
Enquanto marcas da China aumentam presença global e viram pesadelo para montadoras tradicionais, o maior grupo de concessionárias dos Estados Unidos prefere, por ora, ficar de fora desse jogo em casa.
A postura cautelosa vem de Lithia Motors, cuja rede gigantesca de mais de 400 lojas poderia ser a porta de entrada ideal para fabricantes chinesas no mercado norte-americano, mas que hoje não se mostra interessada em representá-las domesticamente.
O CEO Bryan DeBoer deixou claro que o obstáculo não é exatamente política, logística ou medo de rejeição do consumidor, e sim a matemática fria do investimento versus retorno.
Ele lembrou que a empresa já opera ao menos dez lojas no Reino Unido (United Kingdom) vendendo carros de três fabricantes chineses, o que mostra que a Lithia não tem resistência ao produto em si.
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Segundo DeBoer, o grande diferencial é que no mercado britânico existe a prática de “dueling of franchises”, que permite agrupar marcas concorrentes no mesmo showroom, dividindo custos de estrutura.
Com essa flexibilidade, a Lithia consegue, por exemplo, encaixar veículos de uma companhia como a chinesa Chery Automobile em uma loja já existente, gastando menos de US$ 100.000, algo como R$ 519.000 em adaptação.
Nos EUA, o cenário muda completamente, porque as leis de franquia são bem mais rígidas, variam de estado para estado e dão às montadoras mais poder para vetar arranjos desse tipo.
Na prática, para vender uma marca chinesa no mercado americano, a Lithia teria de criar novas operações de varejo e pós-venda praticamente do zero, o que exige investimentos pesados e risco elevado.
DeBoer destacou que entre 50% e 60% dos lucros da companhia vêm justamente de serviços e peças, o que torna obrigatório montar uma estrutura completa e robusta para qualquer nova marca representada.
Diante disso, ele afirmou que o grupo provavelmente não será um “early adopter” de marcas chinesas nos EUA, nem mesmo no vizinho Canadá, onde a empresa também atua com força.
O discurso de cautela surge em um momento em que fabricantes chinesas ampliam exportações e abrem novas frentes, com participação de mercado global saltando quase 70% em apenas cinco anos.
Já existem carros produzidos na China sendo vendidos nos EUA com logotipos de marcas ocidentais, como Buick e Volvo, mas nenhuma bandeira própria chinesa, como BYD ou Nio, chegou oficialmente às lojas americanas.
O movimento mais recente de expansão chinesa anunciado é justamente em direção ao Canadá, mercado pequeno em volume, mas que removeu tarifas de 100% sobre veículos chineses após disputa com a administração do ex-presidente Donald Trump.
Mesmo assim, DeBoer insiste que a Lithia não está trancando a porta, revelando que o grupo já constrói relacionamentos com várias marcas chinesas em diferentes mercados.
A estratégia é manter a cabeça aberta, observar como esses fabricantes evoluem globalmente e entrar no jogo apenas quando as oportunidades forem compatíveis com o retorno financeiro esperado.
Os comentários foram feitos durante a divulgação dos resultados anuais da empresa, que mostrou crescimento de 4% na receita e de 3,1% no lucro bruto, reforçando a posição confortável da rede.
No fim, o recado do maior dealer americano é que a maior barreira para a chegada massiva de carros chineses aos EUA talvez não esteja em Washington, e sim na combinação de leis de franquia e contas de investimento dos próprios grupos de concessionárias.
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