
Na China, quando um único incidente de trânsito vira manchete em veículo estatal, normalmente o assunto não é só o carro, mas quem está por trás da marca.
É exatamente essa leitura que começa a se consolidar em torno da Tesla, em um momento de queda brusca nas vendas e desgaste político de Elon Musk com Pequim.
O caso que incendiou as redes sociais chinesas envolve um Model Y 2022 que simplesmente perdeu toda a propulsão em uma rodovia de Zhejiang, apesar de indicar ainda 72 quilômetros de alcance.
A motorista, identificada como Sra. Chen, seguia de Xangai para Taizhou quando o veículo apagou cerca de 2 quilômetros antes do acesso à área de serviço de Shengzhou.
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Ela relata que o carro começou a desacelerar sem aviso, até que todos os sistemas elétricos caíram de uma vez, a tela central desligou e a direção assistida desapareceu.
Sem pisca-alerta e com o painel completamente morto, a condutora aproveitou o embalo para empurrar o carro até a faixa de emergência, onde o Model Y ficou totalmente imobilizado.
Isoladamente, seria apenas mais uma falha em uma frota que já passa de 1,5 milhão de Teslas circulando pela China, algo estatisticamente esperado em qualquer grande montadora.
O que muda tudo é quem decidiu transformar o episódio em pauta de alcance nacional: o portal China.com, ligado ao Escritório de Informações do Conselho de Estado, braço direto do governo.
Em veículos dessa natureza, pautas não costumam ser aleatórias, e a escolha de destacar um defeito específico de Tesla indica, no mínimo, uma mudança de humor nas instâncias oficiais.
Essa exposição negativa aparece exatamente quando o desempenho da marca degringola, com vendas domésticas despencando 45% em janeiro de 2026, para apenas 18.485 unidades, pior nível em três anos.
O tombo de janeiro só aprofundou um 2025 já difícil, em que as vendas de varejo recuaram 4,78%, para 625.698 veículos, e a fatia da Tesla no mercado de NEVs caiu de 10% para 8%.
Ao mesmo tempo, concorrentes chinesas avançam com força: o Xiaomi SU7 superou o Model 3 em 2025, e o Xiaomi YU7 e o Xpeng G7 miram diretamente o público do Model Y com preços agressivos.
Com a demanda doméstica enfraquecida, a fábrica de Xangai vem sendo usada cada vez mais como plataforma de exportação, com mais de 73% dos 69.129 carros de janeiro enviados para fora da China.
Esse reposicionamento ocorre após anos em que a Tesla desfrutou de privilégios raros para uma montadora estrangeira, incluindo operação sem joint venture local e tratamento preferencial de autoridades.
Paralelamente, investigações apontaram que a empresa processou clientes e jornalistas críticos, vencendo quase 90% das ações ligadas a segurança e qualidade e inibindo denúncias públicas.
Agora, porém, a mesma estrutura estatal que evitava arranhar a imagem da marca passou a desmentir Musk sobre aprovação de FSD e a lembrar restrições a Teslas em áreas sensíveis por causa das câmeras.
Nesse contexto, a pane de um Model Y com autonomia restante deixa de ser um simples problema de software ou bateria e vira sinal político de que a era de proteção pode ter acabado.
Com vendas despencando, rivais locais em ascensão e a mídia oficial disposta a expor falhas, a Tesla corre o risco de perder, ao mesmo tempo, mercado, narrativa e boa vontade do governo chinês.
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