Viagem que antes levava 6 dias a pé e com mulas agora pode ser feita em apenas 3 horas e meia após estrada cortar montanhas no norte da Índia

Estrada asfaltada em curvas entre campos de cevada, casas de adobe e montanhas do Himalaia, com dois caminhões e picos nevados ao fundo.
Vista da Zanskar Highway cortando o Himalaia indiano, símbolo da ligação que encurtou de dias para horas a travessia dos vales budistas de Zanskar.

Antes da estrada, o tempo no vale de Zanskar se media em jornadas a pé, mulas carregadas e noites no gelo do rio: seis dias inteiros para sair do enclave budista no extremo norte da Índia e alcançar o resto do Ladakh.

Agora, 298 quilômetros de asfalto serpenteiam entre 3.800 e 5.000 metros de altitude e encurtam a mesma travessia para apenas três horas e meia, puxando aldeias de adobe, terreiros de cevada e mosteiros seculares para o ritmo dos caminhões, do turismo e do celular.

A via, conhecida como Zanskar Highway ou eixo Nimmu–Padum–Darcha, liga Nimmoo, no território himalaio do Ladakh, a Darcha, no Himachal Pradesh, e foi concluída em março de 2024 depois de anos de obras em passes nevados e paredões de rocha.

O governo indiano impulsionou o corredor a partir de 2018 para integrar e proteger uma faixa de fronteira sensível, vizinha do Paquistão e da China, numa região que figura entre as mais pobres e isoladas do subcontinente.

Dechen, um trabalhador no canteiro de obras da Zanskar Highway, continua a cultivar seu campo de cevada e a cuidar de seu rebanho de iaques. Imagem extraída do documentário "La Route", de Marianne Chaud.
Dechen, um trabalhador no canteiro de obras da Zanskar Highway, continua a cultivar seu campo de cevada e a cuidar de seu rebanho de iaques. Imagem extraída do documentário “La Route”, de Marianne Chaud. ZED ZOOETNOLOGICA DOCUMENTA

Do rio congelado ao asfalto em altitude extrema

Por gerações, Zanskar permaneceu entre os vales habitados mais cortados do Himalaia indiano: no inverno a neve fecha os passes de montanha e a única ligação com Leh, a capital ladakhi milhares de quilômetros ao norte de Délhi, dependia da Chadar, a perigosa caminhada sobre o leito congelado do rio Zanskar.

No verão, trilhas estreitas e pistas precárias bastavam ao comércio limitado, às peregrinações e ao vaivém de monges entre gompas, os mosteiros budistas de matriz tibetana que ainda organizam o calendário ritual e a autoridade moral das aldeias. A chegada do asfalto regularizado muda essa geografia do isolamento de uma só vez.

Ônibus e caminhões passam a cruzar o que antes era fim de mundo em poucas horas, mercadorias industrializadas chegam com mais frequência e o acesso a hospitais em Leh deixa de ser uma odisseia de dias.

A Chadar, que era necessidade de sobrevivência, começa a virar memória ou atrativo para quem busca aventura no teto gelado do subcontinente, enquanto a temporada turística se alonga sempre que a pista permanece aberta. Homens e mulheres do próprio vale trabalharam na construção.

Aos homens couberam dinamite e escavadeiras hidráulicas; às mulheres, a picareta e o desmonte de pedras com as mãos nuas, seis dias por semana, das oito da manhã às cinco da tarde, em altitudes em que o ar rarefeito e o frio cortam o fôlego.

Muitos seguem dividindo o dia entre o canteiro e a lavoura ancestral: Dechen, manobra no trecho da rodovia, continua cultivando seu campo de cevada e cuidando do rebanho de iaques, imagem que resume o embate cotidiano entre o salário da obra e o calendário agrícola que ainda define o ano.

Aldeões, monges e o basculamento do mundo antigo

A cultura zanskarpa é de raiz tibetana budista, com casas de adobe, terreiros de cevada, pastagens de altitude e mosteiros que marcam festas, casamentos e a transmissão de mantras. Por séculos o isolamento protegeu esse tecido: o inverno longo, a neve nos passes e a dependência da mula e do gelo mantiveram o vale quase à margem do mercado monetário e das redes de Estado.

A estrada não apaga de um dia para o outro esse mundo, mas acelera rupturas que já se anunciavam com a chegada dos smartphones a cada lar. Jovens encontram emprego na obra, no transporte e no turismo de mosteiros; anciãos veem o tempo “em que se tomava o tempo” ceder lugar à pressa do ônibus e ao plástico das embalagens.

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Há quem diga, com nostalgia seca, que antes da estrada era a felicidade, porque o ritmo cabia na caminhada e na colheita. Há quem celebre o posto de saúde mais perto, a escola fora do mosteiro e a possibilidade de vender ou comprar sem esperar a abertura dos passes.

O documentário “A Estrada”, exibido na Arte.tv, o canal público franco-alemão de cultura, acompanha justamente esse basculamento sem transformar o vale num cartão-postal exótico vazio de conflito.

A antropóloga e realizadora Marianne Chaud, que viveu doze anos na região e aprendeu a língua local, filma a tarefa titânica e desigual da obra e o cotidiano de quem ainda cultiva, reza e pastoreia enquanto o asfalto avança.

A câmera não separa paisagem de gente: mostra o pó do canteiro, o campo de cevada, o rebanho de iaques e a conversa miúda sobre o que se ganha e o que se perde quando a modernidade chega primeiro pela estrada do Estado do que por regras claras de proteção cultural e ambiental.

Integração de fronteira, turismo e pressão sobre o vale

A Zanskar Highway se inscreve no esforço indiano de eixos rodoviários de altitude sob a Border Roads Organisation, o órgão militar-civil que constrói e mantém estradas em faixas de fronteira.

O corredor que desce de Nimmu em direção a Padum, o principal povoado do vale, e se articula a Darcha no Himachal, atende ao mesmo tempo à lógica de segurança e à de integração civil: liga territórios remotos à rede nacional, facilita o trânsito de tropas e de cargas e abre o interior himalaio ao mercado interno.

Com a pista, cresce o turismo de aventura e de mosteiros, alonga-se a temporada em que visitantes conseguem chegar de ônibus ou jipe, e aumentam o fluxo de dinheiro monetário, o lixo plástico e a pressão sobre pastagens e fontes de água já frágeis no alto Himalaia.

Em vários vales ladakhis vizinhos, a tensão entre a geração ligada ao emprego e ao celular e os mais velhos apegados ao calendário agrícola-ritual já está documentada; Zanskar entra agora com força nesse mesmo movimento, depois de ter permanecido por mais tempo à margem.

A escala da mudança é fácil de sentir mesmo para quem nunca pisou em serra de cinco mil metros: o que antes lembrava o isolamento de comunidades de difícil acesso — só que por passes nevados e rio congelado em vez de floresta — passa a funcionar como as grandes vias de integração que rompem o “fim de mundo” com o mesmo misto de caminhão de carga, posto de saúde, pousada e erosão de costumes.

Padum deixa de ser apenas o fundo de um saco de montanhas e vira parada de rota; os mosteiros ganham visitantes e perdem um pouco do silêncio que os cercava; a cevada e o iaque continuam no horizonte, mas dividem espaço com o asfalto e o motor.

Uma estrada, dois tempos no mesmo vale

Nada no episódio autoriza a dizer que a cultura zanskarpa “acabou” ou que a rodovia seja só milagre ou só catástrofe. O que os 298 quilômetros confirmam é a troca brutal de escala temporal: semanas a pé e no gelo viram poucas horas de ônibus em serra, e o antigo mundo de mula, mantra e colheita passa a conviver, no mesmo dia, com o horário do canteiro e o sinal de celular.

A decisão de 2018, a conclusão em março de 2024 e o encurtamento de seis dias para três horas e meia são os marcos duros dessa passagem. No fio dessa narrativa, a estrada funciona menos como monumento de engenharia e mais como personagem que arrasta consigo mercadoria, Estado, turismo e dúvida.

Quem trabalhou na obra com picareta ou dinamite segue, em muitos casos, voltando ao campo de cevada ao fim do expediente; quem reza no mosteiro vê peregrinos chegarem de longe com mais facilidade; quem cresceu ouvindo que o inverno fechava o mundo descobre que o asfalto, quando a neve permite, mantém a porta entreaberta o ano todo.

O fenômeno se parece com o que já alterou outros bolsões himalaios quando a estrada chegou antes de um pacto claro sobre água, pastagem e patrimônio vivo.

Em Zanskar, o documentário da Arte.tv usa o traçado da via como fio condutor para mostrar o embate miúdo — o rebanho que ainda sobe a encosta, a mulher que descarrega pedra e depois rega a lavoura, o monge que observa o movimento novo na pista — sem reduzir o vale a cenário de cartão-postal.

A cobertura cultural reunida em lemonde.fr ajuda a situar essa virada, mas o fato que permanece é o do chão: um corredor de quase trezentos quilômetros a quase cinco mil metros de altitude que redesenha o mapa mental de um dos últimos grandes isolamentos habitados do Himalaia indiano. Enquanto a Zanskar Highway consolidar o trânsito entre Nimmu, Padum e Darcha, o vale seguirá vivendo dois relógios ao mesmo tempo.

De um lado, o tempo longo da cevada, do iaque e do mosteiro; do outro, o tempo curto do ônibus, da mercadoria e da tela acesa. A estrada não escolhe qual dos dois vence: ela apenas torna impossível fingir que o antigo mundo pode continuar intocado depois que o asfalto cortou a montanha e transformou seis dias de travessia em uma tarde de viagem.

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Escrito por

William Martins

William Martins acompanha o mercado automotivo e atua na produção e organização de conteúdos sobre carros, lançamentos, tecnologia, indústria e mobilidade. Seu trabalho combina pesquisa, visão editorial e análise de audiência para transformar temas do setor em informações úteis e acessíveis para quem acompanha as novidades do mundo dos automóveis.

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