Por que 800 V virou a nova moda dos EVs e como isso pode encarecer seu próximo carro sem você perceber

Parte inferior de um veículo elétrico exposta, com módulos de bateria, cabos laranja, suspensão e rodas.
Estrutura inferior de um veículo elétrico expõe os módulos de bateria, cabos de alta tensão e componentes da suspensão.

Durante mais de uma década, quase todo EV rodou com a mesma espinha dorsal elétrica, baseada em baterias operando em torno de 400 V, mas um movimento recente está tentando dobrar essa aposta.

A arquitetura de 800 V ganhou espaço porque promete recargas muito mais rápidas, desempenho sustentado e eficiência melhor, só que essa troca muda o carro inteiro por dentro.

Modelos como Porsche Taycan e Hyundai Ioniq 5 ajudaram a popularizar o assunto ao falar em recargas de 18 minutos e performance forte mesmo em uso exigente.

O ponto central é física pura, porque potência é o resultado de tensão multiplicada pela corrente, então aumentar a tensão permite entregar a mesma potência com menos corrente.

Com menos corrente circulando, caem as perdas elétricas, diminui o calor em conectores e cabos, e fica mais fácil reduzir espessura de fios e peso do chicote.

Essa parte do peso costuma ser subestimada, já que há estimativas de chicotes de EVs na faixa de 60 a 70 kg, com cabos de alta corrente entre os mais grossos.

Ao migrar para 800 V, dá para usar menos cobre, barras condutoras menores, cabos de recarga mais leves e até menos hardware de refrigeração.

Na prática, isso também melhora a ergonomia nos carregadores públicos, porque um cabo mais leve deixa a conexão menos parecida com “lutar” contra uma mangueira rígida.

Só que ter um EV compatível com 800 V não significa ganhar recarga mais rápida automaticamente, já que tudo depende de limites do posto, da temperatura da bateria e da curva de carregamento.

Várias marcas anunciam recarga “até 350 kW”, mas esse “até” é o que manda, porque a potência máxima nem sempre se sustenta por muito tempo.

Hoje, redes como IONNA e Electrify America nos EUA oferecem “até 350 kW”, com hardware normalmente suportando tensão de saída entre 920 e 1.000 V.

Essa folga é crucial, porque entregar 350 kW em um veículo de 400 V exigiria algo perto de 900 A, corrente alta demais para a maioria de cabos e conectores.

Em 800 V, a mesma potência pede aproximadamente metade da corrente, o que ajuda a manter recarga forte sem levar componentes ao limite térmico.

Ainda assim, se um EV de 800 V for conectado a um carregador de 400 a 500 V, o carro precisa elevar tensão internamente via conversor DC-DC ou reconfigurar o pacote, às vezes dividindo a bateria em duas metades de 400 V.

O lado amargo é o custo, porque semicondutores de carbeto de silício, contatores mais robustos, conversores, isolamento e requisitos de segurança em alta tensão encarecem o conjunto.

De acordo com a Leapenergy, a diferença hoje fica em US$ 1.180 (aproximadamente R$ 6.200) e a projeção é cair para US$ 420 (equivalente a R$ 2.200) até 2028.

As projeções apontam que 800 V deve ficar concentrado em EVs mais caros no começo e só depois descer para faixas mais acessíveis.

Há estimativas de que 15% a 20% dos EVs globais adotem 800 V até 2030, enquanto no segmento premium mais da metade dos veículos acima de US$ 60.000 [cerca de R$ 313.400] pode usar essa base.

A China pode empurrar a adoção ainda mais rápido, com projeções de aproximadamente 35% de penetração até o fim da década.

Mesmo assim, os 400 V não devem desaparecer tão cedo, porque são mais simples, baratos e maduros, atendendo bem a maioria dos usos, especialmente com recarga doméstica.

Por isso, EVs de grande sucesso como Tesla Model Y e Ford Mustang Mach-E seguem em plataformas otimizadas de 400 V e ainda entregam tempos competitivos.

No fim, 800 V é futuro, mas não de forma instantânea, porque é mais uma evolução que acelera a recarga e facilita engenharia de alta performance do que uma troca total de padrão.

[Fonte: Ars Technica]

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Escrito por

Eber do Carmo

Fundador do Notícias Automotivas, com atuação por três décadas no segmento automotivo, tem 20 anos de experiência como jornalista automotivo no Notícias Automotivas, desde que criou o site em 2005. Anteriormente trabalhou em empresas automotivas, nos segmentos de personalização e áudio. Sua rede social: Facebook

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