
O contraste que define o momento da Toyota é duro: lucros gigantescos de um lado, clima de urgência quase paranoica com custos e EVs do outro.
A nomeação de Kenta Kon, até então diretor financeiro e ex-secretário de Akio Toyoda, para substituir o engenheiro Koji Sato deixa claro que o comando agora fala a linguagem dos números.
Na coletiva que apresentou o novo CEO, o tema EVs praticamente desapareceu do discurso público, enquanto Kon reforçou a promessa de eliminar “cada centavo desperdiçado” em nome da sobrevivência.
Ele descreveu sua missão como preparar terreno para decisões “corajosas e ousadas” em um setor chacoalhado por tarifas, digitalização acelerada e avanço de rivais chineses em diversos mercados.
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Analistas apontam que a montadora entrou em uma fase quase obsessiva com volumes de equilíbrio, revisando investimentos, projetos e iniciativas com um senso de emergência pouco comum em tempos de lucro recorde.
A aposta em híbridos, defendida por anos como alternativa mais realista aos EVs puros, acabou blindando a empresa de parte do impacto de tarifas que somariam algo próximo de R$ 49 bilhões nos Estados Unidos.

Enquanto outras gigantes foram forçadas a registrar baixas contábeis pesadas em programas de EVs, a Toyota vendeu 11,3 milhões de veículos em 2025 e deve acumular lucros líquidos perto de R$ 440 bilhões no período de Sato.
Esse sucesso, porém, não esconde a perda de espaço em regiões onde os EVs ganham tração, com marcas chinesas como BYD avançando com modelos acessíveis, inclusive híbridos plug-in.
Na Europa e no sudeste asiático, o portfólio da empresa corre para acompanhar uma onda de EVs que vem tanto da China quanto de rivais tradicionais, pressionando margens e participação.
Em 2021, a empresa projetou vendas de 3,5 milhões de EVs e 30 novos modelos até 2030, metas que Sato tentou destravar ao prometer 1,5 milhão de unidades anuais já em 2026.
A realidade foi bem mais tímida, com cerca de 200 mil EVs vendidos no ano passado, o que alimenta a percepção de que as metas de eletrificação devem ser revistas ou, no mínimo, adiadas.
Mudanças na política climática dos Estados Unidos e o afrouxamento do plano europeu para banir motores a combustão em 2035 deram mais fôlego para a estratégia de “múltiplos caminhos” da marca.
A visão oficial segue defendendo uma combinação de híbridos, EVs e modelos a hidrogênio, ajustada conforme infraestrutura, renda local e regulamentação, mas sempre com olho clínico nos custos de cada aposta.
Sob Kon, a empresa já dá sinais de que dobrará a aposta nos híbridos, com planos de elevar em cerca de 30% a produção global desse tipo de veículo até meados de 2028.
Pessoas próximas relatam que a liderança ainda não enxerga com clareza quanto volume de EVs será necessário e, principalmente, quanto dinheiro real essa fatia poderá gerar no futuro.
Além da batalha tecnológica, Kon herda um imbróglio societário de peso, envolvendo a oferta de cerca de R$ 176 bilhões para fechar o capital da subsidiária Toyota Industries, alvo de contestação do fundo Elliott Management.
A extensão do prazo da oferta foi vista como vitória parcial dos ativistas, e o novo CEO terá de desmontar essa bomba-relógio antes de pensar na integração pós-fechamento de capital.
Enquanto isso, 2026 desponta como ano crítico para a estratégia de EVs da companhia, com uma leva de novos modelos chegando ao mercado antes da prometida virada para baterias de estado sólido a partir de 2027.
Na China, maior mercado automotivo do mundo, a empresa aposta em um modelo “China para a China”, com fornecedores locais e P&D no país, onde um SUV elétrico de cerca de R$ 82.800 já conseguiu vender 70 mil unidades em um ano.
Kon resume a filosofia dessa nova fase ao dizer que seu foco está em “dinheiro, lucro e números”, argumentando que só com disciplina extrema será possível financiar o futuro em EVs, software e direção autônoma sem perder o chão financeiro no presente.
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