
Antes de falar em Tesla ou Noruega, vale olhar para um lugar improvável onde a revolução elétrica está acontecendo rápido demais para ser ignorada.
A Etiópia, um país com renda anual em torno de R$ 5.200 por habitante e apenas 13 veículos para cada mil pessoas, resolveu usar justamente essa “defasagem” como vantagem.
Em 2024, o governo simplesmente proibiu a importação de carros a combustão e derrubou tarifas para EVs, tornando veículos elétricos muito mais baratos que qualquer carro novo a gasolina ou diesel.
O gatilho foi econômico: o país gastava cerca de R$ 20,9 bilhões por ano importando gasolina e diesel, enquanto via suas reservas em moeda forte derreterem num cenário de juros altos globais.
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Ao mesmo tempo, a gigantesca hidrelétrica no Nilo entrou em operação plena em 2025, entregando 5,15 GW de energia e gerando um excedente que hoje é exportado para Tanzânia, Djibuti e Quênia.
Com custo de geração na casa de R$ 0,52 por kWh, bem abaixo dos vizinhos e de mercados como EUA e Reino Unido, abastecer EVs virou opção lógica tanto para governo quanto para motoristas.
O resultado é que, em poucos anos, aproximadamente 6% da frota de veículos etíope já é elétrica, superando a média global de 4% e até mesmo países muito mais ricos em ritmo de adoção.
Quando o banimento dos carros a combustão foi anunciado, a crítica era óbvia: o país não tinha praticamente nenhum carregador rápido instalado em vias públicas.
A resposta foi inverter a lógica ocidental de “planejar primeiro e agir depois”, impondo que postos de combustível, lojas de EVs, novos conjuntos habitacionais e até parques passassem a oferecer pontos de recarga.
Hoje, já existem cerca de 500 carregadores rápidos espalhados pelo território, ainda longe do ideal, mas suficientes para sustentar um crescimento acelerado da frota elétrica, especialmente em Addis Ababa.
No dia a dia, isso aparece em detalhes como o aplicativo de caronas Ride, que em três anos saiu de 100% de carros a combustão para algo entre 70% e 80% de viagens feitas em EVs.
Boa parte desses carros é nova e vem de marcas chinesas, com modelos da Changan dominando o uso em táxis e produtos da BYD caindo no gosto de compradores particulares.
Como o país nunca teve uma grande indústria automotiva, a estratégia foi usar tarifas para estimular montagem local: EVs totalmente montados pagam 15% de imposto, semi-montados 5% e kits completamente desmontados entram praticamente sem tarifa.
Hoje, 17 fábricas montam elétricos a partir de cerca de 150 a 200 componentes, em grande parte importados da China, e o plano oficial é chegar a 60 plantas até 2030.
Na mobilidade de duas rodas, o salto também é elétrico e tem nome e sobrenome: Dodai, startup criada pelo japonês Yuma Sasaki, que escolheu a Etiópia justamente por ser um mercado grande e difícil, com pouca concorrência.
Ele apostou que uma metrópole de 8 a 10 milhões de habitantes, sem infraestrutura para todo mundo ter carro, acabaria inevitavelmente dependendo de motos, e que, ali, fazia mais sentido que fossem elétricas.
Mesmo com restrições a motos para uso pessoal, Sasaki convenceu o governo de que duas rodas elétricas seriam vitais para entregas, e-commerce e geração de renda, oferecendo em troca rastreamento por GPS e IoT para atender às preocupações de segurança.
Três anos depois, a Dodai já vendeu cerca de 1.800 motos, detém 95% do mercado de Addis Ababa e começou a implantar uma rede de troca rápida de baterias, com meta de 100 a 200 estações e ao menos 3.000 usuários.
A empresa monta as motos localmente a partir de kits totalmente desmontados, aproveitando a simplicidade mecânica dos elétricos para treinar mão de obra e reduzir custos de produção.
Para financiar a expansão, a Dodai levantou algo em torno de R$ 36,5 milhões em rodadas anteriores e prepara agora um novo aporte que deve superar R$ 52 milhões, focado em ampliar a rede de swapping e sua plataforma de software.
Se a política atual continuar, a Etiópia caminha para repetir na mobilidade o que muitos países em desenvolvimento fizeram com a telefonia: pular etapas e ir direto para a era elétrica, deixando o carro a combustão como algo que praticamente nunca chegou a se consolidar.
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