
Em Detroit, as linhas de montagem da Stellantis fabricam um SUV a cada um minuto.
Entre braços robóticos e operários atentos, modelos como Jeep Grand Cherokee e Dodge Durango continuam sustentando a base do império norte-americano do grupo europeu.
Junto com as picapes Ram, essas marcas formam o núcleo duro da Stellantis nos Estados Unidos — e estão no centro de um esforço urgente para recuperar espaço após sete anos seguidos de queda nas vendas.
A montadora está investindo US$ 13 bilhões (aproximadamente R$ 64 bilhões) para tentar reverter a tendência de declínio em seu maior mercado.
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Em 2024, a América do Norte respondeu por 45% do faturamento global da Stellantis, superando até mesmo a Europa, tradicional centro de operação do grupo.
Mas reconquistar a confiança dos consumidores americanos não será tarefa simples.
Analistas apontam que a Stellantis perdeu competitividade nos últimos anos ao elevar preços, inflar a produção e lançar EVs que não agradaram ao público local.
Sob o comando anterior de Carlos Tavares, a estratégia era maximizar lucros nos EUA, mas o tiro saiu pela culatra: estoques inflados e preços pouco atrativos provocaram revolta entre concessionários.
A chegada de Antonio Filosa, novo CEO global e ex-chefe da operação americana, marcou uma virada.
Com perfil mais alinhado ao gosto do consumidor norte-americano, ele começou a reduzir volumes de produção e a cortar preços em modelos estratégicos.
Também reverteu decisões polêmicas da gestão anterior, como a descontinuação do Jeep Cherokee, que agora retorna à linha com apelo renovado.
Outro símbolo da guinada é o retorno do icônico motor V8 Hemi 5.7 litros na picape Ram 1500, aclamado por fãs da marca e revendedores.
Na última edição do Salão de Detroit, Filosa comemorou o afrouxamento das metas de eficiência energética promovido pelo governo Trump, afirmando que isso devolve aos consumidores a “liberdade de escolha”.
Essa flexibilidade virou o novo mantra da marca, segundo Tim Kuniskis, executivo veterano trazido de volta da aposentadoria para comandar as operações das marcas norte-americanas da Stellantis.
“Se o cliente não quer uma picape elétrica, que bom que temos outra opção para ele”, resumiu.
A abordagem mais pragmática já começa a dar resultado.
As vendas no quarto trimestre de 2025 subiram 4% em relação ao mesmo período do ano anterior, e a Jeep quebrou uma sequência negativa de seis anos com um crescimento anual de 1%.
Especialistas elogiam a volta ao básico, com foco nos nomes que ainda têm peso entre os americanos, como Durango, Grand Cherokee e Ram.
Mas alertam: o risco agora é mirar demais no passado e perder o bonde do futuro.
Uma eventual mudança no comando da Casa Branca em 2028 pode alterar novamente o cenário regulatório, e empresas que ignorarem os avanços elétricos podem acabar para trás.
Nesse ponto, a Stellantis parece estar mais protegida que as rivais.
Ao adotar uma plataforma veicular flexível, que permite o uso de motores a combustão, híbridos e elétricos no mesmo chassi, a montadora ganha agilidade para se adaptar a cenários diversos.
Enquanto Ford e GM amargam prejuízos bilionários com plataformas 100% elétricas dedicadas, a Stellantis mantém liberdade para ajustar sua oferta conforme a demanda e a regulação.
Mesmo assim, há preocupações na Europa de que o foco excessivo nos EUA possa comprometer investimentos no continente.
Filosa, que ainda reside em Michigan e acumula o cargo de COO da América do Norte, já criticou as políticas ambientais da União Europeia por não estimularem o mercado com força suficiente.
Enquanto o futuro elétrico não chega com firmeza, concessionários como Sean Hogan defendem a estratégia atual com firmeza.
Para ele, voltar a oferecer motores V8 e SUVs tradicionais não é retrocesso, mas uma forma de manter os clientes fiéis.
“Se você perde esse consumidor agora, vai ser quase impossível reconquistá-lo depois — mesmo com tecnologia melhor”, afirma.
E a Stellantis parece ter entendido essa lógica como poucos.
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