
Depois de anos em que a Renault tentava vender uma narrativa de reinvenção, a mensagem que chega agora ao mercado é mais dura: para sobreviver, pode ter de pensar como as montadoras chinesas de baixo custo.
Francois Provost, ex-chefe de compras conhecido por controlar gastos, prepara para esta terça-feira um plano estratégico perto de Paris em que a tesoura deve virar protagonista.
O CEO tem buscado aproveitar mais tecnologia da parceira chinesa Geely para reduzir custos de desenvolvimento, mas a desconfiança cresce diante do desempenho pior de vendas.
Mesmo com o discurso de eficiência, a ação da Renault acumula queda de 20% neste ano, em meio a sinais de enfraquecimento comercial que ofuscam qualquer economia possível.
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Pierre-Olivier Essig, analista da AIR Capital, diz que Provost é um cortador de custos, mas que suas decisões e comentários sobre estratégia até aqui não convenceram.
Para Essig, o que mais preocupa é a ausência de visão de futuro, justamente quando rivais chineses avançam na Europa com rapidez e preço agressivo.
O evento de terça marca a primeira grande atualização aos investidores desde que Provost substituiu Luca De Meo em julho, depois de uma gestão que reposicionou a empresa.
De Meo lançou uma série de novos modelos, devolveu a Renault à lucratividade e fechou acordos com nomes como Geely e a Alphabet, via Google.
Só que um alerta de lucro em 15 de julho, último dia de De Meo no cargo, provocou uma onda de vendas e feriu a confiança do mercado no papel.
Publicamente, Provost prometeu continuidade, mas nos primeiros meses desfez movimentos do antecessor, incluindo o desmonte da Ampere, braço de software e EVs.
Ele também tirou a Renault das corridas de endurance, congelou investimentos em recarga rápida e descontinuou vários serviços de mobilidade.
Fontes familiarizadas com o tema dizem que parte dessas decisões foi necessária para corrigir metas consideradas ambiciosas demais, mas o desafio vai além de custos.
Depois de liderar o crescimento de vendas entre grandes montadoras na Europa no ano passado, a Renault despencou em 2026, com quedas fortes em janeiro e fevereiro.
Ao mesmo tempo, fabricantes chinesas lideradas pela BYD aceleram na Europa com veículos acessíveis, exatamente o terreno em que a Renault construiu sua reputação.
Em conversas com funcionários, Provost cita os chineses como exemplo de agilidade e eficiência, segundo pessoas que pediram anonimato por se tratar de discussões internas.
Ele próprio disse no mês passado que, quando a Renault gasta €1,5 bilhão [R$ 9.065.000.000] em veículos definidos por software, rivais chineses gastam cerca de um quinto disso.
Provost também afirmou que, se a Renault leva dois anos para colocar SDV em um carro novo, os chineses conseguem fazer o mesmo em menos de seis meses.
Ele chegou a avaliar adotar uma arquitetura de veículo da Geely em vez de outra que a Renault desenvolve com a francesa Valeo, mas desistiu para evitar controvérsia.
O governo francês, que detém 15% da Renault, teme ceder soberania tecnológica em uma indústria considerada estratégica e observa de perto qualquer dependência externa.
Segundo fontes, Provost pediu que equipes recalculassem custos ligados ao compacto R5, mirando a troca de alguns componentes por alternativas chinesas mais baratas.
Ele também teria interrompido investimentos na Dacia, cortado projetos na esportiva Alpine e colocado o time de Fórmula 1 sob aviso por melhora rápida.
Christian Stein, diretor de comunicação da Renault, afirmou que o plano é manter independência tecnológica na Europa e entender o “benchmark” chinês para se adaptar produzindo localmente.
A Renault vem usando P&D na China e peças do país para desenvolver o Twingo elétrico abaixo de €20.000 (cerca de R$ 120.870), e Provost prometeu aplicar as lições aprendidas.
Sindicatos aguardam detalhes sobre o impacto disso em empregos na França, enquanto o plano FutuREady é apresentado como resultado de “trabalho coletivo” interno.
O encontro acontece no Technocentre, complexo dos anos 1970 a oeste de Paris, onde Provost quer gestores presentes a maior parte do tempo, o que já gera frustração.
Na segunda-feira, as ações caíam 1,6% às 11h37 em Paris, no menor nível desde outubro de 2022, em um clima que o Citi diz estar tão ruim que é difícil piorar.
Mesmo assim, o presidente do conselho, Jean-Dominique Senard, tem respaldado Provost em público e afirmou que ele está fazendo exatamente o que deveria fazer.
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