
A Ford acaba de reacender um conflito delicado entre indústria, política e segurança nacional nos Estados Unidos.
A montadora anunciou a criação de uma nova subsidiária de baterias, chamada Ford Energy, com foco na produção de sistemas de armazenamento de energia — mas com um detalhe que vem gerando forte reação em Washington.
A nova operação utilizará tecnologia licenciada da gigante chinesa CATL, o que amplia a já controversa parceria iniciada entre as duas empresas em 2023.
Na ocasião, a Ford revelou planos de fabricar baterias de fosfato de ferro-lítio (LFP) em Michigan com tecnologia fornecida pela CATL.
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Agora, a companhia de Dearborn vai aplicar a mesma licença para converter uma planta no Kentucky, originalmente planejada para EVs, em uma fábrica de baterias voltadas ao setor de armazenamento de energia — especialmente para atender à demanda crescente de centros de dados e projetos de eletrificação da rede elétrica.
A iniciativa foi mal recebida por membros do Congresso dos EUA e por montadoras concorrentes, que consideravam o acordo original limitado a uma única unidade fabril.
Em carta enviada ao CEO da Ford, Jim Farley, o deputado John Moolenaar, presidente do comitê sobre a China da Câmara, questionou os termos do contrato e pediu explicações sobre a possível influência da CATL no processo produtivo.
O parlamentar expressou preocupação com a dependência crescente de fornecedores chineses em setores estratégicos da economia americana.
Vale lembrar que a CATL foi apontada pelo Pentágono, no ano passado, como tendo supostos vínculos com o Exército chinês — uma alegação que a empresa nega categoricamente.
Mesmo assim, o acordo com a Ford segue gerando incômodo, especialmente entre republicanos que veem a presença tecnológica chinesa como uma ameaça à segurança nacional.
Do ponto de vista legal, a montadora parece amparada pela legislação atual.
Segundo fontes próximas à empresa, a Lei OBBBA, proposta por Trump e aprovada em 2025, permite a manutenção de acordos firmados com entidades estrangeiras proibidas antes de sua vigência, desde que não sejam modificados posteriormente.
Como o contrato com a CATL foi assinado antes da lei, e sem alterações formais, a Ford acredita estar dentro da legalidade ao estendê-lo a outras plantas.
A empresa afirmou que o investimento é, acima de tudo, uma aposta na criação de empregos qualificados nos EUA, e que todas as operações estarão em conformidade com os critérios para créditos fiscais federais.
Mas concorrentes em Detroit não veem a situação com bons olhos.
Montadoras rivais temem que o alcance amplo do licenciamento da CATL conceda à Ford uma vantagem desleal, uma vez que outros fabricantes estariam impedidos de firmar acordos semelhantes após a nova legislação.
Nos bastidores, a percepção é de que a Ford conseguiu se antecipar às regras e garantir acesso contínuo a uma tecnologia de baixo custo e alto volume, crucial num momento em que os custos da transição elétrica seguem pressionando os resultados financeiros das empresas.
Por enquanto, a tensão parece longe de arrefecer.
A relação com a China tornou-se um tema altamente sensível no cenário político americano, e os movimentos da Ford colocam mais lenha nessa fogueira.
Enquanto isso, o governo Trump tenta manter uma postura diplomática com Pequim, com a visita de Estado à China prevista para abril.
Mas até lá, é provável que o tema das baterias — e da influência chinesa no setor — continue sendo um ponto de atrito entre indústria, legisladores e a Casa Branca.
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