
Quem tentou montar um PC gamer recentemente já sentiu no bolso que os pentes de memória dispararam de preço, e agora a mesma crise ameaça encarecer e complicar a compra de carros novos.
A escassez global de chips de memória, que já apertou o mercado de smartphones, consoles e notebooks, começa a atingir em cheio os veículos modernos carregados de centrais multimídia, ADAS e funções semiautônomas.
Em um raro reconhecimento público do problema, a diretora financeira da Ford, Sherry House, foi questionada sobre o impacto da falta de memória na produção de carros durante o Wolfe Research summit em Nova York.
Ela afirmou que a montadora acredita ter acesso a suprimento “suficiente” por enquanto, mas admitiu que a pressão de preços já entrou nos planejamentos futuros de custos e margens.
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Analistas de mercado, porém, vêm soando o alarme há meses e já enxergam sinais claros de “compra de pânico” de chips de memória dentro do setor automotivo, segundo relatos compilados pela Bloomberg.
O problema começa nas três gigantes globais do segmento, Samsung, SK Hynix e Micron, que passaram a redirecionar boa parte da capacidade para chips usados em data centers de inteligência artificial.
Com isso, sobra menos memória para todo o resto, da RAM de computadores e consoles à eletrônica embarcada em carros, impactando tanto o volume disponível quanto o preço de cada componente.
Um exemplo didático vem do mundo dos PCs: um módulo de 16 GB de RAM que custava cerca de R$ 575 há sete anos hoje passa dos R$ 1.250, e ainda por cima com tecnologia considerada ultrapassada.
Se o valor de um simples pente de memória mais que dobrou, imagine o efeito multiplicador em um carro moderno, que concentra dezenas de módulos eletrônicos espalhados por powertrain, infotainment e sistemas de segurança.
Um blog técnico publicado em 2023 estimava que o veículo médio já carregava cerca de 90 GB de memória, somando todas as unidades de controle, número que poderia praticamente triplicar até 2026.
A ironia é que o alerta foi feito pela própria Micron, fabricante que recentemente decidiu encerrar a divisão de RAM para consumidores Crucial, justamente para desviar mais silício aos data centers de gigantes como Amazon, Google, Meta, Microsoft e OpenAI.
Enquanto isso, o mercado automotivo já enfrentava tarifas, incertezas regulatórias e fim de incentivos em vários países, fatores que empurraram os preços de carros novos a patamares de produto de luxo.
A nova crise de chips de memória tende a adicionar uma camada extra de custo, podendo ao mesmo tempo elevar preços finais e atrapalhar ritmo de produção e entregas às concessionárias.
Para lidar com veículos cada vez mais caros e escassos, muitas redes já vêm empurrando clientes para o estoque de usados, chegando até a recuperar e revender carros com histórico de perda total e documentos de salvado.
Sem previsão clara de quando o desequilíbrio entre demanda e oferta de memória será resolvido, especialistas acreditam que 2026 ainda será um ano difícil para quem quer um zero-quilômetro tecnológico na garagem.
Na prática, a disputa por chips entre data centers de IA e o restante da indústria está jogando o consumidor no meio do fogo cruzado, reacendendo o debate sobre a vantagem de optar por carros mais simples, antigos e com menos eletrônica.
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