
Enquanto muitos ainda tomavam o café da manhã, Ted Hummel já estava pendurado no para-choque dianteiro de uma caminhonete Ford F-150 2019, com os braços enfiados no cofre do motor.
O relógio marcava pouco depois das 7h, e ele já iniciava um trabalho que assustaria a maioria dos seus colegas: a troca completa da transmissão, um bloco de quase 140 kg que transfere força para as rodas.
Em vez de torcer o nariz, Hummel encara esse tipo de tarefa como desafio pessoal — e sabe que, se for rápido, o pagamento compensa.
Aos 39 anos, pai de dois filhos, ele é um dos técnicos automotivos mais qualificados da Ford nos EUA, com o título de “Senior Master”.
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Esse prestígio não vem de graça: em 2025, ele faturou cerca de US$ 160 mil, o equivalente a R$ 862 mil, segundo a reportagem do The Wall Street Journal.

Hummel virou peça valiosa em uma concessionária da marca em Kent, Ohio, onde poucos têm coragem ou preparo físico para lidar com câmbios pesados e trabalhos tão complexos.
Enquanto a maioria dos mecânicos foge desse tipo de serviço, ele domina o processo de cor a salteado, reduzindo pela metade o tempo oficial estimado para concluir a tarefa.
Naquele dia, por exemplo, a Ford pagaria 14,6 horas de trabalho pela troca — mesmo que ele a finalizasse em pouco mais de 5.
O sistema de pagamento por produção, chamado “flat rate”, recompensa os mais eficientes, mas também pressiona os menos experientes, que muitas vezes ficam sem salário se não há serviço disponível.
A escassez de profissionais qualificados é tão grave que o próprio CEO da Ford, Jim Farley, declarou em um podcast recente: “Temos 5 mil vagas abertas em nossas concessionárias nos EUA”.
Segundo ele, essas funções podem pagar R$ 646 mil por ano, mas exigem pelo menos cinco anos de treinamento intensivo.
Poucos persistem até alcançar esse nível, principalmente por causa do custo inicial: a formação técnica de Hummel custou cerca de R$ 161 mil, e o kit de ferramentas — de propriedade do próprio técnico — consome milhares de reais em financiamentos semanais.
Chaves especiais exigidas pela Ford podem custar até R$ 4.300 cada.
Além disso, o início da carreira costuma ser ingrato: o primeiro salário de Hummel, em 2007, era inferior a R$ 53 por hora.
Ele só ultrapassou a marca dos seis dígitos em 2022, dez anos depois de ingressar na atual concessionária.
Hoje, ele também treina aprendizes, o que representa cerca de um terço de sua renda total.
O cenário atual das oficinas é paradoxal: enquanto o custo das manutenções subiu 59% na última década, os salários médios dos técnicos cresceram apenas 34%.
A Ford informa que, após cinco anos, um técnico sênior costuma ganhar por volta de R$ 361 mil ao ano — sendo que apenas os que estão no topo da carreira superam os R$ 646 mil.
Mesmo com o reconhecimento, o trabalho cobra caro do corpo. Hummel evita forçar a coluna em levantamentos pesados, tentando prolongar sua saúde física.
Seu colega de equipe, Jim Eisenberger, não teve a mesma sorte: após duas hérnias e uma cirurgia, não conseguiu recuperar o ritmo e deixou a profissão.
Apesar disso, Hummel mantém a disciplina. Naquele dia, antes do almoço, ele já havia retirado o câmbio antigo e estava posicionando o novo com uma cinta de catraca.
Depois de montar tudo, saiu para testar o caminhão na estrada, conferindo se tudo funcionava como deveria.
“Está tudo bem suave”, disse, satisfeito.
Ao registrar o serviço no sistema e entregar as chaves, ainda teve tempo para resolver outros problemas menores antes de encerrar o turno.
No dia seguinte, às 7h em ponto, ele já estava pronto para encarar mais uma transmissão. E, se depender dele, vai seguir virando horas e desafiando o relógio — até onde o corpo permitir.
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