
Num ano em que a Stellantis anunciou um prejuízo de cerca de R$ 135,6 bilhões, a notícia de que não haverá participação nos lucros para trabalhadores reacendeu o debate sobre remuneração executiva.
Os mesmos documentos financeiros que detalham o rombo de 2025 mostram que o novo CEO, Antonio Filosa, recebeu algo em torno de US$ 6,3 milhões, aproximadamente R$ 32,5 milhões.
Filosa assumiu o comando global em junho, após atuar como diretor de operações para a América do Norte, e em poucos meses liderou o lançamento de novos modelos e uma guinada na estratégia de EVs.
A própria Stellantis descreve esse movimento como uma recalibração completa do plano elétrico, em resposta à transição para veículos eletrificados mais lenta do que se imaginava nos principais mercados.
Mesmo com a remuneração já elevada, os arquivos indicam que Filosa poderia ter ganhado mais de US$ 10 milhões, algo perto de R$ 51,6 milhões, se metas como fluxo de caixa positivo tivessem sido alcançadas.
Enquanto isso, a montadora confirmou que, devido ao prejuízo, não fará qualquer pagamento de participação nos lucros aos trabalhadores sindicalizados, que tradicionalmente contam com alguns milhares de dólares anuais.
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Apesar de ser o atual CEO, Filosa não foi o executivo mais bem pago em 2025, posição ocupada pelo ex-comandante Carlos Tavares, que deixou a empresa em dezembro.
Tavares recebeu cerca de US$ 14 milhões, pouco mais de R$ 72,1 milhões, impulsionados principalmente por um generoso pacote atrelado a seu desempenho anterior.
Desse total, US$ 10 milhões, aproximadamente R$ 51,6 milhões, correspondem ao bônus de performance referente a 2024, somado a uma parcela de verbas rescisórias na saída do cargo.
Esses números tendem a soar ainda mais sensíveis num contexto em que a empresa comunica cortes, revisões de planos elétricos e suspensão total dos cheques de participação para a linha de produção.
Os documentos revelam ainda que John Elkann, presidente do conselho da Stellantis, recebeu por sua vez cerca de US$ 2,8 milhões, o equivalente a aproximadamente R$ 14,4 milhões.
Elkann também coordenou um comitê de liderança interino durante o curto período em que a empresa ficou sem CEO, e, segundo a Stellantis, recusou qualquer remuneração adicional por essa função.
Na justificativa pública para o prejuízo, a companhia apontou a desaceleração da adoção de EVs como principal fator, citando necessidade de revisar investimentos e ajustar a oferta de produtos eletrificados.
A combinação de replanejamento na estratégia de EVs, prejuízo bilionário e congelamento da participação nos lucros coloca ainda mais holofotes sobre o quanto a alta gestão continua sendo premiada.
Para os trabalhadores que deixam de receber um dinheiro recorrente e importante no orçamento, o contraste com salários e bônus de dezenas de milhões de reais tende a alimentar pressão política e sindical.
Agora, caberá a Filosa provar que a recalibração dos planos para EVs e as mudanças na gestão conseguem virar o jogo financeiro da Stellantis, sob escrutínio crescente de investidores e funcionários.
