Novo CEO da Nissan diz estar assustado com crise histórica, ameaça chinesa e até possível venda da marca

Homem calvo de terno azul segura um microfone e gesticula durante uma fala.
Executivo aparece de terno azul e segurando um microfone durante uma fala em ambiente interno.

A Nissan já vinha sendo pressionada por concorrentes chinesas em EVs, regras ambientais mais duras e tarifas imprevisíveis quando o conselho decidiu entregar o comando global a um engenheiro mexicano.

Em um setor em que Waymo, Tesla e marcas chinesas correm para baratear robôs-táxi e dominar software, a montadora japonesa percebeu que precisava de alguém disposto a acelerar decisões e assumir riscos.

Ivan Espinosa, hoje com 47 anos, é um “cara de carro” formado em engenharia e produto, que passou quase toda a carreira dentro da empresa, mas foge ao padrão tradicional do executivo japonês.

Antes de aceitar o cargo, ele reuniu a esposa e os dois filhos para perguntar se estavam prontos para uma mudança radical de vida, e só avançou depois do “sim” unânime em casa.

Quando assumiu, encontrou uma Nissan mergulhada na pior crise financeira desde o resgate comandado por Carlos Ghosn no fim dos anos 1990, com a aliança com a Renault longe das promessas de grande potência global.

Espinosa avalia que a empresa “perdeu o rumo” ao focar em metas de volume e resultados financeiros agressivos, alimentando uma cultura interna tóxica, cheia de política, tensão e brigas após a prisão de Ghosn em 2018.

Para tentar virar a página, ele montou rapidamente uma equipe de confiança, reunindo executivos com os quais já havia trabalhado de perto, como Guillaume Cartier, diretor de performance, e o chefe de tecnologia Eiichi Akashi.

Em até 90 dias no comando, o novo CEO anunciou um choque de realidade: fechamento de sete fábricas ao redor do mundo e corte de 20 mil postos de trabalho em escala global.

A reestruturação avança e o clima interno, segundo ele, ficou menos político, mas os números ainda pesam: a Nissan projeta um prejuízo anual em torno de R$ 21,7 bilhões, segundo ano seguido no vermelho.

Fornecedores continuam desconfiados das projeções de vendas, e um deles admite esperar apenas cerca da metade do volume prometido pela montadora, apesar de lançamentos recentes de novos produtos.

Com o grosso dos cortes encaminhado, a missão seguinte de Espinosa é definir como a empresa volta a crescer em um mercado redesenhado pela eletrificação e pelo software embarcado.

Um dos símbolos dessa nova fase é o sedã elétrico N7, desenvolvido em cerca de dois anos em parceria com a chinesa Dongfeng e lançado na China por menos de R$ 103 mil.

O plano é exportar o modelo para o Oriente Médio e outros mercados, usando a rapidez e a eficiência alcançadas na China como laboratório para operações em outras regiões, inclusive fora da Ásia.

A ironia é que a Nissan foi uma das pioneiras em EVs ao lançar o Leaf em 2010, mas hoje vê rivais como a BYD e outras marcas chinesas avançarem com força em Europa e mercados emergentes.

Com vendas anuais pouco acima de 3 milhões de veículos, Espinosa admite que parcerias são vitais, enquanto a Renault se move com acordos com a Ford em EVs compactos e com a Geely na área de motores a combustão.

A própria Nissan investiu na britânica Wayve para usar seus sistemas de direção autônoma, e o executivo acredita que a empresa pode se firmar como líder japonesa em mobilidade inteligente se conseguir executar bem essa agenda.

Colegas descrevem Espinosa como acessível e sem estrelismo, lembrando até da banda de rock Tempura Crime Scene, em que ele tocava baixo e bateria, e das surpresas musicais que ainda prepara para amigos.

No fim, porém, o tom é de realismo: diante de tantas mudanças, ele reconhece que “qualquer coisa pode acontecer” — inclusive a venda da Nissan para um rival, eventualmente até chinês.

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Escrito por

Eber do Carmo

Fundador do Notícias Automotivas, com atuação por três décadas no segmento automotivo, tem 20 anos de experiência como jornalista automotivo no Notícias Automotivas, desde que criou o site em 2005. Anteriormente trabalhou em empresas automotivas, nos segmentos de personalização e áudio. Sua rede social: Facebook

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