
O que separa os motoristas americanos dos carros elétricos chineses pode ser, em breve, apenas o rio Detroit.
Com um novo acordo firmado com Pequim, o Canadá reduziu drasticamente suas tarifas sobre EVs chineses, abrindo caminho para que esses veículos populares e acessíveis invadam seu mercado.
Com a tarifa caindo de 100% para 6,1%, a medida marca um rompimento com a postura protecionista dos Estados Unidos, que mantém barreiras rígidas contra os automóveis da China.
O acordo entre os dois países também prevê redução de tarifas sobre exportações canadenses de sementes de canola para a China, em troca de um limite anual de 49 mil carros chineses no mercado canadense.
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Metade dessa cota será destinada a veículos abaixo de 35 mil dólares canadenses — cerca de US$ 25 mil, ou R$ 132 mil — ampliando o acesso a modelos mais baratos e competitivos.
O impacto pode ser profundo: marcas como BYD, Geely, MG, Wuling e Chery terão a chance de se aproximar da fronteira com os EUA, atraindo consumidores curiosos e pressionando as montadoras americanas.
“Se GM, Ford e Stellantis continuarem apostando só em picapes e SUVs caros, logo perderão mercado”, alertou Sam Abuelsamid, analista da Telemetry.
Segundo ele, os EVs chineses já saltaram de 1% para 20% de participação no mercado mexicano entre 2020 e o início de 2026 — e esse avanço pode se repetir ao norte.
O cenário se torna ainda mais tenso quando se considera que marcas como Xiaomi e BYD já oferecem modelos até US$ 15 mil mais baratos que seus equivalentes nos EUA, graças a subsídios estatais.
A proximidade geográfica é outro fator relevante: assim como os americanos já veem EVs chineses no sul do Texas por conta do México, em breve poderão encontrá-los em Michigan, vindos de Ontário.
O presidente do sindicato canadense Unifor, Lana Payne, criticou o acordo, dizendo que ele ameaça os empregos no Canadá e nos EUA e desestabiliza a integração automotiva construída nas últimas seis décadas.
Enquanto isso, o ex-presidente Donald Trump reagiu com ameaças, afirmando que, se o Canadá seguir adiante com o acordo, todos os produtos canadenses passarão a enfrentar uma tarifa de 100% ao entrar nos EUA.
Apesar da retórica dura, Trump também declarou apoio à construção de fábricas chinesas nos EUA, desde que utilizem mão de obra americana — contradizendo sua própria política de tarifas.
Dentro da indústria, há preocupação real com a possibilidade de que os consumidores norte-americanos conheçam os carros chineses no Canadá, se encantem com o design, o preço e a tecnologia, e passem a questionar os altos preços praticados pelas marcas locais.
O CEO da Ford, Jim Farley, inclusive dirige um Xiaomi SU7 para benchmarking e já admitiu que os EVs chineses representam uma ameaça séria às fabricantes americanas.
A própria Ford pretende lançar uma picape elétrica média em 2027, por US$ 30 mil, tentando reagir ao avanço chinês com preços mais acessíveis.
Para analistas, o movimento do Canadá representa o início de um “desacoplamento” da indústria automotiva norte-americana, agravado por tarifas dos EUA e tensões políticas.
A expectativa é de que, nos próximos 12 meses, alguma marca chinesa anuncie uma fábrica no Canadá, seja comprando uma planta inativa ou construindo uma nova — um passo que ampliaria ainda mais a influência de Pequim na América do Norte.
Nos bastidores, Ford, GM e Stellantis já mantêm parcerias com fornecedores e montadoras chinesas, especialmente para fornecimento de baterias, apesar da resistência dos sindicatos.
Se o consumidor canadense abraçar os EVs chineses, o impacto será inevitável — e os Estados Unidos não poderão ignorar por muito tempo essa nova realidade à beira da fronteira.
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