
Às margens do lago Constança, Friedrichshafen sempre vendeu a imagem de cartão-postal rico, mas a cidade agora sente, no bolso, o baque da crise automotiva.
Por séculos, o município alemão foi sinônimo de engenharia pesada, com a ZF Friedrichshafen se consolidando como terceira maior fornecedora global de autopeças e maior empregadora local.
Os salários generosos, a creche acessível, o aeroporto internacional e até uma rara faculdade privada de artes liberais garantiam um padrão de vida incomum para uma cidade média.
Na última década, porém, a combinação de concorrência chinesa agressiva e eletrificação mais lenta que o esperado atingiu em cheio a indústria alemã, e a ZF sentiu primeiro, segundo reportagem da Bloomberg.
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Em 2024, a empresa anunciou cortes de até 14 mil postos até 2028, mais de um quarto dos 54 mil funcionários alemães, diretamente conectados à prosperidade municipal.
Como Friedrichshafen é acionista majoritária da ZF e principal destinatária dos dividendos, cada corte na planilha da empresa vira corte visível no orçamento e na vida cotidiana.
Outras cidades-sede de gigantes automotivos vivem problema parecido: Stuttgart registrou déficit orçamentário de cerca de R$ 4,9 bilhões, enquanto Wolfsburg prevê buraco próximo de R$ 854 milhões em 2026.
Para veteranos da indústria, o roteiro lembra a desindustrialização do Ruhr no fim do século passado, quando globalização e menor demanda derrubaram siderúrgicas inteiras e redesenharam cidades.
Mesmo ainda relativamente rica, Friedrichshafen precisou tapar um rombo de cerca de R$ 130 milhões elevando tarifas de estacionamento, creches e piscinas, enquanto o hospital local entrou em falência.
Museus, centros culturais, biblioteca moderna e espaços de eventos sentirão o aperto, reduzindo o acesso a lazer e mudando a relação dos moradores com a cidade.
Moradores como Anna, funcionária da universidade local, reclamam de aumentos fortes no estacionamento e lembram que o transporte público fraco torna inevitável usar o carro diariamente.
Com o humor mais pesado e custos em alta, ela conta que quase não frequenta mais o centro, algo que se repete entre amigos e colegas de trabalho.
Nos tempos de bonança, dividendos da ZF e da Zeppelin GmbH abasteciam a Fundação Zeppelin, que recebeu cerca de R$ 1,19 bilhão em 2017 e R$ 1,0 bilhão em 2018.
Esse dinheiro, separado do orçamento municipal, financiava extras como aeroporto, centro de exposições e projetos sociais, mas em 2024 os repasses caíram para cerca de R$ 415 milhões.
Com a queda, a cidade aprovou orçamento suplementar, a universidade Zeppelin demitiu 20% do quadro, mensalidades de creche devem triplicar até 2027 e o hospital entrou em insolvência.
Críticos apontam que a manutenção da ZF fechada ao mercado financeiro limitou aportes, enquanto a compra da Wabco por cerca de R$ 36,5 bilhões agravou o endividamento.
Enquanto isso, o setor de defesa surge como possível válvula de escape, com Airbus Defence, Diehl Defence e a própria ZF ampliando atividades ligadas a blindados, mísseis e motores militares.
Empresas privadas já injetaram cerca de R$ 15,5 milhões para manter voos domésticos, mas, sem novo modelo econômico além do automotivo, Friedrichshafen arrisca repetir o destino dos zepelins.
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