
Enquanto o mercado de EVs esfria e as regras ambientais recuam em Washington, uma montadora em especial parece reviver seus piores vícios do passado recente, segundo reportagem do site The Verge.
A Stellantis, dona de Jeep, Ram, Dodge e Chrysler, vai registrar uma baixa contábil de cerca de R$ 138,2 bilhões ligada ao negócio de EVs, após rivais como GM e Ford já terem apagado, respectivamente, perto de R$ 39,6 bilhões e R$ 101,7 bilhões em apostas erradas semelhantes.
Para piorar, a companhia reservou mais aproximadamente R$ 87,1 bilhões em provisões para garantia e recalls, incluindo a convocação de 320 mil Jeep 4xe híbridos plug-in por risco de incêndio nas baterias.
Os nomes mudam — Stellantis, Fiat Chrysler, DaimlerChrysler, Chrysler Corp. — mas a cultura segue parecida, com soluções rápidas, correções baratas e pouco apetite para enfrentar de verdade mudanças tecnológicas e de gosto do consumidor.
Veja também

Nos Estados Unidos, essa “solução fácil” continua sendo vender caminhonetes, SUVs e muscle cars com motores Hemi V8, e a empresa planeja embarcar 100 mil unidades desses motores do México em 2026.
Esses V8 devem equipar Ram 1500, Jeep Wrangler e outros modelos, numa estratégia que simplesmente atende à demanda imediata por desempenho e barulho, mesmo com o futuro pedindo outra direção.
Em teleconferência com analistas, o novo CEO Antonio Filosa celebrou a chamada Big Beautiful Bill do governo Trump, dizendo que a lei dá liberdade para escolher a mistura entre versões a combustão e elétricas, garantindo “muito lucro adicional”.
Isso só é possível porque a Casa Branca desmontou regulações, incluindo o histórico “endangerment finding” que obrigava a Agência de Proteção Ambiental a tratar gases de efeito estufa como ameaça à saúde pública.

Sem multas por descumprir metas de consumo e emissões, sem necessidade de comprar créditos de carbono de Tesla e sem pressão para investir pesado em EVs, as montadoras correm de volta para SUVs e picapes a combustão.
O discurso oficial fala em carros mais acessíveis, mas são justamente essas picapes e SUVs recheadas de equipamentos que empurraram o preço médio de um zero-km para algo acima de R$ 261 mil nos EUA.
A história mostra, porém, que a antiga Chrysler sempre era pega de surpresa quando a gasolina disparava, com pátios lotados de modelos beberrões e até uma falência em 2009 que exigiu socorro do governo.
No campo dos EVs, os tropeços são claros: o Dodge Charger Daytona elétrico não empolgou e precisou ganhar versão a gasolina, enquanto o Jeep Wagoneer S EV, que ultrapassa R$ 365 mil com opcionais, encalhou nas concessionárias.

O Jeep Recon 2026, fabricado no México, é a próxima tentativa de disputar clientes do Tesla Model Y, mas deve partir de cerca de R$ 349 mil e ainda sem o alívio de um crédito fiscal equivalente a quase R$ 39 mil.
Ao mesmo tempo, a Stellantis demorou para ter um rival direto para SUVs compactos como Toyota RAV4 e Honda CR-V, só ocupando esse espaço com o novo Jeep Cherokee híbrido 2026, segmento que responde sozinho por 21 por cento das vendas americanas.
A picape Ram, por sua vez, perdeu fôlego após brevemente ultrapassar a Ford F-150, num movimento influenciado pela polêmica saída do V8, problemas de qualidade na Ram 2025 e foco em versões caríssimas, como a Tungsten na casa dos R$ 454 mil.
Globalmente, a empresa ainda carrega 14 marcas, incluindo Fiat, Alfa Romeo, Lancia, Vauxhall e DS, sem uma âncora popular do porte de Chevrolet, Ford, Toyota ou Honda, e com tentativas frustradas de reposicionar Fiat e Alfa nos EUA.
Com participação no varejo americano batendo um fundo do poço em 5,4 por cento antes de pequena reação, a lealdade também desabou, com apenas 47 por cento dos proprietários repetindo a compra, bem abaixo dos 66 por cento da GM e 64 por cento da Toyota.
Na Europa, Peugeot e Citroën tinham desempenho relativamente sólido em EVs, mas o afrouxamento das metas de eletrificação em 2035 estimulou a Stellantis a ressuscitar motores a diesel em ao menos sete modelos, mesmo com a fatia desse combustível caindo para 7,7 por cento e os EVs já perto de 20 por cento.
Ainda assim, quando acerta, o grupo mostra força com produtos carismáticos como Ram, Jeep Wrangler, Dodge Challenger e o Maserati GranTurismo Folgore, e aposta em projetos como a picape Ram 1500 REV com sistema elétrico de autonomia estendida, baterias semi-sólidas em Charger Daytona de demonstração e um renascimento da Chrysler com sedã inspirado no conceito.
[Fonte: The Verge]
📨 Receba um email com as principais Notícias Automotivas do diaReceber emails
📲 Receba as notícias do Notícias Automotivas em tempo real!Canal do WhatsAppCanal do Telegram
Siga nosso site no Google Notícias










