça”, sendo esta última uma característica de peças para gasolina, que reduzia o fluxo antes da abertura total. Na versão do álcool, sua ausência permitia uma passagem de água mais rápida para o radiador. Agora, ela precisa ser assim para funcionar com etanol. Por isso, quem tem um carro mais antigo, mesmo o pré-flex, é preciso estar atento ao funcionamento do motor e, em especial, à refrigeração.

Tirar a válvula termostática é mesmo bom?

Como testa-la?

Se a dúvida paira sobre a válvula termostática, no caso do motor aquecendo além do normal, recomenda-se testa-la para averiguar se o problema não está relacionada com ela. Nesse caso, geralmente é feita sua retirada e após colocada em uma vasilha com água, deve-se aquece-la em determinada temperatura para ver o quanto ela está abrindo. Dependendo dessa diferença, saberemos se ela está ou não funcionando corretamente.

Além disso, se seu estado estiver muito ruim, cheio de ferrugem e com estrutura comprometida, o melhor é substituí-la por uma nova que, conforme já comentamos acima, precisa ter a mesma especificação da original. Quando o mecânico fala em durar mais o motor, não se refere apenas ao não aquecimento do motor, mas também em relação à peça. Como tem vida útil limitada, a válvula termostática pode durar mais ou menos, e isso dependerá apenas do líquido de arrefecimento.

Sem o mesmo conter muita sujeira, como ferrugem em excesso, por exemplo, esses resíduos se acumularão na válvula termostática e esta poderá travar por causa dos detritos. Outro ponto é o uso de aditivos não específicos para o motor, que agirão agressivamente com a peça, iniciando um processo de corrosão fatal para o dispositivo.

Ricardo de Oliveira

Técnico mecânico, formado há 25 anos. Há 14 anos trabalha como jornalista no Notícias Automotivas, escreve sobre as mais recentes novidades do setor, frequenta eventos de lançamentos das montadoras e faz nossos testes e avaliações. Também trabalhou nas áreas de retificação de motores, comércio e energia.