
Antes mesmo dos consumidores cansarem dos “tablets sobre rodas”, foi o governo chinês que decidiu colocar um freio na onda de interiores cheios de telas e quase nenhum botão.
Depois de mirar maçanetas retráteis e volantes yoke em nome da segurança, agora as autoridades querem mudar de vez a forma como o motorista interage com funções essenciais do carro.
Uma nova rodada de regras, em preparação desde 2023, deve obrigar as montadoras a reinstalar comandos físicos para operações básicas do veículo, reduzindo a dependência de menus e submenus em telas sensíveis ao toque.
O trabalho é liderado pelo Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação, em parceria com grandes fabricantes locais e com o centro estatal de pesquisa automotiva, e mira diretamente o interior dos modelos novos.
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A minuta determina a presença de controles mecânicos dedicados para quatro áreas chave: iluminação, seleção de marchas, comando mestre dos assistentes de condução e sistemas de segurança e emergência.
Na prática, isso significa que setas, faróis, lampejos, buzina, limpadores, desembaçadores, vidros elétricos, desligamento dos EVs e chamadas de emergência precisam ter botões ou alavancas próprios e claramente identificados.
As futuras normas também devem especificar posição, dimensões e características desses comandos, justamente para evitar “jeitinhos” com botões minúsculos escondidos sob a tela ou funções inacessíveis em situações críticas.
A exigência inclui a operação mesmo com o carro sem energia, algo que superfícies hápticas e interfaces totalmente digitais não conseguem garantir com a mesma confiabilidade após um acidente grave.
Hoje, boa parte dos modelos vendidos na China caminha para a eliminação quase completa de botões, com telas gigantes concentrando tudo e comandos de voz tentando dar conta de operações rotineiras.
Nem todas as montadoras, porém, estão confortáveis com essa tendência, e o governo decidiu intervir alegando preocupação com distração ao volante e respostas lentas em emergências.
Se o cronograma for mantido, as novas exigências passarão a valer para veículos inéditos produzidos a partir de 1º de julho de 2027, forçando uma revisão profunda de projetos já em desenvolvimento.
A movimentação aproxima a China da União Europeia, onde o Euro NCAP anunciou que, a partir de 2026, passará a tirar pontos de carros sem comandos físicos básicos operáveis sem desviar o olhar da via.
Embora não seja lei, uma nota ruim em segurança nesses testes independentes costuma pesar bastante na decisão de compra e pode inviabilizar modelos muito radicais em digitalização.
Nos Estados Unidos, a legislação ainda é mais permissiva, exigindo botões apenas para poucas funções, como desembaçadores e pisca-alerta, espaço em que a Tesla vem testando os limites com soluções totalmente digitais.
A marca americana aboliu a tradicional alavanca de seta e o seletor de marchas em alguns modelos, confiando em um sistema que “adivinha” o sentido desejado e permite correções diretamente na tela central.
A ofensiva regulatória chinesa, porém, não se limita às telas e, no fim de 2025, também alcançou maçanetas retráteis internas e externas, consideradas perigosas em colisões ou panes elétricas.
As montadoras terão de adotar mecanismos mecânicos de abertura de portas com posição e identificação padronizadas, para que ocupantes e equipes de resgate não precisem “caçar” o comando em segundos decisivos.
Mais recentemente, os reguladores também proibiram volantes do tipo yoke, exigindo a volta dos aros completos a partir de 2027, sob o argumento de que o formato exótico prejudica o controle fino e até a atuação do airbag.
Somando limites para telas, maçanetas e volantes, a China envia um recado claro: o design do interior pode ser ousado, mas não às custas de ergonomia básica e segurança em situações de emergência.
Se essas diretrizes forem copiadas por outros mercados, a era do painel totalmente limpo e dependente de touchscreen pode estar com os dias contados, recolocando velhos botões no centro do debate sobre segurança automotiva.
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