VW mente novamente, agora sobre novo nome e pode responder à SEC

VW mente novamente, agora sobre novo nome e pode responder à SEC

Voltswagen: É sério isso, Volkswagen? Você deve lembrar dessa questão, afinal, foi a primeira vez que falamos aqui sobre a tal mudança de nome da VW nos states…


Pois é, nesta terça de manhã, havia um release da montadora alemã confirmando o que havia vazado na imprensa americana na segunda.

Tinha de tudo, fala do presidente Scott Keogh, data para mudança de nome (maio de 2021), estratégia visual e até mesmo mudança no logotipo com dois tons de azul para diferenciar o que é elétrico, do que se move com gasolina.

Tudo foi tão bem feito, que os principais sites internacionais reproduziram, mesmo aqueles ligados ao mercado financeiro e, em especial, à Wall Street.

De Automotive News à Associeted Press, passando por Wall Street Journal, Reuters, Bloomberg, CNBC e até o Wall Street Wedbush, ligado ao mercado financeiro americano, reproduziram como um anúncio oficial da VW.

Nas mídias sociais da Volkswagen, foram feitas ações no mesmo sentido do release, inclusive com citação “66 é uma idade incomum para mudar seu nome”, numa referência à idade da filial americana, fundada em 1955 e que seria alvo da mudança.

Quando a coisa parecia ser engraçada – e de início parecia mesmo – a VW percebeu que o negócio ficou sério. Diante disso, o que ela fez?

Convocou Mark Gillies, um porta-voz da empresa, para revelar que se trata de uma ação de marketing para promover o lançamento do primeiro modelo elétrico da marca nos EUA, o ID.4.

Imprensa não gostou

Algumas fontes dizem que a VW irá emitir uma nota nessa quarta (31), informando que a mudança de nome era uma ação de marketing ou algo do tipo. Contudo, mesmo assim, isso não deve limpar a barra do fabricante de Wolfsburg, especialmente com a imprensa.

Num artigo da Associeted Press, Tim Calkins, professor clínico de marketing da Northwestern University, falou que as mentiras do dia 1 abril são comuns no marketing, mas que é rara uma empresa enganar a imprensa.

Ele disse: “O problema é que, no curto prazo, você pode enganar as pessoas e parece fofo e divertido”. Calkins continua: “Mas, no longo prazo, você realmente precisa de relações positivas e boas com a mídia. Para uma empresa que já tem problemas de credibilidade, esta é uma jogada realmente estranha.”

Pelo que estamos observando na imprensa internacional, a coisa não anda realmente boa para a VW nesse aspecto.

Foi uma boa para entrar nos elétricos?

Mas, em relação à sua estratégia para com aquilo que motivou sua ação? No site Automotive News, Tom Morton, diretor de estratégia para os EUA na empresa de publicidade R/GA, comentou a ação da VW: “Este é o desafio mais urgente da indústria automobilística: ‘Você pode entrar na eletricidade?’ É uma coisa estranha de se estar brincando”.

Morton continuou: “Escolher brincar sobre isso prejudica o compromisso deles.” Decerto, a ação da VW para promover o ID.4 não foi das melhores.

A VW vem desde 2015 tentando mudar sua imagem diante dos americanos, visto que mentiu sobre as emissões de NOx de seus carros “Clean Diesel”, resultando numa conta de US$ 35 bilhões nos EUA e resto do mundo, totalizando 11 milhões de veículos adulterados.

Querendo “limpar” sua imagem, a VW of America cortou diesel, naturalmente, mas também reformulou sua gama de produtos não só no país, mas nos principais mercados, abraçando a eletrificação tal como quando fez a mudança de motores a ar para água no começo dos anos 70.

Mentir novamente, ainda mais para um público que já tem um pé atrás com a marca e também com carros elétricos, é no mínimo um grande erro. Isso, de alguma forma, deve ser explorado pela concorrência nos EUA, onde a VW entra somente com o ID.4.

Problemas legais?

A Volkswagen emitiu declarações falsas à imprensa e elas chegaram até Wall Street. A reação do mercado financeiro no mesmo dia da declaração resultou em alta de quase 5% nas ações da empresa.

Isso deve acarretar problemas para a Volkswagen (um Elektrogate?), tal como aconteceu com a Tesla em 2018. A SEC (Comissão de Valores Mobiliários dos EUA) pode tomar medidas contra a montadora por gerar desinformação, o que distorce os preços das ações.

Isso é o que diz James Cox, professor de direito corporativo e de valores mobiliários na Duke University. Ele comentou: “Todo o mercado enlouqueceu. Precisamos lançar uma linha bem clara na areia, eu acredito, sobre o que é permitido e o que não é permitido.”

Nesse caso, a VW pode ter ido pelo mesmo caminho de Elon Musk em 2018, quando através do Twitter, afirmou ter garantido financiamento para tornar a Tesla uma empresa pública, o que era falso.

As ações dispararam no mercado financeiro, mas a SEC entrou em ação e a empresa teve que pagar US$ 20 milhões de multa pela falsa declaração. Agora, resta esperar pelo movimento da Comissão de Valores Imobiliários dos EUA.

Nessa “brincadeira”, a VW pode perder muito mais que esperava ganhar, especialmente se tudo isso se refletir diretamente na opinião pública americana e nos consumidores. Aí, ela não vai achar graça alguma…

[Fontes: AN/The Verge/WSJ/Reuters/AP]

Ricardo de Oliveira

Técnico mecânico, formado há 25 anos. Há 14 anos trabalha como jornalista no Notícias Automotivas, escreve sobre as mais recentes novidades do setor, frequenta eventos de lançamentos das montadoras e faz nossos testes e avaliações. Também trabalhou nas áreas de retificação de motores, comércio e energia.