Um conflito geopolítico envolvendo China, Itália e Estados Unidos pode colocar em risco o futuro da Pirelli, uma das marcas de pneus mais tradicionais do mundo.
O governo italiano está sendo pressionado a intervir para reduzir ou eliminar a participação da gigante chinesa Sinochem na fabricante, sob risco de a empresa ser excluída do mercado norte-americano.
A situação é crítica porque os EUA consideram a Sinochem uma ameaça potencial à segurança, e a empresa chinesa é atualmente a maior acionista da Pirelli, com pouco mais de um terço das ações.
Apesar da origem italiana, a Pirelli pode acabar envolvida em restrições impostas pelo governo dos EUA a tecnologias veiculares conectadas vindas de empresas chinesas.
O problema específico gira em torno do CyberTyre, pneu de alta performance que possui sensores integrados de pressão e temperatura e é capaz de se comunicar com o veículo.
Esse tipo de tecnologia é classificado como "connected car tech", segmento que passou a ser proibido nos EUA caso envolva empresas da China ou da Rússia.
Desde o início de 2024, as autoridades norte-americanas vêm apertando ainda mais as restrições para impedir qualquer componente conectado de origem chinesa nos carros vendidos no país.
Embora o CyberTyre ainda não seja um produto de grande volume, ele representa uma fatia relevante dos lucros da empresa, especialmente no mercado premium dos EUA.
Cerca de 40% das vendas de pneus de alto valor da Pirelli acontecem na América do Norte, tornando esse mercado estratégico para a fabricante.
A pressão dos EUA fez com que o governo italiano retomasse medidas iniciadas em 2023 para limitar a influência da Sinochem na empresa.
Entre as propostas discutidas estão a venda parcial ou total da participação chinesa na companhia.
Segundo o jornal Financial Times, a Sinochem já contratou consultores para avaliar a venda de sua fatia, o que indica abertura para um acordo.
Se nenhuma solução amigável for alcançada, o governo da Itália pode recorrer às chamadas "golden powers", leis que permitem a intervenção direta do Estado em empresas consideradas estratégicas.
Com base nesse instrumento, o governo italiano tem autoridade para suspender direitos de voto da Sinochem ou impor outras restrições para proteger a autonomia da Pirelli.
O relacionamento entre os italianos e os chineses já se deteriorou após a decisão da diretoria da Pirelli de retirar o controle da empresa das mãos da Sinochem.
A declaração do CEO da Pirelli, Andrea Casaluci, em entrevista ao jornal Corriere della Sera, resume o impasse: o objetivo é garantir que a empresa possa operar globalmente, principalmente nos EUA, sem sofrer bloqueios.
Cerca de 25% da receita total da Pirelli vem do mercado norte-americano, que também é essencial para o desenvolvimento e comercialização de suas tecnologias mais avançadas.
Para Casaluci, sem uma solução política ou societária, o crescimento tecnológico da Pirelli está ameaçado — não só fora da Itália, mas dentro do próprio país.
A disputa mostra como, em tempos de tensões entre potências, até mesmo algo aparentemente simples como um pneu pode se tornar um campo minado geopolítico.
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